conto de amor número 47

A rejeição de um amor na contemporaneidade

Filme Her (2014) de Spike Jonze

Sexta-feira é o pior dia para existir e para tomar café. Eu odeio sexta-feira. Eu odeio o amor. Você deve estar me achando um baita dramático. É, talvez eu seja um pouco sim, mas não é um ódio gratuito, sabe? Eu tenho motivos e vou te contar a minha história.

Sexta-feira é o dia que vou pro hospital. E não é por isso que eu odeio sextas. Não estava esperando nada além de uma injeção na bunda, mas veio de brinde um coração brincando de Fórmula 1, borboletas chutando o meu corpo inteiro e voz trêmula. Tudo isso por causa do amor. Eu odeio o amor.

Depois de fazer os exames necessários e de ficar horas sem comer nada, fui para o minúsculo restaurante que fica a pequenos passos do hospital. No meio do caminho encontrei uma senhora e uma moça perdidas. Era a primeira vez delas em São Paulo. Por algum motivo que eu ainda não sei, elas me pararam. E aí que começa o drama todo.

Elas tinham acabado de sair de um dos hospitais daquele lugar. É, tem vários hospitais de todos os tipos lá, como se fosse uma cidade de hospitais dentro de uma cidade de loucos. A senhora era a única que falava, mas de um jeito tímido e reservado. Perguntou onde ficava o restaurante mais próximo e eu tolo as levei até lá, já que comeria no mesmo local. Eu sou um idiota mesmo.

Elas foram super educadas comigo, não me deixaram sozinho. E foi aí que reparei na existência da moça quando ela sorriu pra mim. Ela é uma guria invisível, mas por algum motivo ela apareceu pra mim. O cabelo bem curtinho dava o devido destaque para o sorriso ingênuo dela. Com o corpo bem magro e pequeno, a camiseta da Nirvana ficava livre e solta, além de caber mais dois clones dela ali dentro. Fui fraco, não resisti. Trocamos nossos números com a desculpa de que iriamos nos encontrar várias vezes por lá e que elas precisavam de um “guia”. Logo mais tarde na madrugada conversamos até o Sol aparecer novamente.

Conversamos sem parar por quase dois meses. Éramos inseparáveis. Conversavamos por mensagens, ligações e chamadas de vídeo. Ficamos tão próximos que não conseguimos esperar mais. Não conseguiamos mais ficar longe um do outro. Era amor. Sabiamos que era amor. Resolvemos nos encontrar na cidade dela e tudo deu certo. Saímos de lá como namorados.

E toda a conversa online se intensificou cada vez mais. Mas como eu poderia amar alguém que eu só vi duas vezes? Como eu poderia ter certeza que tudo era real e não uma ficção? Eu não sabia de nada e fui ingênuo. Eu me entreguei completamente para o amor e ele me sugou. Ele me enganou.

Saímos mais uns bocados e aparentemente estávamos bem. Tudo parecia bem, até que fui atingido por uma bomba do coração partido. Entrei em guerra com o amor. A guria alguns dias depois de um baita encontro na Avenida Paulista terminou comigo por mensagens. Não fez nem questão de olhar nos meus olhos ou de literalmente falar comigo. Ela terminou por falta de sentimento recíproco e que estava me usando para tentar esquecer um outro alguém, mas que não se sentia mais bem por me ver cada vez mais apaixonado por ela. Não a culpo por nada. A vida é assim, de ganhos e perdas. E eu sou um baita de um perdedor.

Eu sempre quis ter um amor, mas ele sempre foge de mim. Posso dar o meu melhor mas nunca será o suficiente. Posso ser a cara metade do outro, mas ninguém acredita. As vezes me pergunto até que ponto é bom o amor, porque a felicidade que ele nos traz é grande, mas a dor pela perda de alguém é muito maior. Agora quem está fugindo sou eu e não tenho data específica para voltar. Talvez eu volte para o amor em uma próxima vida.

George Zanineli.

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