Estranho Mundo #03 Conto inédito: Um segundo antes do fim

[Estranho Mundo — Ano 2]

A newsletter de hoje tem conto inédito, “Neon Azul” de graça pra usuários da Samsung, podcast com dicas para ser publicado, a HQ “Primeiras Vezes” e mais.


[Conto inédito!]

Sem mais delongas, vamos a ele! Libertinos e libertinas, habitantes do estranho mundo, com vocês…

Um segundo antes do fim

Búfalos africanos em disparada

Ele para, atento, à beira do precipício. Para um segundo antes do fim, em tempo de ver a manada caindo. Os animais desabam uns sobre os outros. Empurram uns aos outros. Agridem uns aos outros, e uns com os outros vão caindo. Despencam como peças interligadas a formar um animal maior, irracional, histriônico e indefinido. Barrigas rasgadas dos chifres, pés quebrados dos coices, olhos cegos do ódio vazio, vão caindo.

Mas ele para.

Não sabe dizer o que o levou a parar, mas para. Primeiro um pé, depois o outro. Tenta se firmar contra a terra, quebrar o fluxo que o empurra em direção à morte. Tenta gritar à manada que foi dali que eles vieram, muito tempo atrás, e que só há dor e tristeza no abismo. Grita até que a garganta inche e a voz desapareça, até que os chifres lhe doam na cabeça.

Mas o barulho é alto demais.

Se sente fraco. Sente vontade de fechar os olhos e se deixar levar, o corpo arrastado pelos outros animais que sequer o enxergam no caminho. Talvez fosse mais fácil, enfim, encerrar a luta e se jogar no precipício. Mas esse é um talvez que ele recusa a aceitar.

Assim, passado o instante de fraqueza, ele para.

Com a força que lhe resta, se joga para o lado, aos encontrões. Acerta um ombro, aproveita uma nesga de espaço, limpa do rosto o suor e recomeça tudo outra vez. Manobra como pode e como não pode, sabendo que disso depende sua vida, e consegue escapar do caudal de morte.

Ofegante, ele para.

As pernas tremem, o corpo dói, mas está vivo.

Se pergunta o que o fez parar, ajoelhado, exaurido, um resto de si.

A percepção do abismo, talvez. Talvez o cheiro de sangue, de barro, de bosta. Talvez o inverso disso. O traço de ar puro acima das cabeças, dos cornos retorcidos, lembrando que sim, existe outro caminho.

E por desejar esse caminho, ele para. 
 Fica de pé, se vira para trás. Sem voz, se limita a olhá-los nos fundos dos olhos. Pode ser que convença um deles, quem sabe dois, dez. Ou talvez ninguém.

O importante é que ele para, atento, à beira do precipício. Para um segundo antes do fim, em tempo de ver a manada caindo.


[Um segundo antes do fim]

Será que vamos conseguir parar, folks? Mesmo que seja um segundo antes do fim? O que vocês acham?

Bem, deixa eu contar como esse conto surgiu. Meses atrás, fui convidado pelo Stefanni Marion a escrever um conto sobre a situação política do país. Ele saiu numa coletânea em ebook, ao lado de gente como João Paulo Cuenca, Elvira Vigna, Laerte, Maria Clara Escobar, Marcelino Freire… lista grande. Não acho que dê pra comprar todas as brigas de uma vez só. É preciso escolher nossas batalhas. Não vou dizer qual eu escolhi para não influenciar a leitura de vocês do conto, mas basta dizer que o conto é sobre um tema específico que me perturba cada dia mais e que também se refletiu no “Ninguém Nasce Herói”.

Tecnicamente falando, o que é interessante notar:

1. Eu tinha um limite de tamanho para trabalhar, 1 página.

2. Eu tinha um universo definido, situação política brasileira.

3. Dentro desse universo, escolhi um tema, um alvo.

4. Eu queria que fosse um conto que funcionasse lido em voz alta. Façam o teste aí!

Parecido com o que trabalhamos na nossa oficina de escrita, não foi? Mesmo não tendo bichos de pelúcia em crise existencial nem baleias metafóricas. Tá vendo como os desafios serviam a um propósito?


[Dica da Semana]

Primeiras Vezes

A dica da semana é a HQ “Primeiras Vezes”, da Editora Nemo. Com roteiro de Sibylline e arte de vários artistas, o livro traz 10 histórias sobre primeiras vezes contadas por protagonistas mulheres em encontros e desencontros de todo tipo que você imaginar (e provavelmente mais alguns). Só de serem histórias sobre sexo no ponto de vista feminino já vale a leitura, mas “Primeiras Vezes” é mais do que isso. As 10 histórias são bem variadas, às vezes mais engraçadas, outras bem pesadas ou viajadas, mas sempre te levando a um lugar diferente dentro do tema em questão. Uma das que mais mexeu comigo é contada no ponto de vista de uma sexdoll. Hum, pelo menos acho que o nome é esse. Sabe aquelas bonecas em tamanho natural, hiper-realistas? Pois então. As esperanças dela em relação ao dono e o cair da ficha dão uma apertada violenta no coração. Mas, como eu disse, as abordagens variam bastante e nem tudo é drama. Dá pra rir um bocado e… bem… se excitar aqui e ali. Acho que não preciso dizer que são histórias sobre sexo e por isso tem deseinhos de gente pelada de todo jeito possível e em várias posições. O mais legal é que ao final, não resta tabu sobre tabu. Seria bom se as coisas por aqui na terra brasilis fossem assim também, não? São muitas as nossas primeiras vezes durante a vida, no fim das contas. E o Brasil precisa derrubar os seus tabus de uma vez.

Se quiser saber mais, tem sinopse no site da Nemo, e resenha no Universo HQ.


[Neon Azul na Samsung!]

Tive essa semana uma notícia inesperada: a inclusão do “Neon Azul”, meu romance fix-up, no programa de e-books gratuitos da Samsung. Se você tem um celular ou qualquer aparelho Samsung, é só clicar na loja de aplicativos específica do Galaxy, instalar o “Kindle para Samsung” e baixar o “Neon Azul”. Se você já leu o livro, baixa também. Assim você me ajuda a ranquear o Neon na Amazon e mais gente passa a conhecer o meu inferninho carioca onde coisas muito, mas muito estranhas, acontecem. E, claro, fica o meu agradecimento à Editora Draco pela negociação.


[Podcast: Os 12 Trabalhos do Escritor]

O AJ Oliveira me procurou ano passado para falar de um projeto que achei bem legal. Uma série em podcast, com um número de episódios finito, dando dicas para autores iniciantes (ou não) de todas as etapas do processo, desde a escrita, até a publicação e o marketing posterior.

Eu participei do episódio “Na Mesa do Editor”, dando dicas de… bem… de como aumentar sua chance de colocar um original na mesa de um editor. Faz tempo que gravei, então não lembro de tudo que disse. Mas uma das minhas gurus na Editora Seguinte ouviu e disse que nem dei muita mancada! E até completou com uma dica extra: Conheça o catálogo da editora se quiser mandar seu livro pra ela. E, olha, ela tem toda razão.

Isso me lembrou dos tempos de autor independente, acompanhando a Editora Draco nas feiras literárias. As pessoas chegavam pra deixar original, cartão de tradutor ou revisor, pasta com ilustrações, e a gente perguntava: “Você conhece o trabalho da editora?” A resposta geralmente era “não.” Aí vinha a pergunta seguinte: “E não querem aproveitar pra conhecer?”

Acho que deu pra entender a dica, né? Bem, tem mais um monte delas no episódio do podcast, ouçam lá! Mergulhem fundo nos outros programas, porque de repente a resposta para suas dúvidas pode estar em um deles.


É isso, folks!

Não esqueçam que…

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Até a próxima e fiquem bem!

Neon Azul — Em outubro no Kindle para Samsung