As aventuras de uma gorda na academia

Sirena M.
Sirena M.
Aug 28, 2017 · 3 min read

Eu ia esperar mais tempo pra escrever sobre essa odisseia, mas acontece que eu já cheguei causando discórdia.

Comecei a malhar no dia 16 de agosto desse ano. Entrei na academia por motivos de: coluna com a musculatura enfraquecida, que me causava dores horríveis. Mesmo perdendo peso, o que todo mundo tinha como o culpado, a coluna não parava de doer. Resolvi ir num ortopedista, e descobri que as dores eram culpa da minha vida sedentária. Ele disse que eu poderia “emagrecer até virar um palito” que a dor não iria sumir. Incrível não? Pela primeira vez não culparam meu peso.

Daí o doutor receitou musculação.
Puxar ferro pra fortalecer os músculos das costas.

Esperei três meses pra criar coragem de procurar uma academia. Por puro medo de encontrar um ambiente tóxico. Quando se é gordo, é bem normal dar de cara com ódio gratuito. Nesse período eu refleti bastante sobre a forma como eu via meu corpo. Relembrei os regimes, remédios, e matrículas que foram ineficientes em me fazer emagrecer.

Então eu tive uma epifania.

Todas as vezes que eu usava um novo método emagrecedor, eu usava por pura pressão, da minha família e da sociedade. Sempre que aparecia um novo remédio pra perder peso minha mãe já me comprava. Era ruim a filha ser tão gorda. Ninguém gosta de gordos.

E eu perdia bastante peso.

Eu já cheguei a ir do manequim 54 pro 46 em 6 meses. Mas mesmo assim eu continuava me odiando. Todo mundo me elogiava e eu só sentia náuseas toda vez que alguém me parabenizava. Na minha cabeça eu continuava sendo aquela "gorda nojenta". Acabava que eu cedia a minha compulsão alimentar, e voltava a ganhar peso, e me odiava ainda mais.

Foi então que eu entendi que primeiro deveria me aceitar como sou, ter uma vida ativa e saudável, e se emagrecesse, seria por consequência do treinamento e não seria o meu objetivo.

Pois bem, cheguei no meu primeiro dia de exercícios, e expliquei tudinho pro meu treinador. Ele? Balançou a cabeça em afirmação e disse que "tudo bem" e não me pesou, seguindo minha vontade, mas na minha ficha ele escreveu... Objetivo: perda de peso.

Eu li, e relevei. Sabia que não entra na cabeça deles o fato de que ser gordo não é doença. Sedentarismo e compulsão alimentar são doenças.

Felizmente nos primeiros dias eu fiz amizade com duas mulheres. Ambas acima dos 30, estavam malhando por pura estética para alcançar aquele corpo ideal que tanto divulgam por aí. Quando eu disse a elas que estética não era meu objetivo, elas sorriram, e ali eu percebi um alívio. Uma aceitação silenciosa, um "tudo bem ter uma barriguinha saliente, vamos malhar pra sermos mais saudáveis". Se eu que era a mais gorda ali presente e não estava malhando para emagrecer, e sim para ser saudável, porque elas não poderiam pensa assim também, não é?

Mas aí surgiu um burburinho enquanto nós conversávamos sobre a nossa recente aceitação, e eu ouvi uma moça dizer:

"-Eu não consigo ser gorda!"

Na hora eu só sorri, ela estava longe de mim, então eu sorri e senti pena. Que pena que ela não tinha entendido nada do que eu estava dizendo. Eu não estava ali pregando o amor a gordura, eu estava ali dizendo pra aquelas mulheres incríveis que elas estavam bem do jeito que elas são. E que padrão estético é fútil e não deve ser seguido.

Desde então essa moça revira os olhos toda vez que ouve minha voz.

Meu amor próprio tinha feito sua primeira vítima.

Sabe? Eu não sinto raiva dela, eu sinto compaixão, pois sei que um dia ela vai entender que ela deve se amar, e não se importar com a porcentagem de tecido adiposo que ela tenha em seu corpo.

Um dia todas nós vamos nos amar, independente do nosso manequim.


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Monstro criado em cativeiro.

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