A fuça do tempo.

Gabriel Oliveira
Aug 8, 2017 · 2 min read

Abro os olhos com sensação de atraso.

Que horas são?

O relógio está parado. Na embalagem tinham prometido uma bateria que dura até 50 anos. Baboseira pura.

O sol tem cara de preguiça, mas eu nunca soube distiguir quando ele nasce de quando se põe. Laranja-amarelado ou amarelo-alaranjado. Sou daltônico pros entremeios solares.

A poeira do apartamento me lembra da negligência. A secura da garganta me lembra da sede. Não tem água no filtro elétrico.

O relógio do microondas desligado, que horas são?

A geladeira não faz barulho. Acabou energia, só pode. Agradeço alguma divindade sem nome pelo desleixo de nunca ter comida refrigerada. A cerveja engarrafada que mora na micro caixa de metal que esfria não entra em decomposição tão fácil. Pelo menos eu espero.

Quanto tempo dormi mesmo?

Só lembro que quando fechei os olhos eu pedi silenciosamente para dormir pra sempre. “Acaba com essa agonia que é a vida”. Talvez a lamentação seja meu único dom.

Também não tem água na pia. Faço xixi sem lavar as mãos.

Sem eletricidade não tem internet. A bateria do computador tá pra lá de viciada. Não tem buscador online pra me salvar.

Meia cabeça pra fora da porta, sem tirar os pés de dentro do apartamento, me mostra um corredor de prédio abandonado.

As paredes com buracos, reboco espalhado pelo chão. Tinta que ficou pálida há tanto tempo.

Quanto tempo dormi mesmo?

Meus pés decidem querer saber o que tem lá fora. Eu não decido mais nada, só os acompanho.

Elevador desligado, claro. Quatorze degraus de escadas. Na descida os santos ajudam, dizia a minha Tia Wanda.

O prédio está aos pedaços. Os pés se movem por iniciativa própria. Se fosse por mim estava parado analisando cada detalhe.

Na rua não tem gente nem barulho. Carros que os donos esqueceram repousam em ferrugem e obsolescência de qualquer jeito. Estão meio do asfalto com suas rachaduras ou no passeio que começa a ser tomado por plantas e ervas daninhas.

Não existe um pio de passarinho que seja.

Parece que o mundo acabou enquanto eu dormia.

Quanto tempo dormi mesmo?

Eu Fictício

Histórias imaginadas de um Eu semi-fantástico.