Luta Histórica pela Libertação Gorda: ‘A vida em Fat Underground’ (parte 1)

Este texto, dividido em duas partes, é uma tradução de uma matéria escrita por Sara Golda Bracha Fishman (Revista Radiance, 1998). Você pode ter acesso ao texto completo e original aqui. Traduzido por Mary Francis.

Sul californianos têm a reputação de serem extremos, e estarem a um passo antes de todo mundo. Não é por acaso que Hollywood, provedora da tese mundial (via cinema) de que só pessoas magras merecem respeito, também produziu sua primeira antítese radical: o grupo Fat Underground [algo como ‘Gordas Clandestinas’, ‘Ocultas’, etc].

Fat Underground esteve ativo em Los Angeles pela década de 1970. Com perspectiva feminista, o grupo afirmava que a cultura americana teme a gordura porque teme mulheres poderosas, particularmente sua sensualidade e sexualidade. O grupo empregava uma retórica devastadora: médicos são os inimigos. Perda de peso é genocídio. Amigos com mais visibilidade — acadêmicos empáticos e outros no início do movimento pelo direito das pessoas gordas — pediam para que não fossem tão assertivas, mas acabaram por adotar muito da lógica subjacente de Fat Underground

Precursores

Radical significa “raíz”. Movimentos de libertação radical raramente tentam mudar leis discriminatórias. Ao invés disso, demandam mudanças em valores sociais fundamentais, que são vistos como a causa primária de todas as leis humanas. Esses valores não moldam apenas legislações, mas também afetam o modo como as pessoas veem e tratam umas às outras em interações cotidianas. Esses valores influenciam a autoimagem do indivíduo, podendo abrigar atitudes de auto-ódio e comportamentos de autoderrota em membros de grupos que a sociedade considera “inferior”. Esse insight foi a força motriz por trás do movimento Radical Therapy [Terapia Radical], um importante precursor para o Fat Underground. Radical Therapy se desenvolveu no início dos anos 1970 como um movimento de refutação assertivo às profissões consolidadas relacionadas à saúde mental. A psicoterapia convencional emprega a necessidade de mudança no indivíduo “mal ajustado”; terapeutas radicais condenam essa prática como uma abordagem que culpabiliza a vítima. “Mudem a sociedade, não a nós mesmos”, diziam. Praticantes da Radical Therapy (ou Radical Psychiatry [Psiquiatria Radical], como alguns chamavam) tinham orgulho de não ter credenciais profissionais. Os grupos de resolução de problemas onde as terapias ocorriam também eram locais de treinamento para o ativismo social.

O conceito principal da Radical Therapy é que uma opressão permanece intacta se for “mistificada”, ou seja, sua natureza está escondida. Opressores não dizem às suas vítimas “vamos te torturar até que se submeta à nossa vontade”. Eles dizem (e frequentemente acreditam nisso) “esse tratamento pode parecer doloroso ou injusto, mas é para o seu próprio bem”. Um exemplo seria a prática de “proteger” mulheres de abusos sexuais negando a elas acesso à educação ou empregos em áreas com maioria de homens empregados. Fat Underground via tratamentos médicos para perda de peso como uma forma de opressão mistificada.

Outro grande precursor para o Fat Underground foi o movimento Fat Pride[Orgulho Gordo]. Teve início em 1969 com a fundação da NAAFA, a [Associação Nacional para Avanço da Aceitação Gorda]. (…) Naquela época, como agora, a NAAFA têm como objetivo igualdade social e total aceitação de pessoas gordas dentro da sociedade existente.

Entre a literatura disponível no início dos anos 1970 sobre orgulho gordo estava o livro Fat Power [Poder Gordo], escrito por Llewellyn Louderback. O revolucionário trabalho documentava o crescente aumento da discriminação gordofóbica, juntamente com o crescimento da indústria da dieta. Ambos, argumentava Louderback, se baseavam muito mais em preconceito do que verdades médicas ou eficácia.

Pré-história

Em 1972, um grupo de mulheres contatou o centro de Radical Therapy em Berkeley, California, pedindo para serem treinadas como terapeutas radicais. Logo após, formaram um coletivo de terapia radical e começaram grupos de resolução de problemas para mulheres em Los Angeles. Entre elas estavam duas fundadoras do Fat Underground, Judy Freespirit e eu mesma.

A teoria sobre gordura ensinada em Berkeley por terapeutas radicais era a mesma apresentada pela cultura americana, com uma pitada de retórica nova: “você está gorda porque come muito, e come muito porque é oprimida”. Presumivelmente, qualquer pessoa que fosse engajada com revolução social deveria ser magra. Por este critério, Judy e eu éramos deixadas de alguma forma atrás de outros terapeutas radicais — ninguém nos criticava por isso abertamente, no entanto essa era uma questão que logo seria visível.

Ocorreu na ocasião de um convite enviado ao coletivo para falar sobre Radical Therapy em uma universidade local. Trabalhávamos em pares, mas quando Judy e eu nos voluntariamos para atender a esse convite em particular, o coletivo empacou. Após um curto e embaraçoso silêncio, um membro teve a coragem para dizer o que havia de errado: “vocês duas estão acima do peso”. Ser representado somente por duas mulheres gordas seria algo que danificaria a credibilidade de nosso grupo — ninguém disse, mas todos compreenderam.

Em favor do grupo, o coletivo superou esse medo e nos autorizou a irmos juntas falar. Decidimos usar a reação antecipadamente negativa da audiência como trampolim para discutirmos como padrões sexistas de beleza oprimem mulheres.

Teoria feminista à parte, a experiência com o coletivo foi humilhante. Decidi mais uma vez perder peso. Uma viagem até a biblioteca pública de Hollywood rendeu os típicos livros sobre dieta, e também Fat Power. Achei a história de Louderback sobre atitudes gordofóbicas interessante, mas suas reivindicações médicas e nutricionais esplêndidas. Em última análise, elas se tornariam o âmago dos argumentos médicos de Fat Underground, portanto apresento um sumário.

Primeiro, pessoas gordas em média não comem mais do que pessoas magras. Segundo, o sucesso prolongado de dietas restritivas, até mesmo as mais “sensatas” e regimes fiscalizados por médicos, é extremamente pequeno: apenas 1 ou 2 por cento. Terceiro, pessoas gordas que vivem em ambientes que não as julgam se veem livres de pelo menos uma doença que é comumente associada com ser gordo — infarto.

(…) [As declarações de Louderback] eram de documentos de saúde pública que resumiam anos de pesquisas publicadas, acessível a qualquer pessoa que tivesse um cartão da biblioteca. Mais importante ainda, suas descobertas condiziam com a experiência de uma mulher (eu mesma) que fez dieta quase continuamente desde os doze anos e continuava gorda.

Faltava uma análise política em Fat Power: Radical Therapy forneceu uma. A crença de que pessoas gordas são pessoas magras com maus hábitos alimentares agora poderia ser vista como parte de um sistema de opressão mistificada. Com o apoio de Judy, apresentei essa ideia ao coletivo Radical Therapy. A resposta foi mista, mas basicamente apoiaram. Eu e Judy contatamos a NAAFA e formamos um capítulo em Los Angeles. Recrutamos seis membros ativos, tanto homens quanto mulheres.

De início, nosso curto capítulo com a NAAFA lidou com uma postura de confronto no que diz respeito às profissões de saúde. Nós os acusávamos — médicos, psicólogos e oficiais de saúde pública — de esconder e distorcer fatos sobre gordura que estavam presentes em seus próprios diários profissionais de pesquisa. Assim fazendo, eles nos enganavam e jogavam o jogo da indústria multi bilionária da perda de peso, a qual explora medo de gordura e desprezo por pessoas gordas como meios de ganhar mais dinheiro. Nós afirmávamos que a maioria das pessoas gordas é gorda devido à biologia, não seu comportamento alimentar, e que a “cura” — fazer dietas — na verdade causa doenças, de infartos à transtornos alimentares. Nós rejeitávamos perda de peso como uma solução aos problemas de pessoas gordas.

De início, dependíamos das fontes citadas em Fat Power como apoio ao nosso ataque à classe médica. Após um ano aproximadamente, Lynn McAffee (Lynn Mabel-Lois), que havia trabalhado numa biblioteca médica, se juntou a nós. Ela nos ensinou como acessar bibliotecas médicas e procurarmos nós mesmas em diários de pesquisas. Assim nos tornamos capazes de citar fontes primárias e usar de argumentos científicos avançados em favor da libertação gorda. Dessa forma, ganhamos certo apoio de alguns principais profissionais de saúde.

Antes da internet, um modo importante de espalhar uma mensagem era conseguir apoio de grupos existentes que tivessem amplo acesso à mídia variada. Visando esse fim, escrevemos documentos sobre nossa posição e pressionamos organizações de esquerda e acadêmicos de saúde para nos ouvir — também contatávamos redes de rádio e televisão. Estando em Los Angeles, tínhamos acesso aos escritórios de redes nacionais de TV, e participamos em vários especiais sobre pessoas gordas e perda de peso nos Estados Unidos. Essas experiências eram sempre frustrantes. Os programas usavam profissionais da saúde para apresentarem fatos médicos sobre os perigos de ser gordo. Nós, os “gordinhos impertinentes” estávamos presentes somente por interesse humano. Assim que apresentávamos nossos fatos médicos, a gravação parava e o próximo convidado nos substituía no palco de gravação.

Nossa postura de confronto eventualmente chamou a atenção do escritório principal da NAAFA. Apesar de algumas lideranças nos aplaudirem privadamente, oficialmente nos foi dito para baixar o tom de nossas falas — também para sermos mais circunspectas sobre nossa ideologia feminista, uma vez que a maioria dos membros da NAAFA não estava pronta pra isso.

Em resposta, nos desvinculamos da NAAFA. O nome de nosso novo grupo, Fat Underground, foi sugerido por Judy Freespirit. (…) Éramos um homem (que logo saiu) e quatro mulheres. Judy e eu escrevemos o Manifesto pela Libertação Gorda em 1973; nele, expressamos nossa aliança com a esquerda radical e nossa intenção de batalhar contra a indústria da dieta. Mas como vimos, tivemos de lutar contra um inimigo muito mais pessoal: nossa identidade feminina “estragada”.

(Continua)