Arte e Tecnologia cabem em qual palco?

Quando eu tinha uns 15 anos, ouvi esse disco pela primeira vez:

Ele começa com a faixa título (POP, 1978), alguns aplausos que indicam que é uma gravação ao vivo (não dá para não pensar no paralelo cinematográfico da plaqueta de “baseado em fatos reais…”) seguido de um grito que vem das vísceras de Iggy Pop, chamando um riff de blues na guitarra, repetido como um bate-estaca, seguido na seqüência pelo baixo e bateria.

Mesmo sem nenhuma imagem, essa virou a referência até hoje para mim do que é uma performance de palco

Esse ano, em meio a um monte de leituras, encontrei a base teórica que me explicava o efeito que essa faixa produzia em mim. A referência estava aqui:

Publicado aproximadamente 100 anos antes: “A arte Dionisíaca repousa com a embriaguez, com o arrebatamento (…) as festas de dionísio não firmam apenas a ligação entre os homens, elas também reconciliam o homem e a natureza (…) as bestas mais selvagens aproximam-se pacificamente: coroado de flores, o carro de Dionísio é puxado por panteras e tigres. Todas as separações de casta (…) desaparecem: o escravo é homem livre, o nobre e o de baixa extração unem-se no mesmo coro báquico (…) o criar do artista dionisíaco é o jogo da embriaguez.” (NIETZSCHE, 2010, p 8)

Para Nietzsche por meio de Dionísio, irrompe uma festa, um culto à natureza, de libertação do mundo, um dia de apoteose. (NIETZSCHE, 2010, p 10)

O ponto importante aqui é notar a relação entre dois Deuses: Apolo, que representa o Deus Helênico da Arte, que por sua vez dá espaço para Dionísio, no seu próprio templo, em Delfos, durante o período do inverno, quando tradicionalmente se sabe que ele se retirava para o reino dos Hiperbóreos.

É nesse momento que “O arrebatamento do estado dionisíaco, com a sua aniquilação das barreiras e limites habituais da existência, contém, enquanto dura, um elemento letárgico no qual mergulha tudo vivenciado no passado. Assim se separam, através deste abismo do esquecimento, o mundo da realidade cotidiana e o mundo da realidade dionisíaca.” (NIETZSCHE, 2010, p 24)

Vilém Flusser (1972) também ecoa o estado dionisíaco em um contexto que nos é muito familiar: “Por um período de poucos dias o curso do ano é interrompido para parcela apreciável da população brasileira. A correnteza histórica dos dias e das semanas passa a formar represa, chamada “Carnaval” e passa o tempo histórico para o tempo da eterna repetição do refrão sincopado. As máscaras, impostas pela história sobre a gente humilde, caem, e revelam a sua verdadeira face. O aparente ascensorista é revelado acrobata, a aparente vendedora de loja é revelada princesa. Rasgado o véu da história, aparece a verdade.”

Dentro do entendimento Nietzscheano, esses dois mundos são complementares. O conceito Dionisíaco é o princípio que representa a embriaguez, o caos, a falta de medida, a paixão, enquanto o Apolíneo a razão (beleza, harmonia, organização)

A arte que tem o papel transformador da sociedade é em grande medida Dionisíaca? Para Iggy Pop, provavelmente sim.

Para nossa discussão no ESTESIA, somos convidados a considerar a relação da arte e da ciência. Essa, principalmente após o advento do ser humano moderno, é Apolínea, e desde Sócrates e Eurípedes, o Ocidente estruturou-se nesses princípios: racionais e científicos.

E considerando que a modernidade é um projeto falido, ou nunca atingido (o aquecimento global é a representação mais explícita disso, mas podemos contar inúmeras outras: dos horrores da segunda guerra até o sofrimento dos excluídos) o caminho seria abraçar de vez Dionísio?

A resposta para o filósofo está em outra obra: O Nascimento da Tragédia. O caminho seria buscar esses dois impulsos opostos, contraditórios, complementares na criação estética. O dionisíaco deve poder manifestar-se por meio de Apolo.

Será que existe espaço para a combinar (como acontece aqui nesse bairro, de parque tecnológico e de carnaval) o uso das novas tecnologias que tem suas harmonias e ordens necessárias, com uma direção dionisíaca, viceral como o punk rock e a tragédia grega? Essa é uma questão para tratar essa noite.

FLUSSER, V. Série carnavalesca, Folha de São Paulo, 16 fev. 1972.

NIETZSCHE, F. W. A Visão Dionisíaca do Mundo. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

POP, Iggy. T.V. Eye. In: POP, Iggy. TV Eye Live 1977 [Vinil]. EUA: RCA, 1978.

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