Meu cão
Meu cão passa a maior parte do tempo deitado na soleira da porta da sala. Quando se sente mais a vontade se arrisca a deitar atrás do sofá, debaixo de duas cadeiras que estão sempre ali, apesar de não lhe ser permitido ficar dentro da casa.
Sentado no quintal lendo um livro vejo-o saindo pela porta da sala. Passando por mim ele segue até o fundo do quintal. Ouço o som característico do seu andar. Um intercalo constante de tics de suas unhas tocando o chão. Presumo que tenha ido beber água. Apesar do dia estar perto do fim ainda faz muito calor.
Voltando de lá ele decidi deitar-se no meio do quintal. O chão feito de cimento estava quente. Eu estava descalço no momento e sentia um leve calor aconchegando a sola dos meus pés. Ele deitou-se com as patas traseiras jogadas para um lado, o torso torcido, deixando as patas da frente em uma posição natural, esticadas. Manteve a cabeça erguida, fitando fixamente o portão, como se encarasse algo, mesmo não havendo nada ali. O entardecer seguia calmo tanto em casa quanto nas ruas próximas. Ele não estava em estado de alerta, preocupado com a segurança da casa. Meu cão não é disso. Ele apenas fitava o vazio à sua frente.
De súbito ele resolveu se revirar todo, se torcer todo, ficando com as quatro patas viradas para cima. Com as costas juntas ao chão começou a se esfregar contra ele com tamanha força que parecia tentar abrir um buraco no chão. Ou ainda pior, um buraco em suas próprias costas. Parecia que haviam mil pulgas e carrapatos mordendo sua pele e sugando seu sangue. Remexeu-se mais um pouco, coçou-se da melhor maneira possível e, outra vez de súbito, voltou à posição em que estava antes. Deitou-se de lado, cabeça erguida, como se nada tivesse acontecido. Voltou a fitar o ar. Os olhos perdidos, vagos.
Não sei o que há na cabeça do meu cão. Não sei o que passa, o que acontece com a mente deste animal para que ele haja de maneira tão inesperada, tão imbecil e inexplicável. Por isso gosto de observá-lo. Tento sempre fazê-lo sem que ele perceba. Sinto que consigo, que ele não desconfia de nada. Ao menos não aparenta desconfiar. Talvez até saiba que eu estou ali, vendo o que ele está fazendo. E talvez não se importe com isto. Afinal, que diferença faz para ele saber se estão observando-o ou não?
Email me when Eu Comecei a Escrever Hoje publishes stories
