Por que o debate “natureza versus criação” é uma ‘ideia zumbi’ que precisamos matar

Henrique Rufo
Jun 2 · 4 min read

Texto original de Stephen Johnson para o BigThink
Tradução de Henrique Rufo


  • Apesar do fato dos cientistas saberem há muito tempo que o comportamento é causado por interações complexas entre genes e o ambiente, o debate ainda persiste na cultura atual.
  • Um novo artigo descreve três razões pelas quais esse debate persiste e por que o comportamento não é especial — ele segue os mesmos processos evolutivos que outros traços.
  • Os autores dizem que rejeitar a falsa dicotomia natureza-criação pode ajudar a matar essa “ideia zumbi”.

O que determina características como orientação sexual, inteligência e comportamento: genes ou ambiente?

Muitos debates modernos se concentram nessa questão, do movimento #MeToo aos direitos dos transgêneros, do desempenho acadêmico ao crime. Mas vale a pena ter essa conversa sobre natureza-criação? Afinal, foi há mais de três décadas que o bioquímico americano Daniel Koshland escreveu em um editorial publicado na Science: “O debate sobre natureza-criação em relação ao comportamento basicamente acabou. Ambos estão envolvidos”.

Agora, um artigo recém publicado na BioScience argumenta que finalmente chegou a hora de matar o “zumbi” que é o debate entre “natureza e criação”. Os autores — Marlene Zuk e Hamish G. Spencer, do Departamento de Zoologia da Universidade de Otago — observam que os comportamentos não são determinados apenas por genes ou pelo ambiente.

Zuk e Spencer dividem seu argumento em três partes.

O comportamento não é especial em sua evolução

Os autores escrevem que o comportamento evolui da mesma forma que outras características. As pessoas muitas vezes pensam erroneamente que o comportamento — particularmente o comportamento humano — existe à parte dos princípios da evolução, em um domínio separado de outras características, como a altura.

Os autores observam a planta carnívora (Venus flytrap) como um exemplo.

“As células motoras que fecham a armadilha precisam exatamente de dois sinais dentro de 20 segundos para serem ativadas. Então, pelo menos três movimentos — não um, nem quatro — dos pelos de disparo são necessários para sinalizar a produção de enzimas digestivas. Somente então o consumo bem-sucedido da presa tem início”.

Esse processo predatório preciso conta como comportamento? É uma pergunta complicada, com certeza. Mas os autores levantam isso porque:

“Se não podemos traçar uma linha firme e rápida que separa o comportamento de outros traços, então as mesmas regras se aplicam a ambos, e o comportamento evolui da mesma maneira que o comprimento da perna ou outras características físicas. Essa é uma conclusão importante, porque significa que não podemos invocar a cultura como um ‘cartão de saída livre’ da evolução”.

O comportamento não é explicado apenas por genes ou ambiente

Isso pode ser bastante óbvio. Mas os autores também argumentam que os comportamentos não são nem o resultado de uma combinação dos dois. Em outras palavras, você não pode olhar para um velocista renomado e dizer que suas habilidades vêm de 68% de genética e 32% de ambiente.

Em vez disso, os comportamentos decorrem da interação complexa e fluída entre os dois.

“O efeito dos genes de um organismo depende do ambiente do organismo e o faz tanto quanto o efeito do ambiente de um organismo depende de seus genes”, escrevem os autores. “Os genes e o ambiente interagem. A filósofa da ciência Evelyn Fox Keller chama isso de emaranhado de genótipo e ambiente, que também expressa a natureza indissociável do relacionamento entre os dois”.

Os genes não codificam comportamento

Zuk e Spencer sugerem que a maneira como as pessoas falam sobre genes tende a confundir o público sobre o papel da genética na influência do comportamento. Por exemplo, você pode ler um estudo dizendo que os cientistas “encontraram o gene para” a inteligência, a criminalidade ou qualquer outra característica.

“O que os cientistas querem dizer quando falam sobre um gene para uma característica é que a variação nesse gene (por exemplo, diferenças na sequência de DNA desse gene) leva, em uma certa variabilidade ambiental, à variação dessa característica e o conceito envolvido é a chamada herdabilidade”, escrevem os autores.

Mas um gene para uma característica não atua como um interruptor que produz comportamento.

“O ponto crucial é que, independentemente da herdabilidade de uma característica, uma mudança na variabilidade ambiental (ou, nesse caso, a variação genética que afeta a característica) pode alterar a herdabilidade. Tudo depende do contexto”.

Matando o zumbi

Então, por que precisamos matar o zumbi da natureza-criação? Zuk e Spencer sugerem que essas crenças equivocadas podem nos levar a pensar que certos comportamentos são inevitáveis. Por exemplo, se as pessoas com anorexia leem artigos dizendo que a condição é causada exclusivamente pela genética, podem sentir que não há nada que possam fazer para melhorar sua saúde. Dessa forma, as pessoas podem sentir que têm uma “desculpa” para manter esse comportamento, quando, na realidade, intervenções externas poderiam beneficiá-los.

Da mesma forma, a crença de que os genes determinam características como inteligência ou mobilidade social pode influenciar as autoridades públicas a não investir tanto dinheiro em determinados programas públicos. Dessa maneira, a dicotomia de natureza vs criação pode levar as pessoas a não tomarem certas atitudes.

Os autores dizem que é hora de quebrar nosso vínculo conceitual entre genética e destino.

“Uma rejeição dessa equivalência, juntamente com uma visão da natureza com um emaranhado de genes e ambiente, seria um progresso real e poderia matar o zumbi”.

Evolution Academy

Nada em biologia faz sentido exceto à luz da evolução!

Henrique Rufo

Written by

Biólogo, pesquisador do comportamento animal (mestrando em Etologia) e amante dos primatas.

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Evolution Academy é um blog com o foco na divulgação acadêmica e no jornalismo cientifico, principalmente sobre a Teoria da Evolução.

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