sobre sermos um “nicho de mercado”
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Hoje tem bazar e conversa com as minas na Casa de Lua. Então me peguei pensando em algo que estou há tempos para escrever, que é sermos encaradas como um “nicho de mercado”.
A realidade do “mercado de nicho” faz parte da minha vida desde uns 15 anos, quando meu pé passou a ser 42. Nessa idade já tinha minha ‘altura final’. Nunca usei uma Melissinha que vem com a pochetezinha porque nunca fizeram meu número (traumas de infância). Mas fato é que, morando no interior, não tinha sapato feminino. Simplesmente não tinha. Eu usava tênis o tempo todo (nada contra tênis, até tenho amigos que são, mas eu realmente queria usar melissinhas…)
Mais ou menos por 1995, minha mãe descobriu uma loja aqui em SP que tinha sapatos femininos grandes. Não lembro bem o contexto, acho que era minha formatura do colégio. E então eu pela 1a vez entrei numa loja que tinha os sapatos que eu amava e achava lindos e que me cabiam (aqui ó — #ad). Finalmente havia um meio para eu fazer parte daquilo.
Depois de um tempão, vi uma reportagem sobre a mesma loja numa revista de negócios. E a loja era colocada como premium e por isso, os preços posicionados no mínimo 30% acima da média.
Um pouquinho de conceito de marketing: lei da oferta e da procura. Quanto mais oferta e menos procura, menor o preço. Quanto menos oferta e mais procura, maior o preço. Posso cobrar mais porque a pessoa tem que comprar comigo. Ou seja, ou pago os 30% a mais pelo sapato ou volto para os tênis.
O mesmo raciocínio pode ser transposto para roupas de gordas, a moda Plus size. E acho que ainda com alguns agravantes, porque sapato não tem o fator “vontade” ali. Meu pé e grande e pronto. Não posso, aos olhos de qqr pessoa, fazer algo para mudar isso.
Quanto à moda plus size, o primeiro ponto importante a se notar é a recente evolução e multiplicação das lojas especializadas, com modernização de conceito. Antes, as lojas tinham uns estilos nada modernos. Nada mesmo. Como não havia identificação com os estilos oferecidos nestas lojas, a opção que restava era jeans e camiseta, comprados em seções masculinas muitas vezes.
Essa evolução do mercado é sintomática, pois reflete um empoderamento maior e um reconhecimento de nós mesmas: sim, eu sou mulher, sim sou gorda e não tenho porque ter vergonha disso. Não queremos ser uma arara no fundo da loja.
As consumidoras mais mais conscientes de si geram uma mudança no mercado, com o crescimento das lojas com modelagem adequada para plus size, com conceitos mais modernos e diferentes estilos. (No fim do post darei algumas dicas baseadas totalmente em gosto pessoal e no meu estilo. Se quiserem sugerir outras nos comentários, sempre bom essa troca!)
Mais um conceito de marketing: consumimos um produto quando nos reconhecemos na imagem que ele projeta. Consumiremos plus size quando estivermos conscientes de quem somos.
Quando falamos de moda, ainda, há conceitos antropológicos de construção de identidade e pertencimento a determinados grupos que merecem ser mais elaborados em um outro momento.
Mas ainda somos nicho de mercado. Somos uma mercadoria especial, em lojas especiais, e quem faz roupas para nós pode cobrar mais. Muitas das lojas são e-commerce, e isso também reflete ainda como esse mercado ainda não tem capilarização. Se eu decidir agora que preciso de um vestido para um evento X amanhã, da minha loja preferida, não posso ir lá e comprar. E provavelmente não acharei nada.
No meu entendimento, também há um pouco da percepção que a gorda devia emagrecer para caber nas lojas de roupas “normais”. Isso sem falar na carga negativa que pode estar associada a essa distinção entre “normal” e “especial”.
Por mais que tenha um quê de exclusividade em ser um “nicho de mercado” e usar marcas exclusivas, eu preferia (e garanto que vocês também) pagar 30% a menos…..
Utilidade pública — algumas lojinhas:
e o maravilhoso Bazar Pop Plus Size