Oi sumido.

Gabriel Oliveira
Jul 27, 2017 · 2 min read

“Só vou terminar esse job aqui e já saio pro rolê” eu falei para a Amiga Diretora de Arte sem tirar o olho do computador.

“Tá bom. O pessoal todo vai estar lá. Demora não” ela falou a meio caminho de fechar a porta.

“Acabo rapidinho, falta pouco” eu garanti com a mesma certeza de quem brinca de jenga ou constrói castelo de cartas.

Não parecia que era tanta coisa assim. Pelo menos eu esperava que não fosse.

Antes de cada palavra e cada ação desempenhada pra chegar perto do status “freela terminado” antecediam sete mil trezentos e setenta e cinco pensamentos, com doze ramificações cada. Minha mente, que sempre teve vontade independente do seu dono, fazia cada caminho de ida e volta dessa árvore de fluxo de ideias aleatórias.

Setenta e cinco porcento dessas ramificações pensamentais terminavam em imaginários de desastres que resultavam em paralisia temporal dos meus membros.

Efeitos colaterais desse passeio mental involuntário por pensamentos que não pedi incluíam: palpitação, suor frio, borboletas no estômago, nó na garganta e tremores espasmódicos involuntários. Todos esses em análise combinatória.

Depois de arrotar borboletas, engolir nós e esperar tremeliques passarem por conta própria, eu retornava à micro-ação seguinte.

Para o processo recomeçar.

Acho que demorou um pouquinho, mas finalmente apertei send e enviei o arquivo compactado. Tudo lá. Só amanhã.

Cansado eu até que estava, mas arrastei os pés em direção ao bar como figurante semi decomposto de revival barato de Noite dos Mortos-Vivos. Não prestei atenção no caminho — já estava cansado de prestar atenção por um dia inteiro — e entreti minha mente cheia de ideias próprias com a promessa de um gole de cerveja.

Sentei na mesa de sempre sem cumprimentar o pessoal — nos víamos quase todo dia. Demorei pra notar o silêncio. Nos mili-segundos que separam pensamento de ação reparei a ausência de barulho de conversa. O espaço entre as minhas orelhas, na verdade, parecia bem preenchido de silêncio.

Fiz um esforço comunal para sair de dentro da minha cabeça de uma vez por todas e realmente olhar para a realidade.

Na mesa, caídos de lado, eu conseguia distinguir as formas empoeiradas que séculos atrás haviam sido meus amigos.

As roupas puídas, a pele decomposta, teias de aranha preenchendo caveiras expostas como múmias de qualquer uma das ruínas do Indiana Jones.

Acho que não foi tão rápido terminar esse job.

Será que ainda existe cerveja?

Eu Fictício

Histórias imaginadas de um Eu semi-fantástico.

Gabriel Oliveira

Written by

Em busca do barulhinho especial que cada coisa tem.

Eu Fictício

Histórias imaginadas de um Eu semi-fantástico.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade