A ilusão de se ter boas [ou más] ideias

Como lidar com vieses cognitivos

Todos temos ideias.

Vez ou outra toda pessoa possui sua própria opinião sobre o que seria uma boa solução para determinado problema, um bom comentário para certo momento e por aí vai. Nós agimos e reagimos ao mundo o tempo todo. É nossa criatividade e capacidade de resolver problemas trabalhando.

Mas sabe como é, nós também cometemos erros. Aqui ou ali, encaramos os efeitos negativos e inesperados de nossas ações. Estou certo de que eventualmente você olha para trás, vê algo que não atingiu o resultado desejado, pensa “talvez teria sido melhor se eu tivesse agido de outra forma” e se esforça para fazer melhor no futuro.

E como distinguir as boas e más ideias? Certamente não há fórmulas mágicas.

Nós interpretamos, tomamos decisões e geramos ideias com o que temos à mão — valores, experiências passadas, conhecimento adquirido, acesso a informação e mais.

Todos somos comandados por uma bela maldição: ninguém pode saber tudo. Embora seja óbvio, vale lembrar que as experiências de uma pessoa são limitadas apenas àquelas que essa pessoa pôde viver. Além disso, como disse Marcelo Gleiser [físico e astrônomo], “o ‘conhecimento’ é uma ilha cercada pelo ‘desconhecido’”. À medida que expandimos nosso conhecimento a ilha cresce juntamente com suas fronteiras com a ignorância.

Não podemos saber tudo mas viveremos nossas vidas mesmo assim e nossas mentes navegarão pelas complexidades da realidade.

Visando melhores resultados por meio de melhores ideias, comecemos a tomar consciência dos vieses cognitivos.

Nas palavras de M. G. Haselton, D. Nettle e D. Murray, “viés cognitivo é um padrão de desvio de julgamento, pelo qual inferências sobre outras pessoas e situações podem ser construídas de maneira ilógica.”

Isso significa que eventualmente sua capacidade de interpretar o mundo ao redor está comprometida.

Infelizmente, como mencionado por D. Kahneman, D. Lovallo e O. Sibony, “uma característica traiçoeira de erros cognitivos é que não temos maneiras de saber que eles estão acontecendo: Nós quase nunca nos pegamos cometendo erros intuitivos. Experiência não nos ajuda a reconhecê-los.”

Há muitos tipos de vieses cognitivos e aqui destacarei alguns que tenho notado ao trabalhar com empresas e instituições que buscam ser inovadoras ou que tem encarado desafios complexos.

Hipótese prévia e viés de confirmação: quando alguém já possui uma ideia/solução em mente e rejeita argumentos e evidências que a contradigam.

Ilusão de capacidade de gerenciamento: quando alguém superestima o grau em que um resultado está sob seu controle ou que um determinado efeito indesejado [de suas ações] pode ser reduzido com esforços extras.

Efeito de foco: quando alguém foca demasiadamente um aspecto de uma ideia e carece de uma perspectiva mais ampla ou integradora.

Você pode checar outros aqui.

Ler esse post não lhe tornará à prova de vieses cognitivos. Na verdade, nem deveria. Ser capaz de interpretar e “distorcer” a realidade de maneira particular é uma fonte valiosa de inventividade.

Entretanto, podemos desenvolver algumas estratégias para mitigar os efeitos negativos dessas falhas intuitivas.

Primeiro, para tomadas decisão em grupo, procure apoiar seus parceiros a detectar possíveis erros cognitivos. Para isso, falar sobre teorias da psicologia e do “malvado viés cognitivo” não irá ajudar em nada. Apenas tente fazer com que reflitam sobre uma ideia ou ponto de vista diferente.

Segundo, ao lidar com suas próprias ideias, considere questionar seu objetivo [qual o verdadeiro objetivo daquela ideia?] e seja proativo para explorar ideias, insights e conhecimentos diversos [ainda que estes possam inicialmente parecer inadequados para atingir o objetivo em questão].

Acima de qualquer outra coisa, não caia na armadilha de estar consciente sobre vieses cognitivos. No futuro, você pode se sentir tentado durante uma discussão desconfortável a procurar nas outras pessoas seus vieses e assim subjugar suas opiniões. Por acreditar que enxerga com mais clareza que todos, você pode ter desenvolvido o mais perigoso de todos os vieses.

Somente um valor pessoal pode te manter livre: saber que todos somos iguais — cada um de nós fazendo o melhor a partir de quem somos. E antes de mudar outras pessoas, busque evoluir sua própria sabedoria e conhecimento. Nós podemos ser melhores [sim, esse é um dos meus vieses].


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Originalmente publicado no LinkedIn em 6 de julho de 2015.