

Interfaces sem interfaces: é possível?
Sim, é possível.
Inclusive já existem algumas interfaces disponíveis (para nós meros humanos) e algumas outras que ainda estão sendo desenvolvidas, e outras que ainda vão ser descobertas.
Hoje vamos conversar um pouco sobre a experiência (UX) dessas interfaces, quer dizer interfaces less, mais precisamente um assunto que realmente vem ganhando atenção com as melhorias na AI (inteligência artificial): os bots.
Se você não sabe ou nunca ouviu falar, há mais ou menos um ano e meio atrás (hoje é mar/2016) foi lançada uma plataforma para bots pela Kik, uma empresa especializada na criação de bots. De lá para cá, milhares de pessoas vêem utilizando a plataforma para conversar com os bots da empresa todos os dias. Inclusive, outras empresas também estão desenvolvendo seus próprios bots, como é o caso do Telegram e Slack — além destes, aparentemente o Facebook também está produzindo o seu próprio bot para facilitar a vida das pessoas, mas só vamos ficar sabendo mais na próxima edição do F8 em 12 de Abril/2016.
Também há casos onde os testes deram errado, como o recente caso da Microsoft que criou uma bot adolescente para interagir com qualquer pessoa via twitter. Considerando que a bot aprende conforme ele conversa/interage mais, a bot da Microsoft se tornou algo inesperado.
Muitas pessoas pensam que os bots vão iniciar uma era de inteligência artificial semelhante aos assistentes pessoais, onde eles sempre estão dispostos e capazes de realizar qualquer tarefa que a gente solicitar/ordenar (“Me acorde as 7am” | “Me lembre de ligar para Julia no final do dia”). Exemplos sobre assistentes pessoais são o M do Facebook, Siri da Apple, Cortana do WindowsPhone , etc., todos eles oferecem a ideia de “ter coisas feitas”. Ordene algo e considere feito (ou ao menos que ele vai ser feito).

Simplesmente uma combinação de AI com agentes humanos — onde pessoas e software interagem para ter algo feito. Isso até parece ser bem interessante como uma forma de interagir com serviços, mas não sei se esse é realmente o caminho certo (“ordenando as coisas”) e eu prefiro pensar em algo mais voltado para conversas, interações e experiências que valem a pena.
Conversas são as melhoras coisas que podemos pensar como designer. Nosso produto/serviço deve ser capaz de manter ou criar um diálogo com as pessoas que vão usar. Só assim podemos criar uma experiência.
Se você parar para pesquisar e olhar plataformas passadas que tiveram algum tipo de bot, onde eles ajudavam você a realizar suas tarefas (lembra do Clipper do Word?), você vai perceber que sempre a interação era imediata e apenas objetiva — direto ao ponto para se ter coisas concluídas (formatar um texto, exportar, correção de gramática) e não na experiência de ter elas concluídas. Esses bots não mantinham uma conversa e não nos davam uma boa experiência sobre como tirar melhor aproveitamento das nossas intenções.
Mas o que os bots vão fazer para te ajudar?
Bots não vão ser assistentes pessoas, como os PCs, sites e apps. Comumente, esses meios apresentam suas formas de interação para se conseguir coisas feitas, entregues e resolvidas. Bots vão estar mais presente no processo, atuando como alguém que está te ajudando e melhorando a sua experiência — não apenas fazendo algo para você e ponto final.
Se não asistentes pessoais, então o que vai eles vão ser?
Pela primeira vez, os bots vão se tornar mais onipresentes em nossas vidas. Eles vão entender nossos hábitos e nos ajudar com as nossas coisas do dia a dia — sim, eu acredito que ai ser algo do tipo Her mesmo.
Deixa eu ilustrar uma situação real onde os bots podem estar presentes (e que a experiência com eles podem ser muito além do que a gente tem hoje):


No Brasil, geralmente domingo é um dia de futebol. Onde as pessoas costumam se encontrar em casa para fazer um churrasco e tomar uma cerveja, ou é o caso das pessoas que vão ao estádio assistir o jogo in loco — vamos focar nesse caso aqui. Gustavo tem 22 anos, estudante de publicidade, grande torcedor do Náutico. Sempre que tem jogo ele pega a sua carteirinha do assinante e junto com mais três (as vezes quatro) amigos eles vão ao estágio assistir o jogo.
Um dia Gustavo chegou atrasado e precisou ir direto encontrar os seus amigos na arquibancada. Todo mundo estava com uma cerveja na mão menos ele. Então para não ficar sem cerveja ele precisou sair e ir comprar uma cerveja para ele. Aguardou uns 15 minutos na fila e finalmente voltou para o seu grupo. Nesse meio tempo o Sport marcou 1 gol e teve um cartão amarelo, além de ter tido uma breve confusão.
Em um futuro (próximo) isso pode não mais acontecer. O ginásio do sport está desenvolvendo um app que vai ajudar as pessoas a pedir cervejas/comidinhas/etc de suas cadeiras. Assim, Gustavo não vai perder nenhum outro grande momento do jogo — ele precisa apenas usar o aplicativo. Isso é incrível, não é? Ou será que vai ser incrível?
Imagine que ao sentar em sua cadeira e olhar para o assento da frente e ver o anúncio “Quer uma gelada? Baixe o nosso aplicativo e peça uma! 😃”. Com isso, Gustavo iria ter que pegar o seu celular, procurar e baixar o aplicativo, criar uma conta, cadastrar o seu cartão de crédito, aprender como usa o app e solicitar um. Depois de uns 10 minutos ele consegue pedir a cerveja e ainda espera mais uns 5 para receber — vê que experiência massa!
Seria melhor Gustavo ter ido comprar pessoalmente mesmo, não consumiria sua banda 3G e bateria.
Além disso existem tanto tipos desses apps: app para comprar passagens; apps para comprar comida de restaurantes; apps para comprar tickets para o cinema. Hoje em dia todo mundo tem um app. Mesmo assim, muitas empresas investem muita grana e tempo desenvolvendo esses produtos, mas pense : quantas pessoas utilizam eles o tempo todo?
Voltando ao início da situação de Gustavo sem a sua cerveja… Ao invés da diretoria do Sport gastar uma grana alta para desenvolver esse app, ela preferiu desenvolver um bot simples. Gustavo chegaria no estádio na hora do jogo, mas dessa vez o anúncio diz: “ Quer uma cerveja? Converse com a gente” e logo abaixo tinha um link. Gustavo acessa o link e recebe uma mensagem no seu Instagram/Telegram e em poucos segundos ele estaria conversando via texto com o bot do Sport. O bot pergunta quantas cervejas Gustavo quer (“1, 2, 3 ou 4”) e qual o tipo de cerveja ele quer (“Skol, Antártica, Devassa,etc..”). E finalmente, o bot apenas confirmar o pagamento e pronto.
Uma conversa de texto instantânea e Gustavo pediu sua cerveja em 2 min.
Uma interação simples, rápida e fácil. Esse é o tipo de interação que é possível se fazer com os bots. Não existe a necessidade ou dependência de se desenvolver apps específicos, não precisa criar uma conta, e talvez o mais importante, não precisa que Gustavo aprenda a usar (porque ele já sabe como funciona o WhatsApp/Telegram). Só precisa iniciar o chat.
Isso tudo parece ser muito simples, mas realmente essa é a praticidade e melhora na experiência que os bots podem trazer. Eles vão estar onipresentes e não vão estar associados a uma aplicação específica. Eles simplesmente vão estar ali, 24/7, disponíveis para iniciar um chat.
Chat apps vão se tornar algo parecido com o que os browsers foram no passado, facilitando a interação e melhorando a experiência das pessoas a usarem a internet; os bots serão como os novos websites; e assim se inicia uma nova era da internet.
Bots são umas das coisas que eu mais acho divertida de pensar e projetar. Ainda mais com o cenário do Brasil em que milhares de pessoas usam WhatsApp/Telegram. Devo escrever uma série de casos de usos em situações reais onde os bots poderiam melhorar nossas experiências com as coisas do dia-a-dia.


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