Pressões estéticas e gordofobia.

Assuntos que se cruzam, mas completamente distintos.

Falar sobre gordofobia sempre gera desconfortos. Em quem sofre e em quem pratica, já que muitas vezes as pessoas sequer conseguem identificar alguma atitude delas como gordofóbicas.

Quando falamos sobre gordofobia e o corpo da mulher, a coisa complica mais um pouco.

Se ambientes feministas lhe são familiares, em algum momento você já se deparou com o conceito de que existem pressões estéticas acerca do corpo da mulher.

É uma manobra muito comum do patriarcado: convencer mulheres de que seus corpos são inadequados, de que nunca serão boas o suficiente. “Você precisar perder 5kg”, “sua barriga precisa ser chapada”, “você não deve ter pelos, estrias, celulites. Seus peitos devem ser firmes, sua bunda durinha, sua cintura fininha, suas coxas não devem tocar uma na outra”. Isso tudo gera angústias, tristezas, descontentamentos. A sensação de nunca ser boa o suficiente. O controle do patriarcado acerca do corpo da mulher é tamanho que chegamos até a violência obstétrica, onde nos dizem que sequer sabemos parir. Pressões estéticas são sobre o controle do corpo da mulher a partir de ideais de beleza muitas vezes inatingíveis. Esse tipo de controle está atrelado ao conceito de que você, mulher, deve ser bela. Essa é sua única função na sociedade.

Tudo isso é horrível, mas não é gordofobia.

Imagine então todo esse sofrimento somado à sensação de que você é um incômodo na sociedade. Seu corpo é temido, é alvo do riso, da chacota, da rejeição. Seu corpo, para a sociedade, é sinônimo de doença, de preguiça, é um desvio moral. Seu corpo é sinônimo de ser invisível na sociedade. É alvo de negligência médica, da dificuldade de encontrar roupas por um preço acessível, e falando em acessível, nada no mundo é acessível para quem é gordo. Cadeiras, banheiros, meios de transporte. A gordofobia e o controle do corpo pelo patriarcado se cruzam, mas não são a mesma coisa.

Então, eis um pedido: reconheça seu lugar de privilégio, ainda que você também sofra opressão. Seja solidária à sua amiga gorda quando ela te diz que é ofensivo você dizer na frente dela que você está IMENSA DE GORDA. Ser gorda não é um sentimento, ou uma qualidade ruim. É uma realidade sobre determinados corpos.

E talvez você nem perceba que são corpos como o meu que você teme, porque tendemos a olhar nossas amigas com olhos cheios de amor (como seria bom nos vermos com esses mesmos olhos, não?).

“Mas se eu não sou gorda, o que eu sou?”

Pois é. A gente tem essa ideia louca de que magra é a moça da revista de manequim 34. Se você não é essa moça (e o mundo te cobra ser essa moça – e ao mesmo tempo te rechaça quando você é essa moça), automaticamente você entende que você é gorda.

Revelação: essa dicotomia é uma mentira, existem inúmeras conformações. Os movimentos de bodypositive tentam trazer essa noção às pessoas. Desconstruindo essa dicotomia, podemos então reconhecer nossos corpos. Compreendendo essa diversidade de corpos, é possível entender melhor os privilégios (ainda que mínimos, nós sabemos que mulheres não possuem lá muitos privilégios na nossa sociedade) e combater a gordofobia com maior eficácia.

Por isso os movimentos de bodypositive são de extrema importância, percebem? Mas lutar contra a gordofobia é muito mais pontual. É sobre corpos patologizados, sobre empregos negados, sobre pessoas morrendo por negligência médica, sobre espaços negados.

Não silencie a amiga gorda. Não apague o sofrimento dela. Ouça com carinho quando apontarem a sua gordofobia.

Todos estamos em processo diário de desconstrução.

Vamos juntos.