mato sete de uma vez

eusouatoa
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Nov 7 · 2 min read

sinto gosto em matar

as moscas burras que

se multiplicam no

meu banheiro

nascem na água acumulada

da saboneteira

e as mais aventureiras

vão parar na fruteira da

copa, cômodo em frente

às paredes azulejadas

onde várias morrem

sob meus polegares

não mato moscas na copa

às vezes

no box

mato

com as costas

das mãos ou os cotovelos

certa vez matei com a testa

são tão burras

mal percebem que sou

uma ameaça

à sua espécie distraída

são tão lentas

até eu às 5h20 da manhã

à meia-luz que vem do fosso

do prédio antes do alvorecer

até assim meio astigmata

hipermétrope de um olho só

mesmo assim

costumo matar

sete de uma vez

mato

mesmo sem querer mato

às vezes querendo mato

essas sonsas que nem fogem

ficam me olhando chegar mais perto

dedão rijo de encontro à cerâmica

sanduíche de mosca

até fazem sentido nos pântanos

onde são comida de sapos

no banheiro não há mais sapas

é meu dever portanto

matá-las moscas

todas

como foram parar lá?

não há tempo para

filosofias de banheiro

água sabonete de lavanda xampú

creme sabonete de carvão pro rosto

e umas matanças de moscas

primeiro as graúdas

depois as filhotas

matar moscas

impedem que eu exploda

lá fora

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Lívia Aguiar escreve, viaja, caminha, pedala, cozinha e sonha

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