Carta de Tempestade nº 1 - o branco do medo e o preto do pensamento.

Meio do Mar, décimo primeiro dia de tempestade de um mês incerto.

Olá pessoa que não sei quem é,

A tempestade balança o barco e me faz pedir desculpas pela letra que se inclina em direções diferentes. Não facilita a leitura, eu sei. No silêncio dos trovões e na companhia do céu cor de chumbo precisei me refugiar neste canto abarrotado e improvisar essa carta.

Não tenho como saber que você recebeu isso aqui. Só posso acreditar no poder do acaso que diz que tudo que se perde vai ser achado algum dia. Surrupiei quatro garrafas e arranquei as últimas folhas do caderno. Resolvi escrever os pensamentos que relampejam dentro da cabeça antes que me consumissem. Terminando de colocar essas letras no papel, irei atirá-las ao mar. Seja lá quem as encontre.

Quando as nuvens escurecem o sol e a chuva açoita as cabeças, as pessoas param de se olhar nos olhos. Enxergam somente o céu cinzento acima (e dentro) de suas cabeças. Se esquecem do que nos faz humanos para se concentrarem na próxima tarefa. Curso, vento, nó apertado, comida, descansar, recomeçar. Medo transforma seres vivos em robôs.

Quase entrei na corrente desses padrões ao infinito. A tempestade se estende e parece que não vai passar. Parece que sempre choveu e sempre vai chover. Quando dei pause na vida e me embarquei como funcionário subalterno em um navio de carga qualquer, imaginei que teria o sol e a brisa como companheiros. Mas até eles me abandonaram.

Da desesperança, escura como cegueira branca, brotou o contorno de uma sombra que mostra o caminho. É preciso contraste para distinguir as coisas. Quando lembrei o que me faz respirar a realidade desembaçou. Entre os pensamentos esbranquiçados de me atirar do gradil e me entregar ao mar, o negro da tinta se fez letra no papel branco do medo.

Lembrei que escrever palavras é o que sopra vida nas minhas narinas. As primeiras linhas nessa carta foram como ar novo inundando meus pulmões submersos.

Você pessoa desconhecida, que nunca saberei quem é, segura entre as mãos o meu bote salva vidas. E você é a única que saberá que existem outras três Cartas de Tempestade espalhadas pelo oceano.

Se você conseguir reunir todas elas, lhe concederei um desejo.

Com amor (porque desejar amor a estranhos é a maior gentileza que conheço),

Eu.