Como elogiar as migas sem ser gordofóbica?

A gente já conversou que gorda não é xingamento e magra não é elogio. A gente já conversou que existem mais corpos além do gordo/magro. Mas como elogiar sem reforçar o discurso gordofóbico de sempre?

Fiz uns exemplinhos toscos, aceito dicas.

Bora?

“Minha amiga está fazendo dieta/ fez gastroplastia/ ta indo na academia/ sei lá eu oq rolou e perdeu bastante peso. Não é legal eu elogiar?”

Você quer parabenizar sua amiga por ter alcançado um objetivo? Simples: ao invés de ir lá na foto e dizer “ta magraaaaaaa ta lindaaaaaa ta poderosaaaa”, é bem possível dizer “maravilhosa como sempre! parabéns por ter atingido seus objetivos!”. Não é da nossa conta o que motivou alguém a perder peso (e nossa obsessão com emagrecimento é tamanha que muitas vezes deixamos de notar que alguém querido emagreceu por estar doente. Deprimido inclusive. Pois é).

Se você sabe que a pessoa estava de fato tentando perder peso, diga que fica feliz que ela tenha conseguido aquilo que ela se propôs a fazer. Fim. Ninguém é melhor ou mais bonito pq perdeu peso.

“Minha amiga ta se sentindo super mal com o corpo dela, se achando imensa de gorda. Mas na real ela nem é gorda. Como posso ajudá-la?”

Dizendo o quanto ela é incrível, o quanto ela fica linda com aquele shorts que ela morre de vergonha de usar. Mostrando mulheres com corpos parecidos com o dela usando roupas legais (o instagram pode ser uma ótima fonte de inspiração). Dizendo à ela que ser gorda não é algo ruim e também não é um sentimento. O processo de entender e amar o próprio corpo é lento e diário. Um dos primeiros passos é conseguir enxergar esse corpo de fato (e acreditem, muitas mulheres não conseguem reconhecer seus próprios corpos).

No entanto, falar coisas do tipo “olha aqui a Tess Holliday, gorda pra caramba e usa biquíni! Você também pode!”. Amiga, não. Não se faz necessário usar o corpo de uma mulher gorda pra se sentir bem com o seu próprio corpo. Uma foto da Tess de biquíni é sobre o empoderamento dela e de minas com corpos como o dela. Não é para que mulheres magras ou não tão gordas se sintam bem pensando “bom, se ela consegue se sentir bem DESSE TAMANHO, pode ser que eu também consiga”. Uma coisa é aprender a enxergar beleza em todos os tipos de corpos, outra é usar minas gordas para se sentir bem consigo. Não sejam essa pessoa, sério.

“Minha amiga é gorda e se acha feia por conta disso. Vivo elogiando o rosto dela. É uma boa, né?”

Olha, não é não. Nessas fica implícito que o corpo gordo é feio. E não é.

Elogie os braços, fale como determinada roupa a deixa ainda mais bonita. Se você for magra, não deprecie seu corpo quando estiver com ela. Lutar contra a gordofobia não é dizer que corpos gordos são bonitos e corpos magros não. A ideia é que todos os corpos são válidos, mas o mundo rejeita o corpo gordo (e não só esteticamente). Nós queremos um mundo que nos permita existir sem sofrimento, sem que nos estigmatizem, sem que nos cerceiem de direitos básicos por conta de nosso tamanho.

Temos que perceber o que falamos constantemente, pois falas gordofóbicas estão profundamente enraizadas no nosso discurso. Demora pra gente aprender a não parabenizar dietas unicamente pq as pessoas emagrecem com elas. Demora pra gente aprender a não condenar o hábito alimentar do outro. Demora pra gente aprender que cada um se veste como bem entender. Demora pra gente entender que todo corpo tem o direito de existir, e que não deve sofrer represálias por isso.

Demora. Mas a gente consegue.