S.V. Dawnbreaker: Rumo a Ilha de Páscoa

Velejando por 30 dias no oceano pacífico

Felipe B Cabral
May 21, 2018 · 9 min read

A aventura começava já pela falta de dinheiro. Ao escolher a passagem mais barata entre Porto Alegre e Puerto Montt eu tive de passar uma excelente noite nos bancos impróprios para esse fim do aeroporto de Buenos Aires.
Em Santiago do Chile tive horas livres onde aproveitei e fui de ônibus até o centro histórico da cidade para ver um pouco com os meus próprios olhos.

Cheguei em Puerto Montt a noite, minha segunda viagem internacional, olhei para a fila de táxi e, sabendo a média de preço através do capitão, eu negociei rapidamente a corrida até a Marina onde se encontrava o Dawnbreaker.
Cruzei praticamente a cidade inteira, observando as casas, arquitetura, nível de segurança que as casas se apresentavam, com muros altos. Parecia o Brasil, então eu deveria ficar ligado sempre.

Fui recebido na porta da Marina pelo Capitão Lars. Com a luz atrás dele eu mal conseguia ver seu rosto. Mas eu nunca precisei me preocupar com a pessoa que seria responsável pela minha segurança física no meio do mar. Ele me ajudou com as minhas coisas e me recebeu muito bem!

Andamos até o final do terceiro trapiche e chegamos até o barco.
Foi isso que eu vi: http://chuckpaine.com/pdf/64DAWNBREAKER64.pdf
(essa é a brochura oficial me enviada pelo capitão. Ele levou o barco para a Suécia e realizou a "nacionalização" do barco, fazendo com que ele carrega a bandeira da Suécia).
O barco limpo, quase luxuoso foi um colírio! Certamente não tinha porque me preocupar com nada em relação isso.

Quem já estava lá fazendo a janta para nós era Miki Golan, um Israelense de 59 anos, com permissão pra comandar barcos de até 200 toneladas. Passamos os próximos dias colocando o barco em ordem. 7 dias corrigindo todos detalhes e fazendo a compra de mantimentos. Assim como o registro para chegar até a Ilha de Páscoa.

Os outros tripulantes, Hernan, argentino que mora no Brasil desde sempre e Steve, australiano.

Steve, Hernan, Lars, eu, Miki
Última refeição em terra

Puerto Montt

Hernan aprendendo a velejar com Miki
Deixando Puerto Montt

Arquipélago Robinson Crusoé

Nossa primeira parada foi na Ilha Robinson Crusoé e ela tem esse nome não por coincidência. Alexander Selkirk era um marinheiro que fazia a rota Boston <-> Los Angeles antes da costa oeste ser da propriedade dos Estados Unidos. Sem o canal do Panamá existir, todas as embarcações tinham que cruzar o cabo Horn ao sul. Voltando de Los Angeles, onde eles carregavam todo espaço de carga com peles e couros, ele disse que o navio iria afundar e não confiava mais no seu comandante. Foi mandado descer na ilha que na época só tinha cabras, introduzidas pelos marinhas do mundo que queriam uma ilha deserta cheia de cabras para poder reabastecer de carne quando ancorassem por lá. E por 4 anos a ilha foi habitada apenas por Alexander e cabras. Já o comandante que abandonou Selkik morreu quando seu barco afundou não muito depois de ter deixado a única pessoa com senso de fora.

Chegamos na ilha a noite. Mediamos a distância da costa por um medidor a laser, andando o mais devagar possível, de olho na profundidade. Não queríamos deixar o barco bater nas pedras e acabar a viagem por aqui.

Fiquei com o primeiro turno de vigia, eram 4AM. Toda vez que a âncora descia o capitão inicia o rito "anchor shots". Um martelinho de vodka toda vez que a âncora descia. Beber a bordo com a âncora levantada era MUITO restrito. Mas valeu a pena pegar o turno do cachorro porque pude acompanhar o nascer do Sol.

Ficamos dois dias na ilha, a maior parte do tempo fazendo hiking, já que a cidade de 600 habitantes não tinha muitos atrativos.

Um pouco da natureza impecável da Ilha de Robinson Crusoé


Ilha de Páscoa

Chegando na Ilha de Páscoa, 12 dias sem parar

Cinco pessoas, não muito mais do que 20 metros de barco. Sem internet. Turnos de vigília que forçam uma certa restrição de sono.
Eu li mais de 1000 páginas, todas sobre universo náutico. Hernan e Steve chegaram a tocar músicas juntos.
Aprendi a pescar, matar, descamar, limpar, fritar e servir peixe. Peguei Sol pendurado nas âncoras enquanto as ondas molhavam meus pés.
Apesar de ser um momento que pode produzir muito stress, pode ser sim muito divertido:


Primeira vista da Ilha de Páscoa

Ancoragem

Por algum motivo nós sempre chegamos aos nossos destinos as 4AM. E quem tinha escolhido o turno do cachorro para poder dizer que "merece seu sal"? Eu mesmo. E talvez por isso eu tive que andar pelo convés no meio da noite escura para remover as travas da retranca(mastro e retranca são as peças rígidas que compõe a estrutura da vela mestra). Poucos segundos depois eu ouvi o ranger de peças, a retranca estava se movendo sozinha. Uma peça que ajuda a segurar a vela principal de um barco de 20 toneladas, já tinha lido e assistido vídeos sobre os perigos, inclusive de morte, sobre uma retranca que varre o convés e joga jovens ao mar com uma pancada na cabeça que pode deixá-los desacordados. Não titubiei e me abaixei ao ponto da minha cabeça ficar alinhada com os meus joelhos, posição perto da ideal, porque depois de ter varrido o convés com força, a retranca que troca de lado faz com que toda a inclinação também mude, não só pessoas, mas TUDO que estiver solto dentro do barco vai trocar de lado. As vezes jogado para o outro lado.

Passamos a noite ali. Assistindo uma fogueira gigantesca que não tínhamos como identificar. Pela manhã vimos que estávamos a beira da praia, com Moais gigantescos a nossa frente. Chegamos a ilha de páscoa. Após o café movemos o Dawnbreaker para outra praia, próximo do porto e do ancoradouro dos botes de mergulho.

Colocar o barco no porto é simplesmente fora de questão, as ondas quebravam na entrada do porto. Seria suicídio. A ilha toda é de formação vulcânica, as pedras avançam para dentro do mar e transformam todos os acessos em possíveis perigos.

Arquivo pessoal — Ilha de Páscoa

A marinha enviou um bote com 4 marujos para que pudessem verificar se existia lixo a bordo(a prova que não jogamos nada no mar), verificar nossos passaportes e principalmente ver um barcão da porra de perto.

A Ilha de Páscoa

Centenas de anos atrás chegaram até a ilha os membros de uma tribo da Polinésia que fugiam de alguma guerra. Foram escravizados e chamados de orelhas cumpridas pelo povo de Rapa Nui(Ilha de Páscoa) e eram o único grupo que sabia dos segredos de esculpir e mover os moais. Apesar de existir descendentes até hoje, o segredo se perdeu para sempre.

Os moais são estátuas, assim como possuímos estátuas de líderes, eles também gostaram da ideia e toda a ilha é cercada de moais, todos eles estão de costas para o mar e guardam o centro da ilha. Dizem que os conflitos internos fizeram com que os rivais começassem a derrubar os moais um dos outros, aumentando a produção e demanda. O transporte deles também era muito custoso e isso seguiu até a completa extinção das árvores da ilha.
Sem lenha, sem material para novos barcos, sem pesca e sem caça, a ilha foi descoberta pelo mundo ocidental em um cenário desesperador de canibalismo. Após a construção de um aeroporto e séries de tv que mostravam a ilha, ela teve uma boa recuperação. Mas muito dos mantimentos ainda chegam de barco. Essa foi a história oral que ouvi sob a sombra dessas pedras aqui:

Arquivo pessoal

Sempre achei curioso as pessoas falarem: Olha, escavaram e os moais não são só cabeças, elas tem corpo.
Sim, elas tem corpo: Alguns deles tem 9 metros de altura.
Alguns não tem cabeça, devido a ação dos terremotos.

Curioso é que os moais só saíram de uma única cratera. Que é a única cratera onde um certo pássaro faz ninho. Tudo muito curioso:

Arquivo pessoal

Magnetismo ou bruxaria?

Dizem que há muito tempo um meteoro caiu em Rapa Nui. O material que o compõe enlouquece bússolas e passei por um daqueles momentos inexplicáveis: Estávamos todos como sardinha em um táxi. Ele para o carro em uma subida. Desliga o carro. Baixa o freio de mão. E o carro ANDA SUBIDA A CIMA. Todos culpam o tal do meteoro. Saímos de lá e fomos andar a cavalo.

O Homem Pássaro

Perto de outro vulcão, sob as ruínas de uma vila Rapa Nui, é possível observar uma ilha que mais se assemelha com uma torre. Os homens disputavam a liderança política e sexual com uma corrida do ovo onde tinham que nadar em mar aberto, saltando de pedras, escalar uma ilha inóspita, pegar um ovo que um pássaro só deixava lá uma vez ao ano, trazer o ovo inteiro.
Quem fizesse isso também recebia como prêmio as mulheres que estavam presas numa caverna sem luz ou comida, esperando o dono do ovo chegar. Além da chefia, é claro.

Arquivo pessoal

Rapa Nui é um lugar lindo, curioso e de histórias fantásticas e curiosas. A jornada para chegar até lá foi inesquecível e até hoje converso com o capitão Lars, que inclusive já me levou para visitar o clube náutico de Gotemburgo, onde ele aprendeu a velejar. Se um dia você quiser qualquer dica de como construir um plano para realizar uma viagem como essa, só me avisar.

Arquivo

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Felipe B Cabral

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Operador na Operação Serenata de Amor

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