Tire os olhos da bola # 6 — Os olhos que enganam

Cassia Pires
Nov 5 · 5 min read

Semana 10 se aproxima e San Francisco 49ers é o único time invicto na temporada. Dessa forma, nada mais justo do que analisarmos uma jogada dessa franquia. A escolhida aconteceu no último Thursday Night Football, partida entre 49ers e Cardinals.

O que a defesa desse time tem feito é quase obsceno! O setor tem brilhado muito até aqui. No entanto, o HC Kyle Shanahan é reconhecido por sua mente ofensiva. Basta lembrar o que ele fez com Matt Ryan e os Falcons no caminho para o Super Bowl LI (e tomaram de virada quando o placar marcava 28x03, mas isso é outra história). Ao que tudo indica, Jimmy Garoppolo tem aprendido as lições e é um passe dele que vamos analisar no Tire os Olhos da Bola desta semana.

Eu achei que tinha sido só um passe bom…

Vamos do começo: no vídeo abaixo você vê a jogada da maneira que foi mostrada na transmissão. Eu insisto em colocar dessa forma em todas as análises para termos noção de que não é tarefa fácil tirar os olhos da bola.

Quando eu vi a jogada assim, eu pensei: “uai, foi um bom passe. Tanto que o defensor está na cola do recebedor o tempo todo… Foi “sorte” do ataque”. Solta o Faustão gritando: Errrrou! Dá para fazer um quadro só com os meus erros, porque eu errei, de novo.

Momento do jogo e formação ofensiva

Era uma 3ª descida, para 6 jardas, muito próximo da endzone. O jogo estava empatado, na casa do adversário, aos 9 minutos do 2º quarto. Se essa jogada não ganhasse jardas, tinha grande chances de irem para o Field Goal.

O ataque se arma em uma shotgun (eu falei sobre essa jogada aqui), jogada que favorece mais o passe. E se você parar para pensar, faz mais sentido mesmo a tentativa de passe… porque se completo, é um TD ou o ataque está a um passo, literalmente, da endzone. O personnel do ataque é 11 — um RB e 1 TE. Aliás, o TE George Kittle (85) é fundamental para o sucesso dessa jogada, mesmo não bloqueando ou recebendo.

Há um motion antes da jogada acontecer. O RB sai da extremidade da direita e vai para o lado do QB. Isso não dá para ver no vídeo que eu coloquei acima, mas vai ser possível notar no vídeo pela câmera técnica (mais abaixo). Nesse momento é possível confirmar a marcação individual por parte da defesa.

Na imagem abaixo, com as setas vermelhas eu aponto a marcação individual de cada jogador da defesa. Os jogadores da seta azul fazem a pressão ao quarterback. Os jogadores das setas amarelas, se dividem em uma cover dois.

Informação desnecessária: quando eu jogava na defesa, eu tinha pavor de fazer marcação individual na jogadora que ficava na shotgun.

Repare que a marcação individual funciona quase que perfeitamente. Praticamente todos os recebedores estão bem marcados (círculos azuis), exceto o jogador do círculo vermelho. Mas o CB responsável por ele está a caminho. Se o passe é para aquele lado, provavelmente o tackle seria imediato e os 49ers queriam TD. Mas JG nem olha para ele.

Ele olha mesmo é para onde está George Kittle, que se vira para receber a bola. O DB da esquerda faz essa leitura, e se antecipa para evitar o passe. Afinal, uma coisa que a gente ouve no futebol americano, é que é muito difícil o quarterback, com os pés plantados, olhar para um lado e lançar para outro.

Na imagem abaixo, o braço do QB já está em movimento e ele continua olhando na direção de Kittle. O tight end está sob marcação dupla (círculo laranja), todos os WRs estão muito bem acompanhados (só o RB que está sozinho, mas o defensor dele o encontrará em duas jardas, não seria TD).

COMO QUE ISSO PODE DAR ERRADO, CARDINALS!

Quando a luz dos olhos meus e a luz dos olhos seus…

Acontece, caro leitor, que mesmo não passando para George Kittle, Jimmy Garoppolo não precisava olhar para um lado e lançar para outro. A solução foi brilhante e simples ao mesmo tempo. A rota do WR #84 Kendrick Bourne acabava imediatamente atrás da rota do TE. Se o DB fosse para Bourne, provavelmente o passe ia para Kittle, como o DB foi para Kittle, o passe foi para Bourne.

Era um passe complicado mesmo de ser defendido pela posição que estava o defensor, uma vez que a bola veio para o ombro interno do WR. Aqui, aliás, vale um destaque para o trabalho do Bourne. Foi muito importante durante o contato, o WR ganhar a parte de dentro do campo para executar a rota, se ele não tem esse ganho do leverage e é obrigado a cortar por fora do CB, fica com a chance de perder a linha de passe. Então a vitória dele no leverage foi fundamental. Mas, a marcação dupla ali poderia atrapalhar bastante, e o DB da direita vacilou mesmo.

Com tudo isso em mente, é hora de ver o vídeo pela câmera técnica. Mas não se esqueça de tirar os olhos da bola.

Essa coluna conta com a colaboração do Deivis Chiodini, analista no @OntheClockbr, podcaster do @MileHighBrasil e redator no @profootballbr.

Para ler as outras análises, clica aqui.

*Tire os Olhos da Bola* é o título de um livro escrito pelo ex-técnico de futebol americano Pat Kirwan. O autor explica, de maneira bem completa, que para entender o esporte é preciso tirar os olhos da bola. O nome dessa coluna se inspira no livro.

Esportismo

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Cassia Pires

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