A poesia confessional de Anne Sexton

Por Amanda Lima.

Anne Sexton

É espantoso que em um lugar de escrita tão intimista como a que se encontra no Medium (em português) ninguém cite ou exponha sobre um dos maiores nomes da escrita confessional: Anne Sexton. A poesia também é nota marcada nesse meio e, mais uma vez, porque não falamos sobre a poesia visceral dessa escritora norte-americana? A resposta pode se encontrar no escasso número de publicações em português de livros da autora, até nas mídias tradicionais há silêncio sobre Anne Sexton.

O pouco que se encontra é restrito a uma biografia lançada em 1994 por Diane Wood Middlebrook, e ao solitário artigo no acervo de teses acadêmicas nacionais, o BDTD, de Renato Marques de Oliveira para a concessão de seu título de mestre em Literatura. Existem duas traduções que Oliveira apresenta em Antologia e Tradução Comentadas que servem como lupa da recôndita atividade de Sexton, da escrita como terapia e elucidação, assim se escrevem Said the Pot to the Analyst e The Farmer’s Wife:

Disse a poeta ao Analista
Meu negócio são palavras. Palavras são como rótulos,
ou moedas, ou melhor, como abelhas num enxame.
Confesso que só me arrebato pelas origens das coisas;
como se as palavras se deixassem contar, como abelhas mortas no sótão,
os olhos amarelos desabotoados, as asas secas despregadas.
Sempre preciso esquecer o quanto uma palavra consegue escolher
uma outra, educar uma outra, até juntar
algo que eu poderia ter dito …
mas não disse.
Seu negócio é vigiar minhas palavras.
Mas não admito nada.
Dou o melhor de mim, por exemplo,
para poder escrever um louvor à maquina caça-niqueis,
daquela noite em Nevada: para dizer como a bolada mágica
caiu tilintando, soando três campainhas na tela da sorte.
Mas se você disser que não é nada disso,
daí fico fraca, ao lembrar como minhas mãos se sentiram esquisitas
e ridículas e abarrotadas com todo aquele
dinheiro de faz-de-conta.
A mulher do fazendeiro
Do mingau
de sua lascívia rural,
suas vidinhas de Illinois,
onde todos os campos parecem
fábricas de vassouras florescentes,
eles agora dizem que já faz dez anos
que ela é o hábito dele;
e hoje de noite ele dirá de novo Vamo, benzinho
e ela não lhe dirá o quanto além disso é preciso
para viver, quanto mais do que esta breve ponte luminosa
da cama barulhenta ou ainda
mais do que os seus lentos toques em braille,
como os de um deus pesado que se torna leve,
esta velha pantomima do amor
que ela quer, mesmo que isso ainda a deixe sozinha,
enfim de volta a si,
distante dele, vivendo
a si mesma com suas próprias palavras
e detestando o suor da casa
que neles permanece quando finalmente se deitam
em sonhos separados
e então o jeito com que ela o observa.
ele que está ainda forte no saco balofo
do seu sono habitual, enquanto que dela
os anos de juventude passam trôpegos
pela mesma cama de casal
e ela o deseja aleijado, ou poeta, 
ou até sozinho, ou às vezes, 
melhor ainda, meu amor, morto.

Fui apresentada à ela em um palco de teatro, no roteiro de Juliana Gandolfe e Helena Machado, com a montagem das conversas sobre suicídio que A. Sexton tivera com Sylvia Plath, também poeta — qual seria, pois, o melhor método para se matar? No relacionamento com o marido que não lhe era suficiente, deixava-o com as crianças e chegava a porta bêbada pela manhã. No conselho de seu psiquiatra de escrever poesias como escape para a depressão que, bem aceito, lhe rendeu o Prêmio Pulitzer em 1967, não sendo suficiente para que ela não tirasse a vida aos 46 anos, em 1974. Todas essas transgressões não diminuíram o impacto que Sexton deixou em mim naquele ano de 2013. Anne devorava-me lentamente e preferia-me amarga, assim, inspirava as minhas construções narrativas permeando-as com a sua poesia marcante.

Há um tempo me criticava por criar personagens femininas desiludidas com os seus papéis sociais. Como não ofender as pessoas com quem cresci, donas de casa, esposas, ao escrever um conto sobre uma mulher que sente-se desintegrar junto aos móveis de casa, que finge o gozo com o artifício de falar o nome do marido, apenas para que ele se aquiete e não mais lhe incomode. Como explicar que há condições que não nos bastam (nós, as mulheres), sem com isso, menosprezar as que nela se encontram?

Há esse sentimento paradoxal que me empurro na maioria das vezes, sobre desconstruir os lugares-comuns da minha vida sem direcionar às pessoas a insensibilidade que só a visão bruta da transcrição íntima traz. O escritor, quando faz de suas palavras um confessionário, carrega o risco de ser maldito. Mas porque me apegar a essa parcela de culpa, quase como os pecados que não proferia nem ao padre da paróquia da minha adolescência, por colocar no papel todas os sentimentos obstados nas minhas vivências.

É assim que Anne se aproxima com a sua escrita pessoal, a surpreender com as palavras de seus poemas-diário, com ela é possível reafirmar-nos dotadas de todas as possibilidades criativas, para apresentar as outras pessoas, a mesma matéria íntima que aquela escritora apresentou. Se Anne Sexton poderia fazer a celebração de seu útero ao dizer “Tudo em mim é um passáro\Adejo com todas as minhas asas\Queriam extirpar-te\mas não o farão\Diziam que estavas incomensuravelmente vazio\ mas não estás\ Diziam que estavas doente prestes a morrer\mas estavam errados.\ Cantas como uma colegial\Tu não estas desfeito.\ Doce peso, em celebração da mulher que sou\ e da alma da mulher que sou\e da criatura central e do seu prazer\canto para ti. Atrevo-me a viver.”, e contemplar a existência particular de todas as mulheres ao continuar “Doce peso\em celebração da mulher que sou\deixe-me levar uma echarpe de três metros\deixe-me tocar o tambor pelas que têm dezenove anos\deixa-me levar taças para oferecer\(se é isso que me toca)\deixa-me estudar o tecido cardiovascular,\deixa-me chupar o pecíolo das flores\(se é isso que me toca)\Deixe-me imitar certas figuras tribais\ (se é isso que me toca).\Pois o corpo precisa disso,\que me deixes cantar\ para a ceia,\ para o beijo,\ para a correta\ afirmação.” porque, em especial, nós mulheres, não podemos escrever sobre o corpo que nos contempla no espelho, sobre os corpos que figuram na nossa imaginação, sobre o escândalo do erotismo saído de nossas mãos, sobre as inventividades da ficção científica maquinadas em nossos cérebros, ou sobre o horror a que se vê gênero dominado pelo punho masculino.

Eu não escrevo poesia, mas nas minhas histórias há muitas confissões. São estranhamentos de um corpo jovem, recém descoberto; fantasias subversivas,tem quem pense que ainda pode ganhar o mundo; e outras ainda, nascidas nos momentos mais obscuros dos meus dias. E se há algo que eu, que nós, mulheres que escrevem, podemos receber de Anne Sexton, é a sua coragem, fruto também de uma necessidade, a que quase todas nós nos vemos pegas no dia-a-dia para catalisar as situações de opressão e dos momentos que não nos bastam, para escrever sem temor ou inibição todos os temas, aflições e emoções por mais escandalosos ou incompreendidos que sejam à pauta tradicional.


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