A camisinha consentida

Semana passada, dia 09, um homem francês foi condenado por estupro na Suíça. Tirou a camisinha durante uma transa, sem o consentimento da parceira. Ela só percebeu o ocorrido depois que tudo havia terminado (lê-se: o cara ter gozado).
A corte que julgou o caso determinou que a mulher recusaria fazer sexo, se soubesse que o preservativo teria sido retirado. O homem foi condenado a 12 meses de prisão.
Isso me lembra uma história parecida.
Era um final de festa. Eu e um colega levamos um outro que havia bebido demais embora. Ele já havia se declarado, levado um fora, e agora reclamava da vida segurando o resto de uma garrafa de vinho. Chorou, começou a tirar a roupa. Hora de ir para casa.
Depois de acalmar os ânimos, eu e o outro socorrista ficamos conversando sozinhos. Já havia um clima entre nós há um tempinho. E aí rolou. Não estávamos bêbados a ponto de reclamar da vida e chorar, mas o suficiente para tirarmos a roupa. Em consentimento.
Uma pegada aqui, um tapinha ali. Chão, cama, parede, otras cositas más... E aí o final — prazer líquido na minha barriga. Respirei por uns minutos antes de perguntar:
- Onde estava a camisinha?
- Tirei.
- Em que momento?
- Ai, não sei. Mais pro final. Estava me incomodando. Quer uma água?
Demorei um pouco para entender o que havia ocorrido. Como assim tirou a camisinha sem me pedir? O sexo ali não era a dois? Confesso não ter percebido a gravidade do que aconteceu na hora. Fiquei estranha. Quis ir para casa.
No dia seguinte liguei para uma amiga. Contei o ocorrido. Fomos à farmácia comprar pílula do dia seguinte. Que ótimo, lá vem a bomba de hormônio. Começou a cair a ficha. Contei para outra amiga. Conversei com ele. Falei da falta de respeito, dos riscos, do quão absurdo tinha sido o que ocorreu.
Passou.
Achei que a história estava morta, mas meses depois, em outro fim de festa, ele resolveu conversar comigo. Contar que essa história tinha vazado.
-Quem sabia?
-Ah, bastante gente.
-Como ninguém me disse?
-Sei lá.
Putz, que massa. Fiquei mal. Agora já deveria estar na boca da galera. Uma, só por ter transado com o alguém casualmente. E duas, por ter transado “sem camisinha” e tomado pílula do dia seguinte.
A cereja do bolo veio em seguida:
-Não acredito que você vazou essa história. Isso me queimou.
Ahn?
-Tinha outras meninas que eu saía na época. Uma ficou sabendo, e se recusou a transar comigo (pausa: palmas para essa mulher).
Coitado. Ficou extremamente raivoso. Porque claro que eu vazei. Não entendi de novo a gravidade da coisa. Acho que entendo agora.
Na verdade o ocorrido tinha que ter vazado sim, e intencionalmente. Deveria ter exposto, mostrado quanto ele foi ridículo, porque não aprendeu com isso. Não enxergou a gravidade do que fez e se colocou como prejudicado na história.
Fiquei chateada na época. Engoli a seco a acusação dele, e ainda me expliquei, falando que tinha dito isso para poucas pessoas, que não ganharia nada espalhando isso por aí. De fato eu perdi, não problematizando o que ocorreu.
Se um cara é julgado por estupro, como um outro pode se colocar de vítima, no mesmo caso? Confesso que senti um pouco de culpa ali. Mas culpa pelo quê, afinal? Deveria ter protegido o desrespeito que ele teve comigo? A atitude absurdamente egoísta?
É incrível a capacidade masculina de culpabilizar a mulher, sempre. Quantas de nós já não passamos por situações semelhantes?
Que essa caso na Suíça sirva de exemplo para os demais. Chega de inocentar o homem, e colocar o peso e a consequência de tudo que acontece na mulher. Que se aprenda a tratar a mulher de igual para igual. Se se deita contigo, é porque confia em você de alguma forma. Poderia estar com qualquer um, mas é contigo. Há algo aí. Não quebre essa confiança. Respeite. Ouça. Aprenda. Não seja escroto.

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