Sobre possibilidades

Uma pergunta bem comum que ouvimos quando começamos na militância e a apontar a gordofobia nas coisas é se fazer apologia à gordura não é errado. Acreditem — ouvi essa pergunta de um repórter de uma conceituada emissora de televisão quando expliquei para ele o que era gordofobia.

Bem, na verdade o primeiro comentário dele foi "nossa eu nem sabia que isso existia". Minha vontade de responder foi "É, querido, você, do alto do seu privilégio magro, certamente não sabe que isso existe". Mas estou me esforçando para ser um ser humano mais explicativo e menos combativo… Então expliquei que existe sim, que gordos são preteridos em entrevistas de emprego, que se assume que são preguiçosos, que não conseguem se vestir sem gastar (muito) mais por isso, e mais um monte de coisa que já falamos aqui, aqui e tantas outras vezes. E ele me olhou com cara de assombro e um (espero que genuíno…) interesse.

E depois ele perguntou se o que fazemos não é apologia à gordura e como nós nos colocamos contra recomendações mundiais de saúde. Sigh.

Vamos lá: Não. Não e não. A gente não faz apologia à gordura. Movimento gay quer fazer todo mundo "virar gay"? A descriminalização do aborto significa que vamos entrar nas casas das mulheres e arrancar os bebês de suas barrigas? Não né. Ah Luciana mas você está exagerando — estou sim. Estou exagerando e trazendo a extremos que já estão mais presentes na nossa vida. Temos ainda muita dificuldade em entender a gordofobia como um preconceito, que é o que ela é. Então paralelos com outros movimentos mais estabelecidos ajudam a entender.

Nesse sentido, uma vez eu ouvi a Juliana de Faria da Think Olga dizer que o objetivo do feminismo é que a mulher tenha MAIS escolhas. MAIS. Que ela possa ser o que ela quiser, trabalhar ou cuidar dos filhos, ir à manicure ou não se depilar. Mais. Qualquer coisa que diminui possibilidades não é feminismo. E como dissemos aqui, o feminismo e a luta contra a gordofobia andam de mãozinha dada. Então podemos extrapolar esse conceito e entender que queremos mostrar MAIS opções também para a mulher gorda. Que emagrecer não é o único caminho para se validar como ser humano, que ela pode ser gorda e fazer tudo, que ela pode ser feliz sendo gorda. E também que ela pode optar por emagrecer.

A luta contra gordofobia e a discussão que temos colocado tem como objetivo desconstruir preconceitos e pré-definições acerca das nossas vidas, que vêm acoplados um corpo gordo. Queremos mostrar que um corpo gordo não é necessariamente um corpo doente (assim como um corpo magro não é necessariamente saudável), que gordos praticam sim atividade física, que ser magro não é sinônimo de sucesso.

Não existe algo como uma agenda secreta em que fazemos pessoas magras engordarem ou demonizamos estilos de vida mais saudáveis. O que vamos criticar (e muito) são dietas loucas, são remédios para emagrecer, a presunção de que todas temos que querer (e fazer o que for preciso para para) emagrecer e outras atitudes que tenham por detrás o subtexto de que você só é um ser humano válido se for magra.

Já falamos também algumas vezes sobre a relação com a comida e como é importante que seja revisitada, um tema longo e complexo, ainda bem longe da exaustão.

Também precisamos discutir o fato de que uma pessoa se sente inapta a algo, somente porque seu corpo não se adequa ao corpo que ela vê estampado ao seu redor e o quanto isso é prejudicial e venenoso. Um corpo gordo tem suas possibilidades, que são diferentes de pessoa para pessoa.

Dana Falsetti, @nolatrees no Instagram

A Dana, no vídeo, fala que ela achava que seu corpo estava no meio do caminho entre ela e as coisas que ela gostaria de fazer. Pois deu para perceber que não né? Só que isso só é possível quando se faz as pazes com esse corpo, que é seu. E que mesmo você não o ame 100% do tempo, é o que te possibilita tudo. Infinitas coisas. Não dá para perceber essas possibilidades sem abrir as barreiras de preconceito que já temos e/ou que despejam na gente. E é para isso que falamos sobre gordofobia.

A partir do reconhecimento como ser humano válido, independente de tamanho, que é a primeira etapa (ainda estamos nela), é que podemos entender quais são nossas reais possibilidades e intenções. E só então lidar com essas possibilidades, da melhor forma, de forma saudável e consciente.

Vamos juntos?