Lamento

Podia começar este texto com as mil e uma coisas que lamento neste momento, mas há algumas que me doem mais. E são para a mulher e para a criança que trago dentro de mim, mas em especial para a menina de sete anos que carrego ao peito, como estandarte:

Lamento que nunca tenhas tido um colo, que nunca tenham perguntado o que sentias e que nunca tenham percebido que a tua fuga tenha começado nessa altura.

Lamento ter passado a vida inteira a tentar mostrar-te o que era ser feliz instantaneamente, como o chocolate que dissolves no leite, mas que nunca te tenha avisado que tudo o que começa rápido acaba rápido. Lamento que a mulher que te tornaste tivesse de passar por isso inúmeras vezes para entender.

Lamento que te tenham dito que a amizade é para sempre e que nunca tenham dito que a amizade também tem fim, desilusão e dor.

Lamento que te tenham dito que o amor não existe, que os homens não prestam e que tenhas crescido e te tenhas tornado na mulher defensiva e desconfiada que és.

Lamento que te tenham mostrado que o pai pode desaparecer da vida da filha por anos e aparecer no Natal e no aniversário como se a tivesse visto no dia anterior.

Lamento que nunca te tenham perguntado se o amor que te davam era suficiente.

Lamento que tenhas crescido num sítio onde não podes ser tu, onde não podes dançar livre, onde não podes viver o presente porque parece mal.

Lamento que a mulher em que te tornaste te tenha esquecido, magoado, partido, fugido e fingido que não existias todos estes anos.

Lamento que tenhas aprendido a duras penas que as pessoas não ficam, partem… não aquecem lugar e que isso é válido também para quem esteve sentado ao teu lado uma vida inteira.

Lamento que te tenhas tornado desconfiada com todas as facas espetadas nas costas.

Lamento que tenhas perdido gente que não te aguentou no teu pior. E que tenhas descoberto tarde que nunca deverias ter dado o teu melhor.

Lamento que tenhas passado a vida toda a sorrir e a dar gargalhadas para não teres de explicar porque não te apetecia rir.

Lamento que tenhas perdido pilares, tijolos e telhado dessa tua casinha.

Lamento que sintas vergonha, medo, dor, revolta, frustração.

Mas não lamento que estejas viva em mim!

Luv, M.

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