Alto Paraíso (GO) — Jardim de Maytrea (Arthur Schnabel)

A polêmica da concessão

Licitação aberta pelo ICMBio propõe cogestão pública e privada do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros gera polêmica

A 250 quilômetros de Brasília, preciosas cachoeiras e lendas de discos voadores ainda se escondem da urbanidade avassaladora. O Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros é uma Unidade de Conservação situada entre os municípios de Alto Paraíso, São Jorge e Colinas do Sul. Graças ao turismo, nas últimas décadas, toda a região se desenvolveu. Um projeto em curso pretende associar a iniciativa pública e privada para explorar novas oportunidades econômicas em troca de “agilidade e qualidade” nos serviços. O tema é polêmico e divide opiniões.

Alto Paraíso (GO) - Trilha Loquinhas (Erik Schnabel)

Juliana Torres é presidenta da Associação de Guias da Chapada e revela que os índices de visitação cresceram absurdamente nos últimos anos. O desenvolvimento na região beneficiou principalmente o município de São Jorge. Lá, grande parte dos guias era de mineradores. Segundo ela, graças às oportunidades oferecidas pelo turismo, hoje eles tem outras perspectivas.

A concessão do parque da Chapada foi anunciada pelo MMA no dia 24 de novembro de 2016 e terá duração de 10 anos. No entanto, a descentralização e licitação para o manejo têm ocorrido em outros parques do país, desde abril de 2016. Quando o desconhecimento da comunidade acerca do projeto se faz evidente, se justifica a preocupação por trás da concessão.

Info: Servitur Ecoturismo — Associação de guias da Chapada

No Boca-a-Boca

A feira do produtor local assume o platô da rua Joaquim Costa todo sábado de manhã. Lá, cidadãos não apenas podem trocar mercadorias, mas também fortalecer os vínculos com a comunidade e trocar informações importantes. Em Alto Paraíso, grande parte das informações ainda é transmitida pelo boca-a-boca. Paradoxalmente, essa marcante característica pode ser uma das causas de uma transformação drástica. Se somam o desinteresse político e falta de acesso às divulgações midiáticas modernas. Com a concessão, o aumento do fluxo de pessoas será inevitável e pouco a pouco a comunidade pode se afastar de suas raízes.

Alto Paraíso (GO) — Cláudia Lookin (Erik Schnabel)

Claudia Lookin, 60 anos, ambientalista, estava na feira do agricultor, conversava com turistas sobre problemas da região e os aconselhava. Para ela o contato pessoal é fundamental para mobilização em qualquer causa e a feira é ideal para se informar. Diz que grande parte da população tradicional de Alto Paraíso não domina o discurso político e por isso, muitas vezes, estão sucetíveis à desinformação. Cláudia morou na Chapada diversas vezes na chapada no decorrer da vida. Ouviu falar o projeto de concessão, porém não teve acesso a detalhes. A ambientalista observa que a quantidade de pessoas cresceu nos últimos anos. Comenta sobre a tentativa de um turismo sustentável e que não acredita nesse discurso.

O turismo, para ela, não consegue convencer os visitantes a não consumir produtos industrializados nas cachoeiras. “Acho super lesivo! A privatização será consequência do turismo, pessoas locais não terão espaço, será vendido Coca-Cola e Nestlé ao invés de leite de castanha com cacau local”, se posiciona a ambientalista. Uma cogestão da sociedade civil e um governo comprometido seria a solução apresentada por Cláudia. “O povo local não entende o discurso político”, problematiza.

Turismo

Andréia Lopes é secretária do turismo de Alto Paraíso, conta que o parque mudou a vida da comunidade local. Como Juliana, também enxerga que atividades econômicas se multiplicaram. A secretária do turismo não enxerga o fato de construir novas trilhas como algo nocivo para o meio ambiente, contanto que construídas de forma consciente. O município, segundo Andréia não tem recursos. “Com uma administração descentralizada, tudo seria mais viável”, completa.

A secretária não ouviu reclamações por parte da comunidade quanto ao processo e afirma existir uma fácil via de comunicação entre a comunidade e o órgão. Andréia relatou que o tema tem sido amplamente debatido através do próprio CONPARQUE (conselho consultivo da Chapada), em grupos e nas redes sociais. “Não será feito um tobogã”, brincou. A pergunta que preocupa Andréia é: “Fazer ou não, convênio com guias locais? Isso seria um impacto direto”, alerta.

Alto Paraíso (GO) —Acauã (Erik Schnabel)

Acauã, guia há 17 anos, diz ser preciso ainda fortalecer o tripé: guias, atrativos e prefeitura, através de uma lei municipal inclusiva. Não está muito envolvido com a situação política da região e não tinha ouvido falar no projeto de concessão público-privado. "O fluxo de pessoas aumentaria assim como o lixo. O público alcançaria áreas proibidas”. Para ele seria necessário mais socorristas. Acauã entende que guias já estão sobrecarregados. São, em média, 8 guias para 200 pessoas por atrativo, um sinal de perigo para ele.

Seu medo em relação à concessão é de se estragar o estilo de turismo característico da chapada. “Aqui o turismo é mais raiz, não sou a favor do turismo com suvenir e cheio de bam bam bam”, reclamou.

“Oportunidade de negócios…”

Pedro Menezes é coordenador de apoio à visitação às Unidades de Conservação administradas pelo ICMBio. Ele ressalta que o processo de concessão é uma forma de tirar o peso do estado de algumas atividades concedendo a gestão à entes privados. Já outras áreas seriam indelegáveis, como é o caso da polícia em nossa legislação.

A proposta visa abrir para o privado as oportunidades de negócio geradas pela unidade de conservação. Como outros parques do país, o Parque Nacional da Tijuca e Iguaçu se espelhou em parques da Argentina, Chile e África do Sul. Especificamente para a concessão, foi feito um estudo de viabilidade econômica e edital ancorado em estudos bastante completos, afirma Pedro.

No Parque da Tijuca, houve mais de 100% no aumento da visitação, saltando de 1.800.000 para 3.500.000 e meio de visitantes. Ao passo que quanto mais visitantes se tem, Pedro reconhece que sobe também a receita e problemas como assalto, lixo, incêndios e moléstia à fauna.

Info: ICMBio.gov.br

Segundo Pedro, os debates passaram por diversas oitivas, conselhos consultivos da Unidades do parque: conselhos participativos e representantes de associações. Foram acionados conselhos dos guias, prefeituras e associação de moradores locais.

Alto Paraíso de Goiás (GO) — Vista do Rio Preto a partir do Mirante do Carrossel, no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, que será aberto ao público em janeiro de 2017 (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Defesa contra o agronegócio

Bruno Mello é presidente da organização Mais Cerrado que conquistou a recente ampliação do Parque Nacional. Mora em São Jorge faz 23 anos e acha que o parque está muito desprotegido e com estrutura precária. O Parque, devido à falta de manutenção estaria sofrendo várias ameaças pelos madeireiros.

Para Bruno, o ICMBio assim como os funcionários do Ministério do Meio Ambiente são vítimas do problema que é sistêmico. Enxerga a terceirização do Parque como algo positivo. Segundo ele também, a soja do agronegócio é o que ameaça a Chapada. “Turismo deve ser incentivado. Caso contrário, o agronegócio toma conta!”, alertou Bruno.

Conheça a visão de alguns moradores de Alto Paraíso e se intere dos comentários de Pedro Menezes (ICMBio). Tudo isso e mais um pouco em nosso mini-doc: Chapada em Perspectiva!

Confira nossa matéria na versão impressa para o Esquina:

Veja também reportagem sobre responsabilidade ambiental e sustentabilidade nesta edição do Esquina On-line.