Transtorno Ansioso: um inimigo no ambiente de trabalho

A ansiedade já é considerada uma característica do século XXI. Profissões como babá, garçom, assistentes sociais e jornalistas estão entre as ocupações que mais sofrem com essa realidade.

“Eu começava a gritar e sentia que ia morrer, faltava ar, a única coisa que eu sabia fazer era gritar… só gritar”, lembra a ex-professora Roberta* depois de sua crise mais forte de ansiedade no ambiente de trabalho. Hoje com 45 anos, ela conta que precisou sair no meio da aula e foi levada pro hospital sem conseguir conversar ou ficar em pé. Depois de diversas crises de pânico e ansiedade na escola onde lecionava, Roberta* tomou a decisao de trocar a sala de aula por um escritorio administrativo. “Eu gritava muito com os alunos a ponto das outras professoras irem até minha sala perguntar se estava tudo bem”, lembra.

Roberta* foi professora por vinte anos e deixou a profissão por causa dos transtornos psicológicos que adquiriu a partir de experiências traumáticas.

Segundo a psiquiatra Josianne Martins, a ansiedade deixa de ser uma sensação normal e passa a ser Transtorno Ansioso a partir do momento em que traz prejuízos para o funcionamento do indivíduo e o impede de executar suas atividades. Roberta* lembra, com lágrimas nos olhos, que gostava de ser professora, mas não conseguiu continuar. Além de passar por muitas pressões em sala de aula, ela perdeu o pai e a mãe, o que agravou a situação e desencadeou depressão, ansiedade e síndrome do pânico.

Hoje, medicada para ansiedade ela diz estar feliz no novo emprego. E desabafa: “Colegas professores com depressão e outros problemas psiquiátricos se tornou algo comum. Alguns choram muito e saem da sala, outros tem crises e alguns chegam a pedir demissão como eu”.

Ouça um trecho da entrevista com Roberta*

Doenças mentais afetam diretamente a produção do trabalhador. Dados divulgados este ano pela Organização Mundial da Saúde apontam que 3,6% da população mundial possui algum tipo de Transtorno Ansioso. O Brasil está em primeiro lugar com 9,3% dos cidadãos afetados. O número assusta, já que é três vezes maior que a média mundial. Ainda de acordo com o estudo da OMS, transtornos mentais causam perda econômica de um trilhão de dólares por ano.

Confira abaixo países com a maior taxa de ansiosos do mundo

A Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação e o Conselho Nacional de Secretários de Estado da Administração analisaram, em 2012, os profissionais do Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Distrito Federal. O estudo revelou que as secretarias de Educação são responsáveis pelo maior número de servidores públicos afastados por doenças no Distrito Federal e Santa Catarina. Aqui, 58% dos profissionais das escolas foram afastados por doenças pelo menos uma vez no ano. Depressão, ansiedade, nervosismo e síndrome do pânico ficam em segundo lugar na lista de motivos do afastamento de professores de seus cargos, atrás apenas de lesões físicas.

Fragilidade no trabalho

Nos braços dos pais, sem conseguir se apoiar em pé, Vanessa* dá entrada na emergência do hospital. A médica de plantão lhe dá medicamentos para dor, mas não obtém sucesso. Somente quando um calmante é aplicado na veia, a paciente retoma as forças. Está dado o diagnóstico: é uma crise ansiosa. Foi assim que a jornalista descobriu, há 14 anos atrás, que sofre de ansiedade. “A gente fica muito fragilizado e tem a impressão que está até perdendo a credibilidade perante as pessoas, seu chefe, seus colegas, porque é algo que te derruba física e psicologicamente”.

Marcelo*, colega de trabalho de Vanessa, relata como foi a crise que ele presenciou: “Fiquei muito assustado. Foi muito de repente, ela ficou paralisada e completamente pálida. A equipe médica foi chamada imediatamente e conseguiram ajudar. Me senti completamente assustado e inútil perante a situação”. Ele conta que mesmo sabendo que a colega sofria com o Transtorno, não fazia ideia que uma crise poderia ser tão grave.

O quadro pode se agravar quando as crises acontecem no ambiente de trabalho porque além de lidar com o problema em si, o ansioso se vê dependente e frágil diante dos colegas. A psiquiatra Josianne Martins explica que em muitos casos o Transtorno Ansioso nasce no próprio trabalho, a partir de cobranças por resultados perfeitos em um curto periodo de tempo.

O desemprego no Brasil alcançou, em 2017, um recorde histórico. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o índice era de 13,5 milhões de pessoas desempregadas até fevereiro de 2017. Um mês depois, esse número subiu para 14,2 milhões. Dados como esse ajudam a entender que as situações reais que as pessoas passam dentro e fora de casa podem contribuir para o desenvolvimento da doença. Cada vez mais cobrados e com mais medo da demissão, trabalhadores se esforçam para manter o cargo e não fazer parte da estatística.

Jéssica Mendes, de 23 anos, sofre de Transtorno de Ansiedade há 4 anos. A assistente social lembra com tristeza: “foi muito difícil aceitar que tinha a doença, sempre achava que era outra coisa, nunca ansiedade”. O problema surge em qualquer lugar, a qualquer hora, sem a necessidade de um motivo que desperte as crises.

“Meus colegas de trabalho ficaram assustados, tentando entender o que estava acontecendo comigo, mas eu não conseguia explicar”, lembra Jéssica. Muitos minutos se passaram até que ela conseguisse retomar a consciência. A experiência marcou a jovem, que hoje em dia toma medicação controlada.

A Previdência Social aponta doenças mentais como a terceira maior causa de afastamento de trabalhadores, ficando abaixo somente de lesões e doenças musculares. Dados levantados pela CBN revelam que no Brasil, somente em 2014, mais de 200 mil pessoas receberam auxílio doença por transtornos mentais.

Dados do site da revista Health

Um estudo da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo concluiu que situações de violência como humilhação, perseguição, agressões físicas e verbais prejudicam a saúde mental no ambiente corporativo. A psicóloga Ana Balbi explica que “para lidar com o ansioso, os colegas e os chefes precisam ter paciência, solidariedade e procurar orientá-lo ir ao psicólogo para tratar a doença e, consequentemente, melhorar a qualidade de vida, seja no trabalho ou em casa”.

Tratamento

O consumo exagerado de ansiolíticos é uma preocupação. No Brasil, de acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), o consumo de medicação controlada aumentou 161% de 2010 a 2016 e o Distrito Federal lidera esse ranking junto com os estados de Goiás e Espírito Santo. Para ter uma ideia da gravidade destes números, em 2007 o consumo brasileiro do clonazepam, princípio ativo do Rivotril, era de 29 mil caixas por ano. Em 2015, somente de janeiro a setembro, este número atingiu os 18 milhões.

“Transtornos psiquiátricos não tem cura, mas tem tratamento para mantê-los sob controle”, ressalta o psicólogo Antônio Alarcão. Ele explica que para controlar a ansiedade, além do tratamento medicamentoso quando necessário, o trabalhador precisa estar envolvido com atividades de lazer, atividade física regular e boa alimentação evitando comidas estimulantes como as que contém cafeína. Além disso, ele também recomenda a meditação, técnicas de respiração, relaxamento corporal e pequenas pausas durante o trabalho para liberar o estresse.

Tratar de doenças mentais pode ser caro, mas existem centros de tratamento gratuitos oferecidos por universidades que ajudam pessoas de baixa renda. O atendimento é feito por alunos com supervisão dos professores. O tratamento adequado pode evitar o uso de medicamentos.

Confira a reportagem feita para a Revista Esquina

  • Os nomes originais foram substituídos por nomes fictícios para preservar a identidade dos personagens.
Veja também reportagens sobre depressão e trabalho em alturas nesta edição do Esquina On-line.