Um ano, um mês e nove dias

-Parece que foi coração.
-Não… Foi amor!

Já fez um ano que decidiste ir embora. Já fez um ano que esperaste que eu estivesse longe para não dizeres adeus. E eu não escrevi sobre isso. O que escrevi na altura enfiei na gaveta, sem reler, sem querer saber. Escrevi a raiva que me deixaste por não nos termos despedido para sempre. Escrevi a mágoa do que deixaste sem pensar na falta que farias. Escrevi sobre teres-me ficado na pele como chaga que nunca fecha. Mas sobre o que me ensinaste, sobre isso nunca escrevi.

Há gente que morre por amar demais!

É o que penso muitas vezes, desde que foste. Foi o que me ensinaste: amar incondicionalmente, com requintes de masoquismo e loucura, pode matar. O amor mata. Há pessoas que morrem porque amam demais. Foi o que me ensinaste: nada nem ninguém é mais valioso do que nós mesmos. O outro é um complemento para adoçar o amargo da vida.

Quando voltei dessa viagem, não te encontrei. Tinhas decidido ir embora uma semana antes. E, no meu íntimo, nunca foste. Estavas em todo o lado, em cada pedaço.

A minha volta foi um novelo de acontecimentos quase mágicos duma despedida nossa sem nunca o ter sido. Mas tu sabes, porque apesar de eu não ser dada ao etéreo ou à espiritualidade, tenho a certeza que foste tu quem promoveu essa despedida.

Tu sabes que não te chorei, por raiva, por incompreensão, por revolta e por mágoa. No dia da minha volta, a ansiedade a caminho de te ver, sabendo que não aconteceria, foi quase cega. E estavas em todo o lado sem estar. E foi nesse dia que te chorei. Percebi que viajaste sem bilhete de regresso. Para sempre.

O que aprendi contigo foi isso: há pessoas que nos ficam na pele sem compreendermos bem porquê, não tem nome. Ficam-nos na pele. E sentem-se, mesmo que o corpo já não esteja para nos tocar, mesmo que a voz já não exista para nos dizer: a vida corre rápido. Vive… sem stress!

Foi a última coisa que me disseste: sem stress!

E sabes que, no dia em que decidiste ir embora, eu estava no meio de uma floresta, num passadiço com 30metros de altura a perguntar-me se deveria ou não saltar? Não saltei, mas deixei-te lá…

Ensinaste-me que as despedidas são importantes, que o amor que damos acaba por voltar.

Tenho saudades tuas. Por isso escrevo esta missiva sem morada de destino.

Estás algures a lê-la e eu sei que ajudaste a escrevê-la.

Luv, M.

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