Pantomima

[camarim]

Visto minha fantasia com saia rodada, 
minhas contas
(cada pedrinha bonita para agradar).
Teatro mudo.
Escolho para o rosto a pintura mais alegre
e repasso o roteiro mentalmente, serena.
É a cena de esquecer.

[ATO 1397]

Luzes e cores, aí está você.
Tua máscara é branda
e ainda mais ingênua que a minha.
Faço uma reverência larga,
danço,
pulo,
sorrio com expressões exageradas.
Ao final das piruetas
paro e espero: o holofote ilumina-te,
é a deixa.
Com gracejos e elegância,
tu tiras do bolso um pequeno frasco
(tudo parte do espetáculo)
doce aroma que vicia.
Aproximo-me ansiosa,
lanço olhares curiosos,
o corpo todo se inclina.

É lirismo líquido!
Palavras emprestadas flutuam,
mentiras deslavadas,
amor fingido no fluido vermelho,
tudo de que preciso!

Desesperadamente arranco-te o frasco
tua mão segura a minha
a platéia toda delira,
bebo até a última gota num instante,
como xarope
que faz bem.

Unimos as mãos:
é preciso agradecer demoradamente as palmas
antes que as cortinas fechem mais uma vez.