CRISE DOS REFUGIADOS

“Li na internet. Eles são isto e aquilo”

Negar auxílio aos migrantes é negar-lhes um futuro. E de nada vale debater com quem se baseia em dados falsos ou pouco credíveis.

por Flávio Nunes


A crise dos refugiados é já um dos mais fraturantes temas dos últimos anos. Atingiu os europeus — e a Europa — com rara força e alcance. Quando começou a fazer manchetes nos jornais portugueses, a opinião pública pouco se pronunciava sobre o assunto. Inevitavelmente havia muito a lamentar, mas os “imigrantes ilegais” não eram um problema que chegasse cá. Pelo menos ao ponto de preencherem autênticos debates de café entre amigos ou vizinhos.

Portugal é Estado-membro da União Europeia (UE), casamento que se deu para o bem ou para o mal. Acolhemos já 1.500 refugiados, bastante concentrados na região de Lisboa. Mas Bruxelas exige mais. Dos 120 mil refugiados que a Comissão Europeia quer distribuir pelos países, Portugal deverá acolher 3.074 pessoas, uns meros 2,6% do número total segundo o El País. Quando se soube disto, quando nos apercebemos todos de que, afinal, esta crise humanitária também nos atingia a nós, o caso mudou completamente de figura.

Como é apanágio dos temas fraturantes, cedo se ergueram dois lados: o dos que apoiam o acolhimento de refugiados e o dos que o condenam. Considero existirem alguns argumentos válidos em ambas as teses. Não podemos ser ingénuos ao ponto de acreditar que esse acolhimento não terá um impacto socioeconómico negativo. Vai representar, com grande certeza, uma enorme mudança na Europa tal como a conhecemos. Mas é nossa obrigação moral ajudar quem precisa de ser ajudado. Muitas destas pessoas fogem de cenários de guerra e de inimaginável miséria. Primeiro, porque podem — e repare-se que enveredar numa caminhada rumo à Europa, além de difícil, é caro. Segundo, porque o fazem numa altura em que se torna impossível viver com o medo e o pavor de adormecer sem a certeza de que, no dia seguinte, se está vivo. Nessa medida, só posso ser a favor deste acolhimento temporário.

Em contrapartida, é completamente inútil discutir com quem assenta as suas ideias em dados falsos, absorvidos de uma qualquer publicação no Facebook. Não se pode compactuar com os discursos do “li na internet, eles são isto e aquilo”. A falta de raciocínio das massas espelha-se nas partilhas de conteúdo sem credibilidade, que por diversas vezes se torna viral. Tal como numa epidemia, a “desinformação” alastra-se e atinge cada vez mais pessoas. Os dados falsos vão-se misturando numa enorme complexidade de mentira, resultando num composto heterogéneo de ideias sem sentido. Em Portugal já se criou bom conteúdo didático relacionado com esta crise humanitária. Mas ler dá trabalho. E pesquisar ainda mais trabalho dá. Grande parte dos mitos que ainda hoje se propagam nas redes foram já desmentidos e explicados, por exemplo, aqui e aqui. É conteúdo credível de livre acesso. Caso para dizer que, atualmente, só não sabe quem não quer.

Há também quem defenda que antes de ajudar os forasteiros há-que prestar apoio às gentes carenciadas que por cá já existem. Desafio essas vozes a um exercício de retrospeção. Pense-se quantas vezes agimos para ajudar um outro alguém mais necessitado. Pense-se quantas vezes ignorámos quem bradava pela nossa ajuda e, daí, trace-se um paralelismo com as vezes que realmente prestámos auxílio. Estas multidões são, acima de tudo, pessoas. Com família, sonhos, memórias. E não os apoiar é negar-lhes um futuro.

Flávio Nunes


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