Meu conto

Antes de falar do meu processo depressivo, eu preciso escrever sobre um ponto que pra mim sempre foi bem delicado e problemático. Os cortes.

Os cortes nos meus pulsos começaram quando eu tinha 15 anos e pararam aos 16, não é muito tempo se você for ver que existem meninas que fazem isso por muito mais tempo,mas pra mim até hoje esse ainda é um assunto pouco expressado. Após anos de terapia, eu sei porque comecei, a vergonha de não ser como as meninas da minha idade, não ser magra, não me achar bonita e não me sentir tão feliz quanto elas aparentavam ser fez com que eu quisesse me punir, além é claro de eu nunca estar confortável com qualquer tipo de toque que envolvesse carinho, por não me sentir merecedora. Então os cortes surgiram e aí veio o prazer e a satisfação que eu sentia por fazê-lo.

Sim, eu sentia prazer e alívio, como se a troca da dor emocional pela física fosse uma forma de me manter estável, aquele era o meu momento, o momento em que eu encostava no meu corpo sem sentir repulsa, que visão distorcida. Começou com uma vez por semana, até a hora que eu vi que estava fazendo mais de uma vez por dia e percebi que não tinha mais estabilidade e eu estava perdendo o meu tão amado controle. Eu contei, e entendi que não machucava só a mim cada corte que fazia no meu corpo.

A culpa por sentir esse prazer me acompanha, qualquer machucado maior, retirada de sangue, ou dor e BANG lá está aquela satisfação. Não é fácil, como qualquer outra compulsão, é preciso estar sempre alerta, então me dói quando eu escuto as pessoas brincarem sobre, ou menosprezarem uma coisa que pode ser muito séria.

Do meu jeito eu aprendi a lidar e a controlar, não é simples, mas a tendência é diminuir a vontade, você aprende a entender o que acontece pra esse comportamento despertar. Cinco anos depois, esse ainda é o meu maior fantasma, é pra onde eu adoraria voltar a cada momento de dificuldade e sei que se o fizer não estarei só machucando a mim, e esse é o maior dos incentivos para que continuar bem firme.

Se você está começando ou já desenvolveu alguma compulsão, saiba que com ajuda e entendimento ela se tornará mais amena. Não posso te dizer que aquele rastro de vergonha e culpa vão passar, pois ainda não passaram pra mim, mas vai ficar tudo bem e em algum momento e você vai conseguir se sentir menos ligada e aprisionada a esta condição.

Já você que ainda não começou, mas tá a beira de começar por qualquer que seja o motivo tenho certeza que esse não é o melhor caminho, no início parece fácil e sem mal nenhum, é imediatista e rasa, você não merece isso, fale com alguém e tente encontrar outra solução.

Agora se você conhece alguém que está desenvolvendo ou já desenvolveu alguma compulsão, não se desespere, esteja presente e tente ajudar. Cada caso é um caso, mas é sempre bom nos sentirmos amados e apoiados.


Meus cortes florescem

Meu conto

Te conto o meu conto

Meu conto que não é leve,bonito ou linear

Meu conto que combina com o meu jeito de amar

Te doí, me doí

Ele não para, é frenético, intenso

Me dá alivio, prazer, satisfação

A navalha escondida

É parte do conto

Te conto que o conto têm:

Sangue que escorre

Corte que abre

Dor que liberta

Lágrimas

Meu conto já foi esse

Continua presente

Só que hoje o conto

Já tem outros pontos

Não sou só o corte e a dor

Não sou só as lágrimas

Não sou só essa parte do conto

Tem mais, muito mais

Te conto meu conto

Sem medo, sem vergonha, sem pesar

Meu conto que tem tanto a ver

Com meu jeito de amar

Like what you read? Give Guta Dagnino a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.