Espere até quando não aguentar mais.


Estava ela sentada em um pequeno acento, no canto esquerdo do fundo daquela enorme sala de recepção.

Possuía uma expressão carregada de dor, mas não gemia ou emitia qualquer barulho. Seu corpo era mirrado e levemente curvado para frente, devido à idade. Ela estava ali; quieta e imóvel. Esperava sozinha, enquanto desejava ardentemente ser chamada.

O barulho ao seu redor era infernal e alimentava-se de conversas, de gemidos de dor, de desabafos e indignações. Mais pessoas chegavam do que saiam daquele lugar e o caos era cada vez maior.

De vez em quando um nome era anunciado pelo auto-falante, mas não era o nome dela. Já não lembrava por quanto tempo aguardava. Parecia uma eternidade. E, na prática, era mesmo, porque cada minuto sentindo dor era como se o tempo não passasse.

O painel afixado na parede detrás do balcão da recepção explicava o nível de necessidade dos atendimentos por meio de cores, indo do azul, situações menos grave, até o preto, que significava atendimento de urgência. Ela, no entanto, sustentava no pulso direito uma pulseira de cor vermelha, que significava cuidado emergencial. Porém, não havia emergência nenhuma naquele lugar.

O tempo foi passando e a dor se intensificando, mas ela continuava ali, quieta e esperando. Ela já não escutava mais o barulho a sua volta. Ouvia somente o pulsar da dor que ela sentia.

Mais um ou dois outros nomes foram anunciados. Ainda não era a vez dela.

Do outro lado da cidade, um hospital de renome do país se preparava para receber um homem que havia sentido um mal-estar: consumira em excesso bebida alcoólica e carne em um churrasco.

O automóvel que trazia o homem mal apontou na entrada da emergência do hospital e os enfermeiros e médicos já estavam de prontidão para atendê-lo. Ele gritava e urrava de dor e pedia urgência em seu tratamento. Não demorou quase nada e ele já estava sendo medicado e tratado.

Não houve fila de espera. Na verdade, nunca haveria uma fila de espera para um homem que assumisse um cargo político como o dele.

De volta ao outro lado da cidade, um nome foi anunciado pelo auto-falante. Dessa vez era o nome dela, porém, ela permaneceu sentada, com o corpo mais curvado do que de costume. Novamente o auto-falante anunciou seu nome, mas ela continuou sentada.

A dor dela havia desaparecido. Aquele barulho infernal não existia mais em seus ouvidos e ela não estava mais esperando o anúncio de seu nome. Naquele lugar, no qual mais gente entrava do que saia e não eram prontamente atendidos, ela descansou a sua alma na fila de espera.


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