O tempo de espera nas paradas de ônibus chega a duas horas na primeira cidade operária do DF

Imagine a seguinte situação: você embarca em um coletivo e, logo depois, uma das rodas cai e sai rolando pela rua. Parece absurdo, mas isso é uma das inúmeras queixas que os moradores da Fercal relatam nesta reportagem. Na região, as reclamações em relação ao transporte público são muitas: ônibus velhos, empoeirados, com problemas nos freios, portas e janelas estragadas. A região administrativa que carrega o título de primeira cidade operária do Distrito Federal não tem sequer um terminal rodoviário. Ao todo, a área compreende 14 comunidades, seis rurais e as demais urbanas, com uma população estimada em mais de 30 mil habitantes.

Trajeto que os moradores fazem até a rodoviária de Sobradinho.

Acompanhe o relato da Auxiliar de serviços gerais, Ariadna da Silva, moradora da Fercal há mais de 25 anos.

Apesar de ser mais antiga do que a capital federal, a Fercal se tornou cidade em 2012, depois que a Câmara Legislativa aprovou o projeto de Lei nº 685/2012 que a transformou na 31ª região Administrativa do DF. Os insumos para a construção de Brasília saíram de lá, por isso o título de 1ª Cidade Operária do DF. O que chama atenção e gera incoerência é o fato da maior geradora de impostos do DF ser tão atrasada em relação às outras cidades. O transporte público é só um dos problemas que a população clama por melhorias, tanto os que trabalham na própria cidade, como os que precisam se deslocar para outros locais.

Segundo dados da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan), 53,64% dos moradores trabalham na própria região, o restante em outras cidades do DF: 15,04%, no Plano Piloto e 11,85%, em Sobradinho.

Onde os moradores da Fercal trabalham

Quem trabalha no centro de Brasília também enfrenta muitos problemas: um deles é o número baixo de coletivos. Apenas duas linhas ligam a Fercal ao centro da capital. Detalhe: só tem durante a manhã, o último ônibus sai da Fercal às 6h40. Acompanhe o relato da dona de casa, Maria Aparecida de Oliveira.

Ela conta que o filho estuda no Plano Piloto e, muitas vezes, quando chega à rodoviária de Sobradinho, não tem mais coletivos para a Fercal. O jeito é apelar para o transporte pirata ou pedir carona para amigos ou parentes. Ela também reclama do preço das passagens e cobra das autoridades mais qualidade nos serviços prestados.

Outra reclamação constante entre os moradores são os atrasos, os coletivos não passam nos pontos de ônibus nos horários previstos. A cuidadora de idosos Elisângela da Silva afirma que nunca consegue chegar ao trabalho na hora certa.

As reuniões entre moradores, líderes comunitários e representantes da Secretaria de Mobilidade são realizadas com frequência. Até estudos foram feitos, com o objetivo de melhorar o serviço prestado na comunidade. Diego Matos é um dos líderes comunitários que participou das discussões, mas até agora as melhorias não chegaram e a população continua enfrentando os mesmos problemas.

“Há menos de um ano foi realizado no Centro Comunitário da comunidade do Engenho Velho uma reunião com diretores do DFTrans, lideranças comunitárias da Fercal e demais moradores com reclamações pontuais acerca do transporte pública na Fercal, como falta de cumprimento de horário, ônibus velhos estragados, mudança de itinerário da linha, etc. Até hoje não constatamos nenhuma melhoria e o DFTrans não voltou a se posicionar sobre as reclamações recebidas na ocasião. Até mesmo em reuniões do Conselho de Segurança da Fercal tem sido cobradas melhorias no transporte da região, por alguns acreditarem que a situação dos ônibus expõe a população ao risco de vida assim como qualquer violência urbana”.- Diego Matos, em entrevista ao Esquina On-line.

Nota do Departamento de Trânsito do Distrito Federal-DFTrans

“O Transporte Urbano do Distrito Federal (DFTrans) esclarece que há oito linhas de ônibus que atendem à Fercal. Dessas, duas fazem ligação com o Plano Piloto: a 0.531 e a 506.4. Os passageiros, contudo, podem utilizar outras linhas para chegar ao Plano Piloto por meio da integração. Esses usuários podem, por exemplo, embarcar a linha 531.1 e, de Sobradinho I ou II, acessar um ônibus para o Plano pagando por todo o trajeto uma tarifa de R$ 5. Para isso, devem portar o cartão Cidadão ou Vale-Transporte do Sistema de Bilhetagem Automática (SBA). O DFTrans também esclarece que faz ajustes pontuais na operação a fim de melhorar o serviço prestado. Inclusive, a autarquia está finalizando um estudo para aumentar a oferta da linha circular que liga a Fercal à Sobradinho I e II. Os passageiros podem fazer sugestões no 162”.

Veja também reportagem sobre ciclismo como meio de transporte e mobilidade urbana nesta edição do Esquina On-line.