Por Leandro Resende


A conversa a seguir começou naquela zona já nebulosa entre o sétimo e o oitavo chope. Segundo o relato que me foi passado, o qual será integralmente publicado sem distorções ou emissão de juízo de valor (apenas um ou outro molho, para história ficar mais divertida), eram diversas figuras numa mesa de canto no Café Lamas, quando este ainda era no Largo do Machado. Como a fonte estava excessivamente alcoolizada na hora do relato e não pediu sigilo, revelo aos leitores que foi o poeta Manuel Bandeira o autor da delação premiada. Ele garante não ter participado da discussão, pois estava cunhando uma frase bonita para ficar nas paredes do restaurante, tão logo ele trocasse o andar debaixo de um bonito sobrado pelo local onde está hoje, no Flamengo. “O Lamas continua aberto, imortal, dessa imortalidade idêntica que se renova a cada ano pela força da primavera”. Nada demais, mas enfim, coisas do chope. Vamos ao que interessa.

O grupo se reunia quase toda quarta-feira para uns biricuticos e, sobretudo, comer o mais que bicentenário filé à francesa do Lamas. O roteiro da conversa era invariável: começavam com amenidades do cotidiano, seguiam para grandes temas da política, versavam sobre música, depois esportes. Quando restavam apenas os ébrios, dividiam as histórias de seus amores, suas desilusões e certezas, antes de enveredar pela discussão das coisas metafísicas. Dá para dizer que a reunião tinha sido excelente quando compareciam entre 14 e 20 pessoas. Nesse dia, sobre o qual juro que começarei a falar no próximo parágrafo, mais de dez estavam na mesa quando começou a querela. Três fizeram desfeita e deixaram uns trocados para pagar quatro chopes e duas sardinhas cada: o Machado de Assis, que era metido a exclusivo e queria fundar uma Academia só para os letrados como ele; o José de Alencar, porque Iracema, sua senhora, lhe aguardava sentada numa praça ali perto; e o Tavares Bastos, que morava nas cercanias, mas estava de mau humor por ter trabalhado muito durante o dia e, de quebra, ainda ter que encarar uma subida íngreme até chegar a casa. Ferreira Viana prometera comparecer, mas ainda não saíra de casa, procurando Cartola que servisse em sua cabeça.

Nascido no mais sagrado e cheio de axé dos chãos brasileiros, o baiano Marquês de Abrantes era uma figura tranquila, muito culta e respeitada naquele grupo de boêmios históricos. Toda vez que falava, lembrava um pouco dos ancestrais que deixara em Santo Amaro da Purificação, tamanha sabedoria com a qual conduzia suas intervenções. Esta, porém, acabou desencadeando um tumulto de botequim (trata-se de figura de linguagem para designar querelas não tão sérias e das quais ninguém lembra o porquê de acontecerem, que ficam restritos a dois, três berros na mesa de bar).

“Meus reis, eu quero escrever a história desse pedaço aqui do Rio! Quero falar do Catete!”, anunciou o notório, com ar de literato, e que só falava simples quando estava de pileque. Era, entre outros predicados, um hermeneuta loquaz. Seu rosto rubicundo o tornava uma figura inesquecível.

No meio do gole, o arrogante Vergueiro, que obrigava todos a usar o vocativo “Senador” para chama-lo, retrucou de imediato. “Pra começo de conversa, Abrantes, corrige esse advérbio. ‘Aqui’ não é Catete, aqui já é Largo do Machado, quase Flamengo”, reclamou ele, com forte acento lusitano, coçando os bigodes tal qual fazia na hora de contar os lucros de sua enorme fazenda de café fora dos limites da cidade.

“Mas Senador, isso é uma questão muito relativa”, deixou no ar o Marquês, antes de ser interrompido por Tavares Lira. Ex-ministro, veio do Rio Grande do Norte e tinha fama de ser um iludido empolgado. Era muito próximo do Marquês. “É relativo, mas é um debate importante. O Catete começa aonde, afinal? O que, aliás, define o Catete? São essas casas velhas e bonitas? As velhinhas que dão comida aos pombos? As pessoas que andam devagar e só aparentam estar despreocupadas? Ou o Catete é a mendicância, o trânsito e os pequenos delitos?”, empolgou-se, avançando no script e saindo da questão político geográfica para quase entrar na seara da existência.

“Eu a-a-a-cho que o Catete é-é-é…”, tentou começar a explicar Coutinho, o Gago, antes de ser bruscamente interrompido.

“Olha só, o Catete pode ser o que você quiser. Mas não venha me dizer que ele vem até o Largo do Machado, porque não vem. Para antes!” Senador Vergueiro bebia chope atrás de chope e já estava estressado. Tanto que falou e deu um soco na mesa — deixa para começar um zumzumzum em que ninguém argumentava mais nada: viraram, todos, geógrafos de botequim. Buarque de Macedo e Bento Lisboa, apesar de não se cruzarem muito bem, decidiram unir-se para enfrentar Vergueiro: o Catete era gigante, deveria ser respeitado como bairro histórico e boêmio. Seus limites, mais do que o Largo do Machado, superavam o bairro do Flamengo, à frente, e chegavam até a Lapa. Correa Dutra apagou o cigarro com força no cinzeiro branco e resumiu. “Olha só, o Catete é que é a locomotiva do Brasil. Qualquer lugar pode ser Catete, aqui está a história desta pátria”, terminou, emendando direto em outro cigarro.

Benjamin Constant, até então no banheiro, ficou a par do assunto e, já aos berros, pôs-se a defender o amigo Senador Vergueiro. “Não adianta, que esse papo de vocês não cola. O Catete tem que ficar circunscrito aos seus limites, ou corre o risco de voltar a ser só aquele caminhozinho que tinha uns índios antigamente, hein”, comentou, arrancando risos até dos adversários naquele importante debate. Apesar de um homem muito correto e de postura muito firme (falava o tempo inteiro que o mundo precisava de mais ordem, para mais progresso), Benjamim era divertido e, por quatro minutos, conseguiu quebrar a tensão contando umas histórias absurdas de outros carnavais e outras estripulias com chopes e petiscos pelo mundo.

Enquanto o grupo pró e anti Catete se digladiava, bebia e ria, Pedro Américo fazia o que sempre fazia nas mesas de bar: com uma caneta tinteiro Montblanc nas mãos, desenhava cenas do cotidiano nos guardanapos do Lamas. Em casa, diferentemente dos outros, não gostava de ler ou pensar sobre os grandes assuntos do Catete e do mundo. Sozinho, ficava horas a fio pintando quadros em sua casa pouco iluminada. Fez, certa vez, um bonito retrato do que ele garante ter sido a Independência do Brasil, gerando controvérsia em celebração etílica anterior. Naquela noite, um pouco de tinta escapuliu e atingiu a manga da camisa do Arthur Bernardes, até então calado.

“Esse debate vai varar madrugada adentro”, disse com voz grave, limpando a camisa com um dos poucos guardanapos ainda não utilizados. Fez-se silêncio, a exceção do silvo que Correa Dutra sempre deixava escapar entre uma tragada e outra, e do protesto de Senador Vergueiro. “Não tem discussão, Arthur! Não tem! O Catete começa nas imediações do Palácio e termina antes de chegar no Lamas!”, exclamou.

“Garoto, respeita minha trajetória. Quantas vezes você foi presidente deste país? Nenhuma. Sempre foi um senador comum, que fez carreira política em cima do esquema toma-lá-dá-cá que rege os contratos superfaturados da exploração de café. Pena que não te cassei e não te cacei”, começou Arthur Bernardes, que era ponderado, mas sabia ser extremamente grosseiro se alguém lhe interrompesse. Cortou o raciocínio no ar, lamentando o fato de Vergueiro possivelmente não ter pescado o jogo linguístico feito com os verbos cassei e cacei. “Eu deveria ter ficado mais tempo na presidência”, suspirou. Pensou em seu amigo Carlos Lacerda, em tudo o que poderia ter feito. Resignado após o esculacho, não falou mais nada.

“OLHA SÓ!”, berrou o Ministro Tavares Lira, que não era disso e parecia estar sempre num ritmo de bebedeira mais lento que os demais. No grito, conseguiu aquilo que Arthur Bernardes sempre conseguia: fazer silenciar o zumzumzum da mesa. “A gente pode mudar de assunto?”, deu um gole e sorriu.

“S-s-sim! Quero fa-fa-falar de… “ começou Coutinho, que era gago, tentando enfim ter a atenção de todos.

“Desembucha, homem”, renasceu das cinzas o Buarque de Macedo, que já tinha desligado a mente do debate principal da mesa e se concentrado numa mesa de moças do outro lado do salão. Tinha tentado, sem sucesso até então, fazer contato visual com uma morena sestrosa, de pinta no queixo e riso frouxo.

“E-e-estou tentando conquis-quis-quis-tar a Marquesa de San-santos. Mora pertinho de mim…” gaguejou o jovem apaixonado. Nascida Domitila de Castro, a ex-amásia de D. Pedro I era cortejada secretamente por alguns dos confrades beberrões. Disse-me Manuel Bandeira que Bento Lisboa, por exemplo, arrastava asa para nobre donzela, assim como o Marquês de Abrantes.

Ao fim, o poeta se mostrou uma fonte para lá de incompleta e contou a fofoca pela metade. Não relatou, por exemplo, qual o fim do embate de tantas figuras ilustres sobre quais seriam os limites do Catete. Fez pior: pediu dois sanduíches de pernil com abacaxi, tendo deixado o segundo pela metade, e se lamentou entre risos por ter esquecido os rumos finais da querela. Deu sua opinião, da qual partilho, de que o Catete não tem fim nem começo, e tem diversas nuances espalhadas mundo afora. Basta estar minimamente conectado com este bairro para percebê-lo em cada esquina, em cada bêbado e em cada cena… pitoresca que este universo proporciona.

Totalmente embriagado, o Bandeira perguntou, pela quadragésima vez, se eu conhecia o poema dele que começava com “estou farto do lirismo bem comedido”, etc e tal. Disse que sim, e quis saber, afinal, dos sentimentos de Coutinho, que era gago, sobre a Marquesa de Santos. “Pelo menos uma fofoca diferente, com começo, meio e fim!”, ponderei. Ouvi dele, sem muita convicção, que Coutinho enfim conseguiu se fazer ouvir na mesa da confraria, e atraiu um rapaz de Vila Isabel para sua mesa, este aparentando estar interessadíssimo nas desventuras do gaguinho. O tal da Vila tinha um defeito no queixo, chamava-se Noel, e começou a batucar no paliteiro, cantando “mu-mu-mulher, em mim fi-fizeste um estrago/ Eu de nervoso estou-tou fi-ficando gago”.

Mas aí, vi que a história ia ficar longa demais, pedi a saideira, a conta, aceitei a velha dica do Jaguar e fui dormir.


Esquinas Cariocas é uma publicação especial da Revista Poleiro


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