
A Vida Secreta dos Fios Eletrônicos.
A Vida Secreta dos Fios Eletrônicos.
“O que fazem os fios eletrônicos quanto ninguém tá olhando?”
É o que o meu amigo viciado em tecnologia costuma dizer a título de mudança de assunto. Ele sempre organizava os filamentos de forma perfeita no bolso, na bolsa, na gaveta. Sempre que ia procurar um, vinham todos emaranhados.
No buteco era infalível a interrupção do papo sobre futebol para começarem os palpites semi-racionais sobre plausibilidades desse comportamento incômodo.
“O mundo vai se tornar wireless e esse problema vai acabar.” era o que eu costumava responder para não alimentar mais uma busca desnecessária por sanidade e lógica. Ninguém precisa dessas duas em excesso.
Apesar disso, esse mesmo pensamento — o que fazem os fios? — me pipocou na cabeça no meio da semana enquanto eu saía de mais uma reunião. Não era só sobre a preguiça de desembolar o fone de ouvido pra escutar música na caminhada de volta para casa. Era ver os carros cruzando ruas, pessoas atravessando calçadas, todo mundo alheio ao que havia em volta. Dormência de transitoriedade. Senti que nesse vai e vem a vida escorre pelas lacunas entre os acontecimentos.
Me veio na cabeça um sussurro que falava palavras indistintas, como um pensamento que respondo o outro. Repetia como a mistura entre uma voz e um ronco de motor. Então comecei a escutá-lo ao pé da orelha. Por um instante eu parei para ver se alguma alma viva sem talento vocal cantarolava enquanto caminhava perto de mim. Mas era claro que estava tudo na minha cabeça. Me perguntei se essa cochicho misterioso trazia a solução para o enigma dos fios, ou da vida.
Ininterrupto, ele me acompanhou até a porta de casa. Parou quando comecei a preparar o almoço. Voltou quando fui fazer aquela horinha antes de voltar a trabalhar. Parou quando abri o computador. Voltou quando saí para a padaria e sumiu quando comecei a contar os pães para colocar na minha cesta.
Pelo resto da semana, os momentos em que eu desligava minha atenção eram preenchidos por palavras emboladas que soavam como um disco da Nina Simone tocado ao contrário. Quanto percebi o truque de quando começava o burburinho — que depois do primeiro dia já havia se tornado o inferno morando na minha orelha — comecei a contar as cores da calçada, catalogar peças de roupas de quem passava na rua. Parei de ignorar o mundo nos minutos que se estendiam entre um acontecimento e outro da minha vida.
Curiosamente, os fios pararam de se embolar em meus bolsos. Os fones de ouvido sempre saíam organizados na minha mão e o cabo do computador nunca mais deu um nó na hora de tirar da mochila.
Mas havia os momentos onde a minha mente escapolia de mim e o vinha o zumbido me lembrar do meu esquecimento. Nos primeiros dias eu corrigia o rumo da mente e começava a registrar o meu redor de novo. Trazia de volta a atenção para o meu controle. Até que percebi que o volume do ruído mudava de acordo com o lugar em que eu estava.
Em casa, quando me deixava levar pela desatenção, era somente um cochicho sutil. Perto do centro da cidade, aumentava a força do som. Quando eu subi rumo à serra que fica ao sul, o sussurro ensurdecia o barulho ao meu redor.
Começou a coçar um lugar dentro de mim que entendia essa variação de volume como uma bússola, uma brincadeira de ‘tá quente e tá frio’. Até que a necessidade de acabar com essa coceira foi maior do que o bom senso. Esvaziei um dia inteiro na agenda para seguir o som nos meus ouvidos.
Andei em direção a serra e desliguei a atenção. Deixei o sussurro preencher minha audição e me ensurdecer. O volume aumentava a cada passo e sobrepunha os sons ao meu redor. Não deixava mais a minha atenção se prender em detalhes. O olhar perdido em algum ponto no horizonte guiava os meus passos. Foi sorte, coincidência ou proteção de alguma entidade cósmica eu não ter sido atropelado atravessando a rua. Ou assaltado. Ou perdido o pé em um bueiro destampado.
Andei como sonâmbulo escutando o ruído trovejando em meus tímpanos como se eu abraçasse uma caixa de som de frente para o palco de uma banda que tocava guitarra banhada em reverb.
Até que o ruído acabou. Minha atenção estalou como um elástico estendido por trás dos meus olhos e por um segundo o mundo girou. Quando parou, eu percebi que estava pisando na grama dos jardins do parque público que ficava no alto da serra.
Era meio de tarde de quarta feira. Pouca gente com tempo pra estar naquele lugar que não era o escritório, o trampo, a firma. O vento chacoalhava as copas árvores e a fonte tamborilava com o barulho de água na água. A roupa grudava no corpo, suor da caminhada cidade a fora feita às cegas.
À minha frente, no meio dos arbustos do jardim, um brilho dourado no vermelho contra um feixe de luz do sol. Apanhei o livro com capa de couro avermelhado. As letras metalizadas diziam que aquele era ‘O Bestiário Mítico das Criaturas Obscuras’ — meu velho amigo. Sorri ao reencontrar o livro que teimava em aparecer nos lugares mais improváveis da minha vida, como que por uma vontade consciente.
Seguindo o meu costume, abri uma página aleatória e um verbete se agarrou ao meu olhar.
“QUIMERAS: seres estáticos que se movem quando ninguém lhes dá atenção. São feitas das coisas banais que se perdem na multidão e vivem no hiato entre a menor das frações do tempo. Se disfarçam de tédio para esconder sabedorias ínfimas. O humano que deseja encontrar uma Quimera precisa da habilidade de se perder dentro de si próprio, mas mantendo atenção a onde está. Aquele que capaz de achá-la ganha o direito a um desejo realizado.”
Bem no final daquele texto, como que marcando a página do livro, achei uma pequena moeda que não valia mais nada há mais de três décadas. Apanhei o pequeno pedaço de dinheiro morto para mim. Fechei o livro e o devolvi para seu esconderijo sussurrando “até logo”. Caminhei até a fonte e apertei o metal entre os dedos.
O problema era saber qual o meu desejo.
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P.s.: essa história foi inspirada pela música Hiato da Baleia

