ESTRADA REAL: Eliane, bar e restaurante Acuruí

Da série: multifacetadas histórias da Estrada Real

Foto: Lucas Von Dollinger via smartphone

Com o cabelo despenteado e com sorriso receptivo fui recepcionado no Bar e Restaurante Acuruí, o estabelecimento é uma espécie de parada para os tropeiros, viajantes, jipeiros e fazedores de trilha do trecho Sabarabuçu — complexo que faz parte da tão famosa Estrada Real. Entrando no estabelecimento e olhando por toda parte inclusive o banheiro, a decoração rústica não esconde a característica típica de um vilarejo, muita madeira e ferro mostram bem isso.

Eliane, a proprietária do restaurante e moradora da cidade Acuruí há aproximados 42 anos, tem um jeito diferente de tratar seus clientes, é completamente informal, desprovida de interesses a não ser por uma boa prosa. Ela usa um vestido que deve a acompanhar há alguns anos, as marcas do desgaste entregam seu tempo de uso. Ao trocarmos algumas palavras noto seu incomodo, o ombro esquerdo parece ter sofrido com o tempo e constantemente há a tentativa em colocá-lo na melhor posição, talvez seja consequência dos diversos trabalhos braçais a que se submeteu durante toda sua vida na cidade, lembra que no passado antes de ser proprietária do único armazém do vilarejo — atualmente seu restaurante — ia a um rio lá em baixo (sic) garimpar ouro e o trocava por arroz, feijão, carne e tudo o que faltava em casa, era um trabalho muito pesado e exigia muito esforço.

A nossa conversa continuou e uma faísca flamejou sua língua, ela não se restringiu em esconder a insatisfação em não ser a líder comunitária, sua boa articulação com as palavras, bem atualizada com as informações, inclusive usa o Facebook para expor os melhores ângulos da comunidade, aparentemente faz dela uma forte candidata a liderar, mas por outro lado sua algoz tinha uma vantagem e a usou — o número de familiares que tem foi o diferencial na votação. Ela conta com certo pesar a falta de voto e sustenta a hipótese que teria mais preferências se não fosse trapaceada, pois a concorrente acabou vencendo em uma disputa que segundo ela foi manipulada do início ao fim, inclusive o tempo de votação que deveria iniciar às 09h e encerrar às 17h, mas durou somente até às 12h impossibilitando que todos votassem inclusive seus adeptos, e com isso somente a família da antagonista teve a oportunidade em fazê-lo.

Conversamos bastante e entramos no assunto da Estrada Real, se sentindo bem à vontade com o assunto deixou claro que nada do que tinha seria possível se não fosse os turistas que visitam o complexo, suas histórias sobre os viajantes vão muito além, mostra ser amiga de todos que passam pelo seu restaurante. Tudo gira em torno da Estrada, os jipeiros que ali passam não deixam de estacionar em sua porta e escolher um de seus pratos — que por sinal tem um sabor marcante. Ao questionar novamente a importância do complexo, ela foi enfática: “meu restaurante não existiria se não fosse ela, os moradores não comem em restaurantes, só em casa”. Ficou claro que a economia, tanto para marketing — entende-se como participação da FIEMG — quanto para culinária gira em torno do complexo.

Ao perceber que o assunto estava se encerrando e seu olhar ficava vago, mas ainda era nítido que queria continuar conversando, meio despretensioso perguntei sobre as duas igrejas que tem na única rua do centro, a resposta estava na ponta da língua: uma era dos senhores e a outra dos escravos. Quando terminou de falar veio um insight, como quem não quer nada ela teceu um comentário do atual momento político vivido pelo país: “não é que essa conversa está me dando uma ideia, não tinha pensado nisso antes, mas quando os senhores não quiseram mais que os escravos frequentassem os mesmos lugares que eles, mandaram fazer outra igreja, e não é que a Dilma está na mesma situação, os ricos não querem que os pobres fiquem no poder, por isso, pedem a saída dela”. Embora eu já tivesse visto sua capacidade de argumentação, sua fala sobre a política me surpreendeu, a percepção da distância de Acuruí com as grandes metrópoles deixam falsas impressões de afastamento, mas a TV, o Rádio e a Internet Wi-Fi são as fontes de alimentação diária da notícia em seu restaurante.

Quando ela termina a conversa mais uma vez seu ombro está incomodando, Eliane Pereira Senem Gouvea tem 62 anos e visivelmente batalhou para ter tudo o que tem inclusive saúde, mas seu ombro não a deixa ser mais articulada e até se levantar da mesa é com muita dificuldade, mas precisava se levantar, tinha que ir atrás do balcão para uma foto, eu precisava para registro, então sua vaidade que de princípio estava distante logo se torna prioridade, chama sua filha por duas vezes para pedir que amarre seu cabelo, ela não consegue ficar de pé sem ter um apoio, fiz o registro, conversamos mais alguns minutos, uma conversa que nada interessava, mas no derradeiro minuto ela me passa seu Face e pediu para que eu adicionasse.

Eliane e sua filha em seu restaurante