sobre construção de autoimagem

- olha, mãe, como eu to batatuda (apontei a panturrilha)

- nossa, tá mesmo, super forte. é, filha, você nunca vai usar uma roupa 38

Na hora respondi que nem 38, nem 40. Depois isso ficou martelando.

Porque além de gorda, eu sou alta. Algumas pessoas falam “ah mas você é grande”. É, eu tenho ossão e ganho musculatura fácil, mas sou gorda sim.

Minha mãe é do caralho, e digo isso para situar mesmo — não é o estereótipo de mãe mala. Apoiou quando eu decidi largar carreira, apoiou filho guei, luta pela gente sempre. Enfim.

Mas eu nunca vou vestir 38. O que está ok porque eu nem quero vestir 38, até falei para ela na hora e rimos. Em outras ocasiões também falamos sobre como isso atrapalha a vida de meninas muito mais que meninos e… Opa, divaguei.

O que isso me fez pensar foi que: 36 anos nessa indústria vital e a expectativa de estar num padrão (38) que simplesmente não é real para o meu corpo. Essa tentativa gera só frustração além de frustração. E mesmo quando estive magra (por uns 30 minutos e dependente de anfetaminas), com o IMC normal, como teimam em dizer, eu continuava me achando feia, ruim, inadequada.

Porque a minha autoimagem foi construída a partir desse padrão. 38.

Nunca aprendi a amar meus brações, meus pés grandes (e as piadinhas de sapatão que ouvi a vida toda… sigh), costas e ombros largos. Eu olhava as meninas mignon e sentia uma tristeza imensa por não ser como elas.

Como o tempo, sigo tentando desconstruir esses padrões, cada dia um pouco. E me aceitar, saber que meu corpo é belo, independente do tamanho dele. Tem hora que é difícil que só.

Se alguém tivesse me dito há 20 anos “você nunca vai vestir 38 e estamos ok com isso” teria me poupado um bom caminhão de sofrimentos, neuras e insatisfações.

#L