Precisamos falar sobre jovens LGBTQ+ no mercado de trabalho

Hoje faz 28 anos que a homossexualidade deixou de ser considerada doença pela Organização Mundial da Saúde. Esse marco (ainda bem recente) deve ser celebrado, porém, há muito a ser conquistado com relação a direitos de pessoas LGBTQ+: como o fato de que a transexualidade continua sendo classificada como patologia, considerada um transtorno mental (transtorno de identidade de gênero) pela OMS, apesar de todas as discussões e de todas as consequências que isso implica para as pessoas com identidades trans.

No mundo do trabalho não é diferente: desinformação, preconceito e falta de espaço para que as pessoas sejam elas mesmas. Segundo o Center For Talent Innovation, 61% dos colaboradores LGBTQ+ no Brasil escondem sua sexualidade ou identidade de gênero. Imagina só o quanto isso afeta a vida de um jovem?

Pedi ajuda da Vanessa Caramelo Rosolino que é facilitadora no processo de autoconhecimento, psicóloga e empreendedora sobre como poderíamos começar respondendo essa questão e ela me respondeu o seguinte:

O preconceito ainda existe e não podemos fechar os olhos para isso. Jovens LGBTQ+ enfrentam uma dura realidade no mercado de trabalho, muitos não se expõem por medo de retaliação, penalização e até de perderem seus empregos.
Quantos deixam de ser contratados por serem quem são? 63% dos jovens que assumem sua orientação sexual sofrem rejeição na família, por que com as empresas seria diferente? Tudo é um reflexo social e é a mentalidade das pessoas que precisa mudar!
Possuímos uma necessidade de nos sentirmos aceitos e acolhidos e no ambiente profissional não é diferente. Motivação, produtividade, comprometimento e vitalidade estão relacionados à forma como nos sentimos na empresa em que trabalhamos. Se não nos sentirmos bem-vindos, ou se sofrermos preconceitos enraizados e mascarados em forma de ‘brincadeiras’, boicotes e outras formas de exposição moral, este ambiente não passa de um lugar hostil, perverso e totalmente inabitável. Gera depressão, ansiedade, pânico, sensação de inadequação e pode levar inclusive ao suicídio em casos extremos.
Qualquer pessoa que me procura dizendo que o ambiente profissional é uma ameaça à sua saúde mental, psicológica e emocional, minha tendência é ajudar esta pessoa a escolher por si mesmo e não pela aprovação externa, mas geralmente quem chega até mim, já possui marcas profundas e acumuladas de sofrimento.
A reflexão deve acontecer antes de chegar ao extremo. As empresas estão preparadas para nossos jovens? Para aceitá-los da forma como eles são? Os jovens LGBTQ+ estão sendo preparados para enfrentar o mundo organizacional neste cenário?

Difícil acreditar estarmos em 2018 e ainda há pessoas passando por essas situações todos os dias, né? Você consegue, nesse momento, se imaginar passando por esses transtornos? Ter de se esconder, fingir ou passar uma imagem de algo que não te representa?

Fui conversar também com a Thalita Gelenske Cunha que é Consultora de Engajamento, Cultura, Diversidade e Inclusão na Vale, fundadora da Blend Edu e ganhadora da primeira edição do prêmio Valuable Young Leaders e questionei sobre o quanto as empresas estão preparadas para lidar com essa questão.

O mais curioso é perceber que, mesmo quando a empresa diz que ‘aqui não temos esse problema, na hora de recrutar ou promover nós nem reparamos se a pessoa é homem ou mulher, negro ou branco, homossexual ou heterossexual’, normalmente ela também está cometendo algum tipo de preconceito, direta ou indiretamente (mesmo que sem perceber). Os gestores / empresas que fazem essa declaração normalmente desconsideram os chamados ‘vieses inconscientes’, um termo que fala sobre os pré julgamentos, crenças, critérios e percepções que carregamos conosco de forma ‘automática’. Ele é explicado pela neurociência: a partir das nossas experiências, nosso cérebro faz conexões e associações, definindo padrões que podem ser tendenciosos e que reforçam estereótipos.
Chimamanda (de quem sou super fã) tem um TED Talk que diz ‘o problema com estereótipos não é que eles sejam mentira, mas eles não dizem toda a verdade. São incompletos’ Portanto, as pessoas precisam partir do pressuposto de que nosso mindset é naturalmente tendencioso, preconceituoso, machista, homo-lesbo-transofóbico e racista, uma vez que a nossa sociedade ainda é assim (estruturalmente falando). Precisamos nos entender como parte do problema, se quisermos ser parte da solução. E este é um elemento chave na discussão da diversidade.
A partir dessa reflexão, começamos a entender que não basta não ser homofóbico, temos que ser anti-homofobia. Não basta não ser transofóbico, temos que ser anti-transfobia. Ou seja, ter uma postura ativa, de sensibilizar as pessoas e ser um verdadeiro agente de transformação, que atua para que a sociedade deixe de ser tão opressora, desrespeitosa e violenta em relação aos LGBTQ+.
Uma vez que reconhecemos que temos nossos vieses, podemos começar a racionalizar e questionar alguns processos decisórios que (anteriormente) faríamos de forma automática e intuitiva. As empresas que despertam para esta questão passam a pensar em ações afirmativas, em programas estruturados, ações de treinamento contínuas e metas que sinalizem como a gestão da diversidade é estratégica e precisa entrar no DNA da cultura da organização. Elas passam a enxergar e dar voz ao público LGBTQ+ (que muitas vezes é invisibilizado) dentro das organizações, tendo uma postura empática para acolher e ouvir as suas demandas e as necessidades.
Há empresas, por exemplo, que não percebem que os LGBTQ+ da sua organização em muitos casos não tem o direito de estender alguns benefícios (como plano de saúde) para seus parceiros(as). Quando aponto isso, muitas pessoas falam ‘nossa, mas como eu nunca soube disso antes?’ ou ‘mas como isso ainda acontece aqui?’. A resposta é simples: o ser humano tende a não ver aquilo que não o atinge ou que não faz parte da sua realidade. Nossa tendência é viver dentro da nossa ‘bolha’.

Vale ressaltar que as empresas perdem — e muito — por não compreenderem esse cenário, ainda uma dica da Thalita, o que uma empresa perde ao ignorar esse tema:

  • Empresas que trabalham com políticas de diversidade têm 45% maiores chances de aumentar a participação de mercado durante o ano. (Harvard Business Review, 2016)
  • A performance financeira de empresas diversas chegou a ser 35% superior de acordo com o relatório ‘Diversity Matters’ .(McKinsey, 2015)
  • Nas empresas onde a diversidade é reconhecida e praticada, os funcionários estão 17% mais engajados e 75% dos funcionários reconhecem que tem espaço para inovar. (Hay Group, 2015)
  • Uma empresa com um corpo de funcionários diverso pode aumentar em até 152% as chances de compreender o cliente, sendo mais bem-sucedida ao fechar um negócio. (Harvard Business Review, 2016)
  • Empresas que trabalham com políticas globais para o público LGBTQ+ registraram um crescimento no lucro 6,5% maior nos últimos seis anos quando comparado aos concorrentes que desprezam a diversidade. (CREDIT SUISSE, 2017)
  • 63% acreditam que a diversidade contribui para avanços tecnológicos. (PwC, 2015. CEO survey)

Chega a ser assustador, né? Isso porque estamos falando de dados relacionados ao mundo do trabalho e nem chegamos a citar a ausência de direitos e o fato de que ser homossexual ainda é crime em muitos países, também estamos deixando de falar sobre quantas pessoas morrem todos os dias simplesmente por serem trans, lésbicas, bissexuais, gays e não pertencerem ao que a nossa sociedade entende como padrão.

Sugiro que você busque essas informações.

Nesse momento, escolhemos trazer à tona a relação entre o jovem LGBTQ+ e o trabalho porque precisamos falar sobre isso com a coragem e a empatia necessárias para transformarmos essa realidade, reconhecendo nosso lugar de fala e privilégios.

Assim como a luta por mais direitos no campo político, a luta por espaço e inclusão nas organizações é diária e desgastante, ninguém deveria ter vergonha de ser o que é em nenhuma situação, ninguém deveria ter que se esconder em um armário para exercer seu trabalho.

Para nós, demitir preconceitos significa abertura à reflexão e valorização da pluralidade e diversidade. Sabemos que essa discussão é muito maior do que esse texto ou todos os dados que podemos mostrar porque ela afeta, individualmente, pessoas em diferentes contextos e momentos de vida.

Por isso, escrevemos esse texto da forma mais vulnerável possível, queremos propor que essa conversa se inicie de forma genuína e inclusiva. Estamos dispostos, enquanto empresa, a reconhecer nosso papel com relação a essa temática e contribuir para que, de alguma forma, o mercado de trabalho comece a enxergar — para além das campanhas de promoção de marca — a importância da diversidade nas organizações.

Não somos os primeiros, não seremos os últimos e muito menos os protagonistas desse nosso desejo, só não podemos deixar de falar. E agir.

Sinta-se à vontade para entender esse texto como um convite ao diálogo sobre o tema e compartilhar sua visão com a gente! 🏳️‍🌈

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