Morte Horrível

O rolê tava meio ruim. Nem uma dúzia de pessoas semi-conhecidas no meio da plateia que passava de cinquenta mas não chegava a cem. Quinze minutos de atraso para começar — até então — e parecia que ainda ia demorar um bocado.

Tinha aquele burburinho de conversa que só é legal se você está conversando. Quando se está sozinho ele faz cócegas o fundo do cérebro. O ar condicionado não era frio o suficiente para colocar a blusinha que estava na bolsa, mas incomodava um pouquinho. Pouquinho esse que se durasse mais dez minutos ia ganhar potencial de enlouquecer.

A coisa só fica interessante quando a mestre de cerimônia finalmente sobe ao palco revestido de um carpete cansado. E começa a cacarejar. Com uma pose muito digna, vestida impecavelmente em seu tailleur cinza nem claro nem escuro, se colocou no púlpito de plástico, o olhar sério, a imitar uma galinha com uma maestria estarrecedora.

Quando ela encerrou os cacarejos a plateia aplaudiu. Não com empolgação, mas com uma polidez que beirava educação.

Um homem engravatado usando óculos, com um indício de suor acima dos lábios a despeito do ar condicionado, tomou seu lugar no palco. Mais aplausos bem educados.

Silêncio se seguiu enquanto o homem perguntava aos papéis nas suas mãos como começar. Após o instante de expectativa dos espectadores ele pigarreia. Leva as costas da mão direita à boca para entoar um longo e profuso barulho de pum. Várias cabeças na plateia aquiescem levemente, respingando compenetração em suas cadeiras quase confortáveis.

Algo muito importante acontecia ali.