Vida Trans

Esse é o depoimento do brasiliense Daniel Adorno, 20 anos. Durante a infância e adolescência, ele atendia pelo nome de Carolina, que, de alguma forma, "morreu" em 2015. Dan, que existia em silêncio, nasceu em seguida para o mundo.

Daniel não é o único trans que enfrentou a resistência dos pais. Muitas vezes, o preconceito começa dentro de casa. Por isso, o psicólogo Thiago Magalhães alerta que os pais devem procurar a orientação de especialistas na temática, para ajudar a um lidar com uma criança ou jovem transgênero. "Não é nada fácil em um primeiro momento, mas é fundamental o suporte familiar, acolhimento, amor e respeito para o desenvolvimento da criança trans, pois o é no contexto familiar que ela consegue transferir segurança para a sociedade, refletindo na sua vida emocional, psicológica , estudantil e, futuramente, profissional ".

Conflitos internos e familiares são só alguns dos problemas que pessoas transexuais enfrentam. Diariamente elas são alvos de preconceitos por parte da sociedade. A transexual Ludymilla Anderson, 34 anos, conta que já foi confrontada muitas vezes, principalmente por mulheres. Lugares como banheiros e vagões especiais já foram o palco de preconceito.

E não acaba por aí. Ela, que é gestora pública, afirma que já foi excluída de seleções de emprego por ser uma mulher transexual. "Esses preconceitos acontecem a todo instante. Parece que estamos pedindo favores, e não requerendo direitos ", desabafa.

Além de lidarem com os conflitos internos e externos, os transexuais brasileiros não se sentem seguros no próprio país. De acordo com uma pesquisa realizada por organização não-governamental Transgender Europe (Tgeu) , o Brasil é o país onde mais se notificam assassinatos de transexuais no mundo. Não existem pesquisas oficiais que divulguem o número de transexuais residentes no Brasil ou mesmo em Brasília.

Ludymilla, que faz parte da Associação do Núcleo de Apoio e Valorização à Vida de Travestis, Transexuais e Transgêneros do Distrito Federal e Entorno (ANAVTrans ), afirma que a comunidade trans carece de números e dados oficiais. Ela explica que, muitas vezes, uma pessoa declarada travesti ou transexual sem documentos ratificados será entendida como gay ou lésbica.

Ludymilla Anderson, em junho de 2015 na Coordenação da Diversidade da Secretaria de Trabalho, Desenvolvimento Social, Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos (SEDESTMIDH). Foto: Divulgação / Facebook

Identidade

O Vice-Presidente da Comissão de Diversidade Sexual da Ordem dos Advogados Seccional do DF (OAB), Ricardo Sakamoto de Abreu, explica que para a troca dos documentos civis é necessário fazer o requerimento judicialmente, por meio de uma ação de alteração de prenome e gênero do registro civil. Ele alerta que não é preciso passar por cirurgia de redesignação sexual para fazer isso.

O estudante Daniel Adorno relata que, logo quando se mudou de Brasília para o Rio de Janeiro, sofreu preconceito no trote da faculdade.

Dan lembra que o pior episódio aconteceu recentemente, quando ele e a namorada resolveram contar a família da garota que Daniel era transexual. A mãe dela reagiu bem à notícia, mas o pai proibiu os dois de se relacionarem. O casal passou mais de dois meses sem ver. "Não foi só eu que sofri o preconceito, foi ela também", reflete.

O episódio inspirou Daniel a compartilhar essa experiência. Ele fez um vídeo que, além de ser um desabafo, também foi um meio que ele encontrou para encorajar outras pessoas que vivem situações parecidas.

O sogro de Daniel acreditava que, por ter uma filha que se relaciona com um homem trans, ela é bissexual. Esse pensamento é equivocado, e muitas pessoas pensam assim, devido a falta de conhecimento. O vídeo abaixo traz alguns esclarecimentos:

Classificações

Cisgêneros, transgêneros, transexuais e travestis possuem diferentes identidades de gênero. Para entender um pouco mais, o coordenador da comissão especial LGBT do Conselho Regional de Psicologia do DF, Thiago Magalhães, explica alguns conceitos.

É importante ressaltar que a definição desses conceitos não é consenso na literatura e no movimento LGBT. O psicólogo discute estes conceitos com base na literatura à qual já teve acesso, na militância no movimento LGBT, no diálogo constante e no atendimento de pessoas que lidam com essas questões.

"É preciso ter preparo"

A cabeleireira transexual Camila Almeida, 32 anos, é um caso raro ao afirmar que não sofreu muito preconceito.

Para o estudante Daniel Adorno, são as mulheres transexuais que enfrentam mais dificuldades, pois muitas vezes sofrem misoginia por parte de mulheres e homens. "Elas são deixadas de lado até em movimentos feministas radicais. As pessoas vinculam muito à prostituição com trans, tendo uma concepção de que uma mulher transexual é uma prostituta ", diz Daniel.

Intolerância

A estudante de direito e militante LGBT da coletiva Corpolítica, Maria Léo Araruna, 22 anos, sabe bem como é lidar com o preconceito. Ela, que também é escritora, se define como travesti. Maria conta que já foi expulsa de uma escola em que dava oficinas de direitos humanos, por usar roupas femininas. Além disso, ela admite que já foi hostilizada por homens, principalmente em aplicativos de relacionamentos. Chamada de "demônio" e "farsa", a estudante já escutou que "não é mulher de verdade, só servia para fazer gozar".

Maria Léo Araruna. Foto: Arquivo Pessoal

Maria enfrenta menos repressão no centro de Brasília, apesar de notar os olhares julgadores das pessoas. "Na 'periferia' o risco de ser agredida é maior. Eu tenho sorte de carro e de vida ao lado do Plano Piloto ", diz. A estudante começou o tratamento hormonal há pouco mais de dois meses.

Tratamento Hormonal

O psicólogo Thiago Magalhães explica que é necessário o acompanhamento de especialistas no processo do tratamento. Jamais se deve fazer o processo sem acompanhamento médico, como aconteceu com a cabeleireira Camila Almeida. Hoje ela admite o erro, mas afirma que muitas mulheres transexuais optam por se automedicar por acreditarem que a dose de hormônio é a mesma para todas.

O estudante Daniel Adorno revelou que, além de enfrentar muita resistência com alguns profissionais da saúde, ele se deparou com uma grande vilã em seu tratamento hormonal: a ansiedade. Ele teve dificuldade para ver as mudanças em seu corpo, e isso gerava frustração e baixa autoestima. "Eu percebi que tinha que registrar a transição para ver claramente as mudanças no futuro”, conta ele, que hoje registra a transição por meio de fotografias e vídeos.

Neste vídeo, em julho de 2016, Dan relata as mudanças que percebeu em si mesmo tanto fisicamente, quanto psicologicamente.

Daniel relata que os colegas da faculdade têm dificuldade em vê-lo como um homem comum. "Me tratam com uma certa distância, quase como uma garota. Não apertam a minha mão , não me veem como um deles. Eu acabo sendo o esquisitão excluído do grupo ", desabafa. A situação só melhorou nos jogos universitários, quando o estudante participou com os garotos. "Pelo fato de estarmos jogando juntos eles perceberam que eu sou um deles".

Cirurgias

Mais avançado no tratamento hormonal, Dan realizou a cirurgia de mamoplastia masculinizadora no final de janeiro deste ano. O estudante conta que decidiu realizar o procedimento porque nunca sentiu bem com os seios. Quanto à cirurgia de redesignação sexual, o jovem espera um dia poder realizá-la, mas não no Brasil. "Eu não conheço muitos resultados do procedimento no nosso país. Talvez no futuro eu faça, mas agora estou mais interessado em retirar meu útero e ovários", afirma.

No processo de redesignação sexual masculina é realizada uma histerectomia (retirada de útero, ovários) e mamoplastia masculinizadora (retirada das mamas). A Sociedade Europeia de Urologia criou esta animação em 3D, para demonstrar como é feito o procedimento.

Já a redesignação sexual feminina consiste na construção de uma neovagina a partir da pele do pênis ou de um retalho de mucosa do intestino grosso. A redesignação sexual feminina pode envolver, ainda, cirurgia de feminização facial e aumento de seios.

A cabeleireira transexual Camila Almeida conta que já colocou próteses nas nádegas e nos seios, aos 17 e 22 anos, respectivamente. Ela conta que decidiu fazer isso por uma questão de estética, para se sentir feminina. Quanto à cirurgia de redesignação sexual, Camila ainda não tem planos. Desde os 14 anos, quando decidiu adotar a postura feminina, Camila já se sente renascida.

Camila Almeida. Foto: Arquivo Pessoal

Veja reportagem feita sobre o assunto para Revista Esquina:

Reportagem: Ana Carolina Alves

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