Assembleia da República, Lisboa

Em 1910 era, após o regicídio, implantada a Primeira República, tendo como primeiro Presidente da República Manuel de Arriaga, após governo provisório de Teófilo de Braga que, anos depois, se tornaria no segundo Presidente da República Portuguesa.

Porém, uns anos antes, em 1875, Harry Hinton, um jovem britânico que residia na Madeira por seu pai lá ser dono de uma quinta, trouxe de terras de Sua Majestade um novo desporto: o futebol.

Aquando da sua introdução, o jovem Hinton não seria capaz de imaginar que, quase 150 anos depois, o seu desporto conseguiria mais atenção que a política nacional. Nada fazia prever que, após duas Guerras Mundiais, uma ditadura de 41 anos e uma revolução militar para devolver a voz ao povo, o desporto trazido do estrangeiro se iria sobrepor ao interesse nacional.

O certo é que, várias décadas depois, é mais fácil encontrar alguém que saiba o onze inicial de uma das três grandes equipas do que alguém capaz de nomear os líderes parlamentares da actual legislatura. Ou qualquer legislatura.

Prova disso foi o recente vídeo que circulou as redes sociais em que, entre outras questões, se perguntava a várias pessoas se seriam capazes de votar na coligação PSD/CDS-PP e a resposta ser categoricamente “NÃO”, mas quando confrontados com a opção de votar na coligação “Portugal À Frente”, a mesma pessoa já considerava a hipótese.

A falta de cultura política em Portugal é estonteante e preocupante. A democracia apenas pode funcionar quando o povo é instruído sobre o funcionamento da mesma e interessado sobre a classe que a constituí. Caso contrário, a sua opinião é facilmente manipulável, as suas vontades ignoradas e o seu voto, do nada, deixa de ter qualquer valor que a democracia lhe pretende dar.

Mas de quem é a culpa de o povo, português e não só, ser tão pouco interessado na política? É bastante fácil encontrar dezenas de publicações e páginas nas redes sociais após um jogo de futebol mas raras as que se referem a assuntos da política nacional e, quando existem, raramente estão correctas a nível factual, ideológico ou sobre o funcionamento do sistema.

Note-se que, ao dizer que raramente estão correctas a nível ideológico, não pretendo dizer que a política de esquerda ou de direita é a mais correcta, mas que não existe sequer um entendimento nas pessoas sobre o que distingue as duas.

Em democracia, cada um pode ter uma visão diferente sobre o mesmo assunto, o importante é o debate para se chegar a um consenso ou, então, uma maioria sobre o assunto.

Ainda assim, são mais os treinadores de bancada que os políticos de sofá.
Uma das várias razões dadas pelas pessoas para a falta de interesse político é que “os políticos são todos os iguais” ou “não podemos mudar nada”. Porém, é esta visão de que não podemos mudar nada que leva a que a classe que nos representa na Assembleia possa fazer o que quer sem qualquer oposição e, eventualmente, guiada pelos seus interesses.

A maior parte da população não sabe sequer qual é o funcionamento da Assembleia da República. A maioria não deve saber, por exemplo, que qualquer cidadão pode apresentar uma petição à Assembleia, sem ser necessário um mínimo de assinaturas. 
Com menos de 1000 assinaturas, a petição é apreciada sem ser necessária qualquer acção pela Comissão que a aprecia se esta não achar de interesse o conteúdo, com mais de 1000 assinaturas a petição é obrigatoriamente publicado em Diário de Assembleia e com mais de 4000 assinaturas é levada a Plenário.

O poder não reside todo no governo e qualquer cidadão pode e deve participar na vida política do seu país, seja votando, peticionando a Assembleia ou participando em manifestações contra decisões da mesma.

‘People shouldn’t be afraid of their government. Governments should be afraid of their people.’ -Alan Moore

É por isso necessário, primeiro, iniciar uma instrução geral sobre política que deve começar logo na escola. Depois, é preciso incentivar a discussão pública sobre a política nacional.

O povo não pode dar mais atenção a um desporto do que ao futuro do seu país.

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