Como o Exu do Blues abre caminho

Não foi pedindo licença que chegou até aqui

Jesus, eu espanquei Jesus
Quando vi ele chorando, gritando, falando
Que queria ser branco, alisar o cabelo
E botar uma lente pra ficar igual
A imagem que vocês criaram

O primeiro movimento literário e poético da língua portuguesa é chamado de Trovadorismo. Em sua classificação, o movimento é dividido em estilos de cantigas, poesias cantadas e acompanhadas de melodias.

A Cantiga de Escárnio e Maldizer é um dos três gêneros que dividem o trovadorismo, englobando obras que não se encaixariam em Cantigas de Amor ou Cantigas de Amigo.

É assim que Diogo Alvaro Ferreira Moncorvo, Baco Exu do Blues descreve a técnica que usa para desenvolver suas rimas.

"É aquela poesia da gozação, da brincadeira. As vezes chega até ser ofensivo para o ouvinte, mas é tão absurdo que você não consegue levar no literal[…]Esse é o recurso da minha escrita"

Baco é consciente ao dizer que o objetivo dos seus versos é gerar espanto. O músico conduz uma narrativa tão impactante, que o ouvinte é compelido a voltar sua atenção o que está sendo dito. Através do absurdo Baco captura a atenção, em seguida, a mensagem que antes parecia secundária ganha evidência.

O rap produzido no Brasil já possui a característica de causar espanto — para a população geral — quando apresenta a dura realidade dos mais pobres e o drama vivido por moradores de periferia. O que Exu do Blues faz em sua poesia de escárnio é uma construção que não apenas torna ainda mais impactante essa realidade, mas que explora cada elemento de forma crua e visceral.

Abre o caminho, deixa o Exu passar

É com toda essa agressividade que Exu do Blues rompeu barreiras e roubou os holofotes do rap nacional, trazendo para o Nordeste uma visibilidade antes viciada apenas nas produções do eixo Sul-Sudeste.

A faixa Sulicídio, de 2016, foi recebida com espanto pela cena do rap. Mesmo uma comunidade acostumada com um vocabulário agressivo e as ameaças típicas encontradas nas letras de rap, o tão explorado blefe, não soube lidar quando encontraram o escárnio do rapper soteropolitano e seu parceiro Chinaski.

Sem amor pelos rappers do Rio
Nem paixão por vocês de São Paulo
Vou matar todos a sangue frio
E eu tenho caixão pra caralho
Minha lírica, cítrica, implica e complica e aplica
Esses caras no funeral
Exceto o merda do Nocivo Shomon
O resto nem é nada pessoal

Mesmo com outras faixas publicadas, Baco Exu do Blues reconhece que precisava chocar o cenário nacional para conquistar seu espaço. Por mais que em outras épocas grandes nomes do rap nordestino fossem populares, a nova geração, mesmo com muito trabalho, não tinha a visibilidade merecida.

O rap produzido na parte de cima do Brasil não era levado a sério. Sempre foi claro que produzir música em São Paulo colocava qualquer rapper em posição de vantagem.

Por mais polêmicas que tenha levantado, Sulicídio expôs de forma contundente o preconceito contra o rap produzido em outras regiões do país, mostrando que não é apenas do pagode, axé e brega que respira música do Norte-Nordeste.

Todos estes são ritmos que Baco cita com muito respeito.

Eu sou do tempo onde poetas ainda faziam poesia

Com a abertura no do rap nacional gerada por Sulicídio, Exu do Blues conquista espaço para mostrar seu trabalho, com o desafio de trazer algo com impacto o suficiente para manter essa porta aberta.

Em 2017, um ano depois de chacoalhar o cenário, Baco Exu do Blues chegou com um álbum muito diferente do que era esperado.

Esú, primeiro álbum do rapper soteropolitano, apresentou uma produção conceitual, impressionando pelo nível de sofisticação. Os que esperavam uma continuidade dos conflitos internos do rap nacional levantados em Sulicídio estavam enganados.

O trabalho composto por 9 faixas, somando apenas 32 minutos combinou ao rap nordestino o forte peso das raízes culturais do povo negro. Mesmo com toda sofisticação, a escrita ofensiva das cantigas de escárnio ficaram ainda mais evidentes.

O objetivo de criar um choque inicial para depois entregar a mensagem verdadeira estava presente já na capa do álbum.

Na imagem, Esú destacado pelos cortes na palavra Jesus e o homem negro de braços abertos de frente para Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, nos choca pelo confronto ao principal ícone do cristianismo. Mas basta se recuperar da impressão inicial e a mensagem principal ganha evidência: deixar de lado o peso da influência branca e retomar as raízes negras.

Ao menos meu destino não está em um astro, casto
basta, basto
Astrólogos, diálogos diversos
Imerso no teor complexo
Que nos consome
A dor some ao ver que os deuses têm inveja dos
homens
O mundo é fruto da nossa imaginação
Será que somos deuses ou sua criação

Te amo, nosso ódio pelo mundo é parecido

Esú é uma obra completa, mas uma faixa específica consegue representar perfeitamente a forma como Baco usa o exagero para contar histórias de um jeito que não estamos habituados.

A faixa 8 do álbum, Te Amo Disgraça, apresenta uma história de amor bem brasileira, mas muito diferente de todas as canções românticas que conhecemos.

Ao longo dos quatro minutos e cinquenta segundos, Baco descreve a intensa paixão de dois personagens repletos de imperfeições vivendo o amor da forma mais realista possível.

Através do espanto levantado pela clareza da realidade descrita na música, podemos sentir a energia de uma paixão — quase que literalmente — incendiária. Uma mistura de amor imperfeito, realidade obsessiva e o tesão liquido da paixão.

Te amo
Nosso ódio pelo mundo é parecido
Você nua pela casa é tão lindo
Bastou a gente fuder, eu vi, tava fudido
Transo contra o tédio de domingo
Paredão batendo e ela dançando
Os cria passam droga, polícia passando
Não há briga entre nós, mas vivemos brigando
Vivemos brigando
Minha preta é rainha
Por isso eu não perco o trono
Minha preta é minha
E eu não perco o sono
Oral na minha mulher é minha oração
Oral na minha mulher é minha oração
Quebramos outro colchão
Foda-se, transa no chão
Até que a morte nos separe ou então a prisão

Te Amo Disgraça traz o que Baco sabe fazer de melhor, chama a atenção pelos versos absurdos e entrega com ainda mais clareza sua mensagem. A faixa foi escolhida como Melhor Rap Brasileiro de 2017 pelo Prêmio Genius Brasil de Música.

Eu sou o primeiro ritmo a tornar pretos ricos

Depois de um ano de Esú, Baco chegou com um novo trabalho.

A produção de alta qualidade e sofisticação musical que conhecemos em Esú volta com ainda mais destaque no álbum de 2018, mas outras características marcantes fazem do álbum um clássico instantâneo.

Bluesman é ainda mais conceitual em sua apresentação, a obra segue um consistente fio de ideias que são contextualizadas logo na faixa inicial que dá nome ao trabalho.

A mensagem do seu novo trabalho não poderia ser mais clara. Baco é firme ao expor seus objetivos. O rapper quer de volta toda cultura negra que foi marginalizada e tomada pelos brancos.

Eu sou o primeiro ritmo a formar pretos ricos
O primeiro ritmo que tornou pretos livres
Anel no dedo em cada um dos cinco
Vento na minha cara eu me sinto vivo
A partir de agora considero tudo blues
O samba é blues, o rock é blues, o jazz é blues
O funk é blues, o soul é blues
Eu sou Exu do Blues
Tudo que quando era preto era do demônio
E depois virou branco e foi aceito eu vou chamar de Blues
É isso, entenda
Jesus é blues

Em termos técnicos, o Exu do Blues de Bluesman está muito distante do que ouvimos em Esú, e ainda mais longe do grito por espaço que conhecemos em Sulicídio. A maturidade no trabalho e o maior controle na escrita são evoluções perceptíveis nas nove faixas de Bluesman.

Diferente de Esú, que carregava uma aura densa ao longo de todo o disco, Bluesman sabe alternar com uma precisão ímpar entre batidas leves, versos que soam alegres e a agressividade das denúncias.

Esse contraste entre os momentos é nítido e perceptível ao longo de todo o álbum. Os dois trechos a seguir, apresentados na faixa título, nos apresentam de forma muito eficiente a separação de humor que o músico quer evidenciar.

Eu amo o céu com a cor mais quente
Eu tenho a cor do meu povo, a cor da minha gente
Jovem Basquiat, meu mundo é diferente
Eu sou um dos poucos que não esconde o que sente
Choro sempre que eu lembro da gente
Lágrimas são só gotas, o corpo é enchente
Exagerado eu tenho pressa do urgente
Eu não aceito sua prisão, minha loucura me entende
Baby, nem todo poeta é sensível
Eu sou o maior inimigo do impossível
Minha paixão é cativeiro, eu me cativo
O mundo é lento ou eu que sou hiperativo?

O trecho tem uma levada cantada e uma batida quase dançante. A abordagem se apoia na beleza de uma construção poética para falar sobre sua identificação, seus semelhantes e a forma como enxerga o mundo.

Em seguida Baco ressurge com mais agressividade do que conhecemos em Sulicídio, mas o alvo agora não são outros Mcs. Sua denúncia é mais ampla e a missão mais difícil.

Eles querem um preto com arma pra cima
Num clipe na favela gritando cocaína
Querem que nossa pele seja a pele do crime
Que Pantera Negra só seja um filme
Eu sou a porra do Mississipi em chama
Eles têm medo pra caralho de um próximo Obama
Racista filha da puta, aqui ninguém te ama
Jerusalém que se foda eu tô a procura de Wakanda

Não foi pedindo licença que eu cheguei até aqui

O que acompanhamos ao longo de Bluesman é um Exu do Blues amadurecido, mas ainda extrapolando as linhas do absurdo e utilizando sua excepcional lírica para transmitir uma importante mensagem.

O escárnio da poesia não foi abandonado, mas assumiu uma objetividade planejada e aplicada em momentos muito precisos. Baco sabe exatamente como ser ouvido e domina a ferramenta para alcançar este objetivo.

Do ponto de vista conceitual, não é ousado dizer que Bluesman é Sulicídio em outra fase.

Mas agora, o grito é outro e a ambição é maior.

Sulicídio buscava o abrir espaço para o nordestino no rap nacional, Bluesman busca abrir espaço para o povo negro num país acostumado com imposição da cultura branca e a marginalização do que vem do povo preto.

Acompanhando a trajetória de Diogo Alvaro Ferreira Moncorvo até aqui, sabemos que ele não está brincando quando repete inúmeras vezes na faixa Kayne West da bahia:

Eu sou o preto mais odiado que você vai ver
Assista ao curta metragem Bluesman, de Baco Exu do Blues

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