
sinto gosto em matar
as moscas burras que
se multiplicam no
meu banheiro
nascem na água acumulada
da saboneteira
e as mais aventureiras
vão parar na fruteira da
copa, cômodo em frente
às paredes azulejadas
onde várias morrem
sob meus polegares
não mato moscas na copa
às vezes
no box
mato
com as costas
das mãos ou os cotovelos
certa vez matei com a testa
são tão burras
mal percebem que sou
uma ameaça
à sua espécie distraída
são tão lentas
até eu às 5h20 da manhã
à meia-luz que vem do fosso
do prédio antes do alvorecer
até assim meio astigmata
hipermétrope de um olho só
mesmo assim
costumo matar
sete de uma vez
mato
mesmo sem querer mato
às vezes querendo mato
essas sonsas que nem fogem
ficam me olhando chegar mais perto
dedão rijo de encontro à cerâmica
sanduíche de mosca
até fazem sentido nos pântanos
onde são comida de sapos
no banheiro não há mais sapas
é meu dever portanto
matá-las moscas
todas
como foram parar lá?
não há tempo para
filosofias de banheiro
água sabonete de lavanda xampú
creme sabonete de carvão pro rosto
e umas matanças de moscas
primeiro as graúdas
depois as filhotas
matar moscas
impedem que eu exploda
lá fora

