Aprendi facilitação visual em 4 meses e isso mudou tudo o que eu faço

Mário Melo
facta.works
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7 min readFeb 4, 2022

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NOTA: Aprender é um ato contínuo, e este texto conta somente o trecho inicial da jornada. O artigo foi originalmente escrito em inglês, e pode ser encontrado aqui: ENGLISH VERSION.

Eu sou um desenvolvedor de software que me tornei um trainer de Scrum. Até meados de junho de 2018 eu nunca tinha desenhado absolutamente nada que me desse orgulho. Nada. Mas isso mudou de uma forma incrivelmente rápida.

Como as coisas funcionavam

Desde 2014 eu tenho ministrado turmas da certificação CSD (Certified Scrum Developer), e a minha primeira versão do treinamento era composta por incríveis 271 slides. Pode parecer um exagero, mas o curso tinha 40 horas de duração divididas em 5 dias. Isso dá aproximadamente um slide para cada 10 minutos de curso.

Na Facta temos vários quadros brancos à disposição no escritório, mas a coisa mais complexa que eu chegava a rabiscar eram fluxogramas com 7 ou 8 etapas.

O incômodo com as apresentações

Eu já não estava feliz com o Powerpoint e vivia buscando novas formas de organizar e apresentar o conteúdo dos meus cursos e palestras.

Tentei utilizar o Prezi e fiquei muito impressionado com os resultados, até me dar conta do tempo que gastava cada vez que precisava criar ou editar uma apresentação.

Aí descobri o HaikuDeck e me apaixonei pela abordagem simples, mas acabei largando ele de lado por causa dos tempos de loading e por conta do visual dos arquivos PDF que ele exportava.

Então tentei utilizar o reveal.js e achei incrível a idéia de montar minhas apresentações escrevendo arquivos Markdown que eu poderia armazenar em repositórios git (se você não entendeu nada desta última frase, não se preocupe), mas percebi também o quão difícil era rodar a apresentação em outros computadores ou ensinar outras pessoas a editar aqueles arquivos.

Bom, aí eu desisti.

Quando tive o “estalo”

Em junho de 2018 eu estava explicando um conceito para os alunos de uma turma de CSD em Lisboa e acabei desenhando algo no flipchart. Quando me preparava para virar a página, um dos alunos me pediu para esperar enquanto ele tirava uma foto do desenho que eu havia feito. Obviamente eu deixei que ele tirasse a foto antes de virar a página, mas a vergonha veio assim que percebi qual lembrança ele levaria do meu treinamento:

Acredite ou não, o desenho mostra uma estátua iluminada por dois postes de luz

Neste momento decidi que eu precisava desenhar um pouco melhor. Pode parecer um tanto quanto óbvio (porque é), mas foi aí que percebi que desenhos poderiam ser uma ótima forma de comunicar idéias e transferir conhecimento para os alunos.

O único problema é que eu não sabia desenhar. Ou pelo menos eu acreditava nisso.

Como comecei a aprender?

Tudo bem, eu comprei muitas coisas e algumas delas não são exatamente baratas. Mas elas serviram para acelerar meu processo de aprendizado, e depois de um mês tempo eu já era capaz de fazer algo assim:

Sim, o reflexo no espelho está errado, eu sei :)

Eu estava quase confortável o suficiente para testar meus desenhos na sala de aula, e havia decidido que eu faria um experimento na minha próxima turma: não usaria nenhum slide. Aliás, eu nem levaria o computador para o treinamento.

Mas antes disso eu testei minha nova habilidade em um Factalk, uma apresentação de 30 minutos que fazemos na Facta às sexta-feiras. Afinal, eu definitivamente não encontraria um ambiente mais seguro que esse para fazer este experimento.

Quantos “slides” você consegue ver de uma só vez?

E no segundo mês de aprendizado eu adicionei pincel preto, papel, giz de cera e fita adesiva ao meu arsenal.

No final da sessão, 19 “slides” ficaram visíveis ao mesmo tempo na parede ao lado do fliperama, e a interação entre os participantes foi muito mais natural. Se a apresentação fosse em formato digital apenas 1 slide estaria visível por vez, ou seja, aproximadamente 5% do conteúdo. Ou no caso do meu CSD com 217 slides, menos de 0,5%.

O feedback que tive depois desta apresentação me deu a confiança que faltava para testar esta abordagem na minha próxima turma.

A primeira turma sem slides

O notebook saiu da mochila e deu espaço às canetas e conjuntos de giz de cera, e depois de 10 horas de vôo eu estava confiante para testar minhas habilidades pela primeira vez. Bem… mais nervoso do que confiante, mas pronto.

Logo no começo da minha primeira turma sem slides reparei um grande benefício sobre as aulas sem slides: várias dependências foram removidas quando deixei o computador em casa.

  • Preciso levar um adaptador HDMI-VGA?
  • O projetor usa formato 4:3 ou 16:9?
  • Que tipo de tomada eles usam neste país? Será que o WiFi lá funciona bem e sem restrições de acesso?

Não era incomum precisar pedir socorro durante os treinamentos em função destes detalhes. Certa vez em 2014 um projetor parou de funcionar e acabou atrasando e desmotivando consideravelmente uma turma minha.

Mas com papel, canetas e giz de cera eu tinha uma preocupação a menos. E com eles, eu podia criar meus slides sob demanda.

Comecei a usar margens e conectar elementos, mas as cores…

Eu mantive o time que estava ganhando e não usei nada além de caneta preta e giz de cera, mas comecei a arriscar novos formatos e a juntar formas (como o boneco carregando a caixa 21).

Criar slides sob demanda foi um novo benefício que percebi neste tipo de apresentação. Às vezes os alunos perguntam algo que está respondido em um determinado slide da apresentação, e ao invés de navegar pela apresentação para descobrir se o slide em questão é o 37 ou 129 eu podia apenas caminhar pela sala e apontar para uma folha colada na parede para recapitular os conceitos do mesmo. Ou desenhar uma nova folha caso fosse necessário.

Outras duas situações me chamaram a atenção durante esta turma:

  • Um aluno precisou voltar mais tarde do almoço, e quando voltou notou que havia uma folha nova colada na parede. Ele imediatamente me perguntou se eu podia resumir o que havia sido explicado ali.
  • Como o treinamento em questão tinha 2 dias de duração, os alunos utilizavam os primeiros 5 minutos da segunda manhã caminhando pela sala e relembrando os conceitos resumidos em cada flipchart colado nas paredes.

Os desenhos não eram obras de arte, eles apenas comunicavam idéias de uma maneira agradável e eficaz.

Eu fiquei impressionado com o feedback que recebi desta turma. Apesar dos desenhos serem extremamente rudimentares, todos os estudantes citaram o formato do treinamento em um tom muito positivo. Isso me motivou a tentar levar essa nova habilidade para um próximo nível.

O próximo passo

No quarto mês eu já tinha adquirido algum vocabulário visual, mas me faltava tratar melhor as cores e a organização de idéias no flipchart. Foi então que ganhei da minha namorada um livro chamado UZMO, do Martin Haussmann. Comprei também um conjunto de canetas da Neuland e comecei a estudar a técnica Bikablo.

Além de aprender mais sobre cores e organização de idéias, descobri que o cinza é a cor mais importante para se ter na caixa de ferramentas. Ele me ajudou a compor e sobrepor novos símbolos, e transformou cada flipchart meu em uma espécie de infográfico capaz de resumir os conceitos que eu transmitia de uma forma nova e extremamente agradável.

Menos cores, mais informações e muita composição

Em 4 meses eu deixei de ter vergonha dos meus desenhos e passei a ver pessoas guardando os flipcharts ao final das turmas para decorar o escritório onde trabalham.

Levou algum tempo e esforço, mas foi muito mais rápido do que eu imaginava. Na verdade, eu nem imaginava que isto seria possível.

Atualmente eu desenho para tomar notas durante reuniões, durante meus treinamentos, ilustro minhas próprias apostilas e até crio apresentações desta maneira.

Eu precisei de 4 meses para sair da primeira foto deste post e chegar até a última. Eu sei que ainda há muito a ser aprimorado, mas tenho certeza de que compartilhar este progresso pode motivar várias pessoas que acreditam cegamente que “não sabem desenhar”.

Se você é uma dessas pessoas, eu lhe desafio a fazer um teste.

E espero ver um de seus desenhos daqui há 4 meses!

RESUMINDO

1- Você consegue desenhar, só precisa de prática.

2- Assista aos vídeos do Graham Shaw no YouTube

3- Construa seu Vocabulário Visual (talvez com este curso)

4- Pesquise sobre a técnica Bikablo na internet

5- Seu objetivo é comunicar idéias de maneira rápida e eficaz, não fazer arte. Não tente ser melhor que o Leonardo da Vinci.

6- Pesquise e siga Graham Shaw, Alex Glod and Martin Haussmann.

7- Compre um pincel preto, um caderno sem pautas, um conjunto de giz de cera e pratique cerca de 30 minutos por dia.

PS: Quase um ano se passou desde que escrevi o post original em inglês. De lá pra cá, eu criei e ilustrei um jogo de cartas para ensinar Scrum e gravei cursos ilustrados sobre agilidade em parceria Emergee e Alura que hoje contam com mais de 70 mil alunos inscritos!

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Mário Melo
facta.works

An agilist addicted to new technologies that sometimes needs to take a break and beat some goombas