ESTRADA REAL: Ana Preta, como pode ser tão parecida

Da série: multifacetadas histórias da Estrada Real

Foto: Lucas Von Dollinger via smartphone

Lembro que minha avó recebia muitas visitas em casa durante a semana e as tratava com hospitalidade de um bom mineirinho. Sempre a mesa uma garrafa cheia de café fresco, bolo ou biscoito que ela mesma fazia, seja dia ou noite estava sempre preparada e mostrava uma simpatia pouco vista hoje.

Logo no início do distrito Acuruí notei o inevitável, uma característica típica dos mais simples e antigos, um poço de humildade e braços abertos; a receptividade em pessoa, característica marcante que jamais me esquecerei, minha avó fez escola.

Ana “Preta” — como é conhecida na cidade — é uma espécie de “recepcionista” e trabalha num quiosque logo na entrada da comunidade dando as boas vindas aos que chegam. Seu tratamento é cortês — diz que fez curso na FIEMG — e conhece muito bem a história local. Sua bancada com produtos representa a riqueza de um conglomerado fundado no século XVIII. Muitos doces caseiros compõem sua rica exposição, pimentas e temperos típicos da região também estão amontoados do lado esquerdo de quem chega.

Foto: Lucas Von Dollinger via smartphone

Os visitantes são os mais diversos todos com a curiosidade em desbravar o contexto Estrada Real, a cidade vive e respira em torno dela.

Em casa, Isaltina, minha avó — com quem a identificação é inevitável com Ana Preta –, prosa como ninguém, sempre cautelosa ao falar e se restringindo muita das vezes a cada palavra para não magoar ninguém. Ana faz o mesmo, sua voz ativa mede cada palavra e soa como o aroma de um café feito na hora, suave e agradável.

Ao prosear por alguns minutos já me sinto entendido das características das pessoas do distrito, ela apresentou tudo de tal forma que a utopia de quem mora na selva de pedras se torna real e o questionamento de onde vamos parar com tanta violência contrasta com a passividade das pessoas e do lugar.

Percebo que tenho muito trabalho pela frente e decido pedir uma foto, de pronto ela foi para trás do balcão e expôs sua simpatia, a despedida foi breve, pois mais tarde eu voltara para levar uns doces. Entendi que o motivo de minha avó receber tantos visitantes na semana é justamento o ponto que me cativou em Ana Preta: a receptividade. A vontade em voltar foi sem esforço, como acontecia lá em casa.

GALERIA DE FOTOS: QUIOSQUE DE ANA PRETA