O peso das coisas.

Quantos quilos uma existência pode ter?

“Ai, migo com você tudo é muito pesado” a minha amiga Diretora de Arte me fala enquanto vira um gole de cerveja barata — água com gás saborizada, como eu costumo chamar.

Eu escorrego na cadeira uns dois centímetros a mais e encolho os ombros tentando fazer parecer que não estou nem aí, enquanto sei que na verdade os novos dois quilos que se assentam sobre meus ombros ficam em evidência.

Se a gordura aumenta o peso do nosso corpo, o peso da existência é enxertado de culpa. É tanta culpa carregada nos meu ombros, subproduto de contínuas caminhadas com os meus Fantasmas pessoais.

“Você precisa de mais leveza nessa vida, se liberta disso.” a amiga continua dizendo com toda a sabedoria que uma sexta-feira à noite regada a álcool pode proporcionar. Olho para o meu copo inerte e me pergunto se já consigo encontrar um foco de aedis aegypti ali. Água parada com gás saborizada & contaminada. A metáfora para minha vida, todo esse acúmulo de qualidades desnecessárias.

A culpa me abraça porque meia hora atrás o terceiro gole de cerveja já soltou minha língua e desatei a falar dos desejos não realizados, dos medos guardados e das conversas secretas com meus Fantasmas.

“É que existe algo que não dei vazão, e agora tá quase explodindo aqui dentro.” eu havia dito para encerrar o meu lamento.

Minha amiga é a melhor pessoa do mundo, salvo alguns milhares de defeitos. Talvez estivesse num daqueles dias em que se tem menos paciência do que o normal e por isso ela não conteve o virar de olhos. E me mandou ser menos pesado. Como se isso fosse uma escolha. Junto do peso das coisas que poderiam ter sido, dos sonhos que ficam flutuando na cabeça alheios à realidade, vinha o peso de ser pesado.

A culpa é um elefante cor-de-rosa que gosta de brincar de cavalinho nas minhas costas. Por que afinal de contas minha vida não tinha nenhuma tragédia maior do que frustrações silenciosas e dores em partes do corpo que não existem.

“Isso é meio que uma grande babaquice.” me dizia a amiga Diretora de Arte, mas em vez de sua voz grave com a rouquidão típica do uso contínuo do cigarro de palha eu ouvia a minha própria voz.

Imagine o susto de subitamente me ver sentado comigo mesmo em uma mesa de bar — uma versão de mim que fuma cigarro de palha e usa a saia plissada da minha amiga Diretora de Arte.

Eu continuo dizendo a mim mesmo que é tudo uma grande baboseira.

“Todos aqueles vídeos motivadores” diz meu outro eu entre uma baforada e outra de um cigarro que não cheira tão mal quanto os comuns “e você não moveu a bunda dessa sua cadeira. Pra que serve tudo isso? É algum jogo de como se sentir pior?”

Não é como se eu gostasse de me sentir mal comigo mesmo, eu penso. Minha cabeça tem vida própria. Mas é claro que eu não preciso falar para que eu mesmo saiba o que estou pensando. Então ele — o outro eu — responde que tem gente no mundo que sofre de verdade e que eu deveria dar graças a deus por ter um diploma e os freelas e jobs que pagam as contas.

Eu aperto um pedaço do peito.

“É que tem algo que continua doendo aqui. Talvez sempre vai ser assim.”

“Você é um masoquista que adora se torturar” ele/eu responde e cospe fumaça no meu rosto.

Meus olhos ardem e eu tenho vontade de chorar.

O dia seguinte amanhece comigo em um sofá. A amiga Diretora de Arte me dá chá de boldo quando vê que eu acordei.

“A sua capacidade de ficar trêbado com tão pouca cerveja é um dom, menino” ela diz com um meio sorriso. “Mas eu adorei o papo filosófico. Você está desperdiçado nessa sua vida de freelancer.” ela faz graça

A minha cabeça dói — não sei se da bebida ou das conversas intermináveis comigo mesmo.