O Dia em que a Polícia Bateu na minha Porta

Eu estava hospedado em um hotel na 25th Ave NE, em Seattle, costa oeste dos Estados Unidos. Às dez da noite de um dia de semana, ouço baterem na porta. Espio pelo olho mágico e não reconheço a pessoa que vejo. Um cara alto, algo como um metro e noventa, entre 40 e 50 anos. Se fosse o professor que me acompanhava na viagem eu já ia achar estranho bater na porta àquela hora. Um estranho, pior ainda. Atrás dele, entretanto, estava a gerente do hotel. Resolvi abrir.

— Boa noite. Eu sou o Tenente John Doe e gostaria de te fazer algumas perguntas. Posso?

Imediatamente após ele acabar a frase, eu tinha dois programas rodando no meu cérebro em paralelo. O primeiro rastreava todos os meus passos desde quando eu passei pela imigração até aquele exato momento. O segundo apenas repetia, sem parar: “Que merda que tu fez? Será que tu vai ser preso ou deportado?” Nesse sentido, ser brasileiro no exterior é foda. Em uma fração de segundos — que pareceu um intervalo de horas — eu tentava revisitar todas as minhas ações a procura de qualquer tipo de infração. O turbilhão de pensamentos só foi interrompido pelo aceno de cabeça da funcionária que o acompanhava.

Com a certeza absoluta que eu estava ferrado e resignado com o fato de que eu não tinha outra opção, perguntei se ele queria entrar. Ele preferiu ficar de pé, à porta. E o interrogatório começou:

— Onde o senhor estava ontem à noite, pelas onze horas, pi-ém?

— Olha, jantei aqui na frente com meu colega e depois vim para o quarto.

— Que horas foi isso?

— Acho que cheguei pelas dez e meia.

— E depois disso?

— Tomei banho, vi um pouco de tevê e devo ter ido dormir pelas onze e meia.

— E durante esse tempo o senhor escutou algum tipo de barulho, estrondo?

— Não.

— Tem certeza? Não quer pensar um pouco?

— Olha, eu tenho o sono pesado, não escutei nada não.

A essa altura, eu já estava curioso e perguntei:

— Aconteceu alguma coisa?

— Sim. Uma pessoa faleceu ontem à noite aqui no hotel. Até achamos que foi morte natural, mas como encontramos muito álcool no local, estamos investigando. Por favor, pegue meu cartão e caso lembrar de alguma coisa, entre em contato. Boa noite.

— Boa noite.

Ainda tenho o cartão, como souvenir.

No outro dia pela manhã, indo em direção à saída, passei por uma porta aberta e avistei duas camareiras arrumando um quarto. Trabalho esse feito popularmente por imigrantes latino-americanos, parei na soleira e perguntei com o melhor portunhol do mundo:

¿Hola, que tal? Permiso, pero … ¿qué pasó en la otra noche?

As duas, como praticantes de nado sincronizado começaram a fazer o sinal da cruz. Enlouquecidamente. Cada ciclo completo foi acompanhado de uma cara de pavor e de um:

¡Se murió! Madre de Dios, ¡la chica se murió¡

Elas repetiram o movimento das mãos muitas, mas MUITAS vezes. Tentei conversar um pouco mais com as duas. Elas falavam em cima das outras, rapidamente e no final das contas não cheguei a ser muito efetivo. Não consegui mais informação além da mais honesta demonstração de lamentação pelo ocorrido e também do que eu já sabia: excesso de bebida alcoólica ao redor do corpo da guria.


Dois dias depois, ao fazer o check-out, com todos os trâmites acabados, a pessoa atrás do balcão me comentou:

— Ouvi dizer que o senhor ficou preocupado com o que ocorreu na outra noite.

— Na verdade, fiquei curioso. Afinal de contas, a polícia bateu na minha porta.

— Pois é, eles tinham de fazer isso. A guria morreu no apartamento em cima do teu.

Waaaaat?

— Não não. Ela morreu no andar de cima do teu, do outro lado do corredor …


Naquele final de semana, houve jogo de futebol americano universitário entre o Washington Huskies e o Oregon Beavers. Como meu hotel era perto do campus, e por consequência do estádio, muitos alunos da universidade visitante estavam hospedados ali para acompanhar a partida. Muito provavelmente, alguns deles exageraram na bebida e a fatalidade aconteceu.

Várias vezes tentei procurar na internet para ver se encontrava o que tinha acontecido. Até hoje, nunca descobri nada a respeito além do que ouvi naqueles dias.

Go, Huskies!

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