O que estamos fazendo com a nossa mente?

Nossa época é marcada por mudanças profundas nas formas de expressão e de leitura da linguagem escrita. Na qualidade de fenômenos culturais, essas mudanças não são imunes à influência das ideias. Como disse o grande teórico da comunicação Marshall McLuhan: “toda tecnologia tem sua ética”. E a ética dos leitores e comunicadores atuais é, em sua maioria, a da atenção fragmentária e do analfabetismo funcional.

Como toda ética, ela motiva um conjunto de hábitos que acabam por nos definir enquanto seres humanos dentro de uma determinada cultura. É através desses hábitos que “o homem do nosso tempo” será reconhecido.

Quando falamos de nossa História, estamos falando principalmente dos nossos desejos, atitudes e propósitos, pois são eles que dão os impulsos para os atos concretos que realizamos no decorrer da vida. Tais desejos, atitudes e propósitos são realidades da nossa existência e, nessa condição, elas se situam em alguma dimensão da vida: no lugar que denominamos “mente”.

Assim, frente às revoluções ideológicas que influenciam nossos hábitos mentais e, como consequência disso, nossas ações concretas, devemos nos perguntar: o que estamos fazendo com a nossa mente? Pois essa é uma questão cultural e existencial cuja resposta pode determinar quem somos.

A negação da mente

No livro A mente no mundo moderno, o crítico literário Lionel Trilling aborda as tendências culturais que tentam diminuir a influência da mente através da afirmação de sua inexistência. Diz o crítico que há, na comunidade acadêmica, um número considerável de pessoas influentes certas de que “o conceito de mente que se tornou tradicional na civilização ocidental constitui princípio que moldou a cultura moderna em seus aspectos mais desumanizadores e funestos”.

Aqui, podemos nos perguntar se tal concepção negativa da mente não se assemelha às três tendências culturais que, segundo o crítico literário búlgaro Tzvetan Todorov, afastaram o leitor comum da literatura: o estruturalismo, o niilismo e o solipsismo. De fato, desacreditar o poder cognitivo dos homens (o poder de conhecer, imaginar e criar as coisas) não é diferente de reduzir o significado histórico da literatura, tratando-a como um mero instrumento de operações lógicas inúteis ou como um veículo para visões redutoras da condição humana.

Cegos guiando cegos, pintura de Peter Bruegel

Segundo Trilling, tal “juízo negativo lançado contra a mente em sua essência mesma” fez com que a profissão “consagrada à sua proteção”, isto é, a profissão de professor, caísse em descrédito perante a sociedade. Como exemplo desse ataque, o autor cita o romance News from Nowhere, do romancista William Morris, e exemplifica como se caracteriza o que poderíamos chamar de preconceito contra a atividade intelectual.

Acreditando que a atividade intelectual — e sua expressão proeminente na sociedade, o ensino superior — é um instrumento de segregação social, Morris idealiza uma sociedade onde não existem mais ciência, nem filosofia, nem arte, nem professores. Para o romancista, estas atividades da mente humana originavam um mal social porque causariam um esforço angustiado àqueles que delas não participam. É interessante reproduzirmos a interpretação que Trilling faz dessa visão de Morris:

“Seu povo feliz se ocupava do que, alhures, ele denominara “artes inferiores”, isto é, daqueles modestos empreendimentos manuais que produzem objetos úteis e decorativos para a vida cotidiana. Morris não desejava nem a agressividade que a mente altamente desenvolvida dirige ao mundo por meio da compreensão e do controle, nem a competitividade e o autoengrandecimento que predominam entre os que se dedicam à vida do pensamento e da criação — competitividade e autoengrandecimento que Morris associa aos piores traços do empreendimento capitalista. Ele não queria nenhum gênio que afligisse os cidadãos menos notáveis por conta de uma destacada capacidade de dizer a verdade ou ser interessante; tampouco queria alguém que brilhasse mais do que a média geral da humanidade, exigindo nossa submissão à autoridade de seu brilhantismo e atormentando-nos com ideias novas e gostos difíceis, quiçá tentando alguns a imitá-lo e a desistir do repouso a fim de viver dias laboriosos e experimentar as dores da luta mental”.

Nessa perspectiva, a possibilidade de atuar na vida da mente, de exercer um poder que faz parte da própria natureza humana, acaba sendo diminuída não em virtude das características da própria mente, mas de uma visão redutora que se possa ter dela. Em nome de uma igualdade baseada num sistema inexistente, abre-se mão da própria possibilidade do desenvolvimento intelectual, de modo que todo o mundo se acostuma a desperdiçar suas sinapses em atividades imbecis e a devotar sua atenção ao absurdo.

Os benefícios da mente

Participar da vida intelectual de seu tempo significa exercer o poder das ideias sobre a realidade imediata e futura. Se acreditamos que a educação pode aperfeiçoar o modo de condução da vida humana, está implícito nessa afirmação o fato de que o mundo das ideias cria uma igualdade virtual para todos os indivíduos que dele se aproximam. Lionel Trilling não hesita em dizer que as consequências do poder da mente são muito mais benéficas para a sociedade como um todo do que a sua estrutura hierarquizante deixa entrever.

Assim, é fácil perceber os benefícios criados pela mente na vida cotidiana das pessoas. Ninguém deixaria de usar a Internet, por exemplo, em decorrência de um pensamento como “Não vou usar a Internet porque ela foi criada por alguém mais inteligente do que eu”, pois a hierarquia social baseada em qualidades intelectuais é algo cujo desenvolvimento transcende a história individual das pessoas. Há uma série de fatores circunstanciais que influem na posição social que um indivíduo ocupa.

“A escola de Atenas”, pintura de Rafael

Isso poderia ser utilizado como um argumento contra a hierarquia, sob a alegação de “injustiça social”, mas as sociedades não se sustentariam se a sua organização fosse sempre baseada na injustiça. Lionel Trilling demonstra que outro é o seu modo de funcionamento:

“Na formação mental institucionalizada, alguns recebem ou reivindicam o direito de prescrever aos outros certo grau de proficiência, de especificar os meios pelos quais devem alcançá-lo e de verificar em que medida o fizeram. Essa gratificação pessoal que a mente confere provavelmente será uma gratificação postergada. Por vezes, é bem da verdade, a mente dá saltos revigorantes; isso, porém, não ocorre com frequência, e se seu etos foi às vezes associado ao etos aristocrático-militar — o qual, embora deploravelmente agressivo, é ao menos impetuoso — , uma associação mais comum é aquela entre ele e outro de desenvolvimento posterior e de caráter menos vívido: o etos do trabalho do capitalismo primitivo, que tem como virtudes características a paciência, o esforço árduo e a negação do impulso espontâneo”.

O maior problema seria o de que todos querem fazer parte do topo da hierarquia em todos os campos do saber; o que cria o fenômeno que Trilling chama de “visão ressentida da mente”. Tal visão, à maneira do solipsismo e do niilismo que afligem a literatura, nasceria de um forte desejo de desvincular o eu do mundo, de fugir das dificuldades impostas pela existência. O que os defensores do “ressentimento” não entendem é que várias são as formas do saber; e que o status social ou o aparente sucesso são apenas uma parte superficial de uma vida plena de sentido; que no meio de nossas preocupações está a mente, e ela solicita um cultivo desinteressado e paciente para poder ficar satisfeita.

A crítica da vida

Insistir em uma educação clássica, no ensino de atividades que por muito tempo foram consideradas uma ocupação supérflua das elites, não implica o desejo de que todos os indivíduos tornem-se intelectuais. Nenhuma sociedade pode ser constituída apenas de intelectuais, mas isso também não significa que as pessoas devem abandonar a literatura e as outras artes liberais por completo. A educação liberal pode melhorar a vida de um indivíduo não importa o tipo de atividade que ele exerça dentro da sociedade. Ela é muito mais eficiente do que o ensino enlatado de “especialidades”, cuja única utilidade demonstrada até hoje foi a criação de departamentos acadêmicos inúteis.

Nesse sentido, Trilling faz um paralelismo entre a saúde mental de uma sociedade e a presença ativa da literatura, uma vez que ele entende a literatura segundo uma definição do crítico Matthew Arnold, para quem ela era uma “crítica da vida” que conjugava tanto o saber científico quanto o saber poético, um misto de ação e contemplação que orienta o indivíduo para um amor à inteligência e à sabedoria.

A aposta na loucura

Outra objeção à ideia de mente, ligada diretamente ao desenvolvimento tecnológico da era moderna, seria a de que o homem, pelo excesso de racionalismo que a técnica exige, estaria se transformando em uma máquina e “não obstante essa analogia fundamentasse, para alguns, certo otimismo quanto ao controle e a direção da vida, para outros ela foi causa de angústia profunda, dado que parecia limitar a liberdade e a dignidade humanas”.

O romantismo, contemporâneo da revolução industrial, teria surgido como uma resposta à mecanização radical da vida. Mas, embora alguns românticos tenham encontrado o equilíbrio desejável entre o racionalismo e o devaneio, entre a técnica e a inspiração (como foi o caso de Wordsworth), sua revolta contra a mente ocasionou uma herança ideológica segundo a qual o estado racional da mente não é o mais desejado nem o mais recomendável. No século XX, quando a técnica conheceu desenvolvimentos até então jamais imaginados, provocando consequências tanto benéficas quanto trágicas, muitos escolheram a atitude exclusiva de devaneio como a única opção válida:

“Em nossos dias, tornou-se possível reivindicar uma tal credibilidade à ideia de que a loucura é um estado benéfico, que deve ser compreendido como paradigma da existência e da cognição autênticas. […] A insanidade é representada como uma percepção verdadeira que se realiza de maneira oportuna — a sociedade mesma é insana, e, quando isso é compreendido, a aparente aberração do indivíduo se afigura como racionalidade, como libertação das ilusões da loucura social”.

A vocação de ser humano

Desacreditar a racionalidade do homem é apostar na sua parte não humana. Mas, embora a escolha pela loucura tenha exercido grande influência cultural, criando, como vimos, visões equivocadas como o niilismo maléfico e o solipsismo inútil, ela não foi majoritária. A história ensina que o ser humano prefere, com frequência, acreditar em suas qualidades mais humanas, no seu poder de praticar o bem. Lionel Trilling cita a postura de muitos indivíduos que, depois da segunda guerra mundial (terrível espetáculo da técnica), ainda mantinham a esperança de que “a mente viria a desempenhar um papel benéfico na existência do homem”. Precisamos acreditar no poder benéfico da mente porque só ela é capaz, através da ciência, da filosofia e da literatura, de criar nossa identidade social e humana:

“Quando a mente, longe de ser ornamental, isto é, parte da superestrutura da sociedade, é o modelo mesmo do estado-nação — como hoje acontece — , qualquer diminuição de sua autoconfiança deve ser experimentada como uma diminuição da possibilidade nacional, como uma redução da esperança social. Foi em virtude dessa crença que ousei dar-lhes ciência de que a mente, hoje, afasta-se de sua própria liberdade e capacidade, de seu próprio deleite em si mesma”.

E haveria espaço melhor para o exercício da liberdade, para “o deleite da mente em si mesma”, do que o da leitura literária? Da lucidez da “crítica da vida” capaz de, como diz Todorov, “fazer com que cada um responda melhor à sua vocação de ser humano?”.