
As primeiras fugas
Pequenas coisas que ferem
Às vezes bate esse sentimento de fuga que parece ser a solução de todos os meus problemas e aflições. Então sinto essa imensa necessidade de viajar, de meter o pé na estrada. Minha família tem um imenso histórico de viagens pelo nordeste. As primeiras das quais me lembro foram ao interior da paraíba. Pai e mãe na frente e as quatro filhas espremidas no banco traseiro do carro. Não tinha jeito, ninguém poderia ficar para trás e o Ford, um corsel dois cinza, não tinha espaço para quatro pessoas atrás. Iam as quatro filhas brigando por cada centímetro de espaço, como se não bastasse esse aperto meus pais ainda levavam no carro, fora as malas, uma grande feira para meus avós maternos. Frutas, verduras, carne e outros mantimentos eram alocados no chão, nos colos, onde houvesse espaço e criatividade.
Quinhentos e quarenta quilômetros, mais de seis horas de viagem pro meio do sertão. A paisagem ia perdendo a cor verde e se acinzentava à medida que a estrada se desenrolava. Pedras, cactos, mandacarus e um calor insuportável, era assim que eu sabia que estávamos perto de Brejo do Cruz. Ao chegar era uma festa, a agonia passada dentro do carro era esquecida até a próxima viagem de ida, mas isso era o de menos. Havia uma liberdade naquele chão rachado que inebriava minha cabeça de menina, ali eu podia correr livre, sem tanta dureza dos meus pais. As manhãs eram de exploração, fosse no quintal de vovó ou de um vizinho, até mesmo subindo num pé de seriguela de um senhorzinho que morava numa casa daquela rua de terra que nunca será esquecida por mim. Costurava, bordava, fazia cavalinhos de madeira, qualquer coisa era motivo de alegria e agitação. A criançada se juntava e a brincadeira só se encerrava aos gritos de uma mãe ou uma avó ou quando a fome batia e corríamos para cozinha, enchendo as mãos de bolachas e doce de leite.
Sempre levava um caderninho, gostava de diários, daquela intimidade e carinho ao escrever:
“Meu querido amigo” ,“Meu querido diário”.
E minhas férias iam sendo narradas, às vezes detalhadamente, outras nas pressas por causa do alvoroço das amigas que chamavam pra brincar de pega-pega ou de casinha. Os nomes que escrevia, as pessoas que passavam por mim, as emoções de criança hoje me parecem estranhas, não recordo da maioria daquela gente, alguns morreram outros nunca mais soube o paradeiro. Os cadernos se perderam também naquele tempo e depois dele. Às vezes numa faxina ou arrumação algum ia parar no lixo, não me importava na época, mas hoje... Ah! Toda recordação daquele tempo me dá um pouco daquela sensação única de julho ou de dezembro: o calor de rachar, as moscas que voavam na mesa da cozinha, a agonia do carro, as brigas, os choros, até mesmo da tristeza, tudo é motivo de saudade. Eu menina, mocinha, moça. Cada pedaço de mim que se perdeu com o levar dos anos. A viagem era cansativa, a volta pra casa marcada pelas lágrimas e promessas com as amigas de que voltaríamos a nos encontrar e que iríamos trocar cartas para contar das vidas umas das outras. Esquecia as dores, o bullying que sofria no colégio, as coisas dolorosas que carregava na alma e no corpo. Viajar era meu consolo e minha forma de encontrar um refúgio da confusão que era a minha vida na “cidade grande”, onde tudo remetia a um esforço que não sabia ao certo qual era a finalidade, uma cobrança que me deixava confusa e uma incompreensão que me fazia calar muitas vezes.
Anos mais tarde vim entender que toda a minha vontade de ir pra longe era o medo da realidade e a embriaguez do recomeço em um chão novo, como os cadernos em branco que tanto me fascinavam pela chance de fazer melhor do que o antigo, de melhorar e até mesmo reescrever algumas histórias.
Meu nome é Isabella Luiz, mas no Medium comecei como Celina. Esse conto é de uma pequena série intitulada Pequenas coisas que ferem, que pretendo lançar aos pouquinhos aqui. Agradeço a todos pelo apoio nesses quase dois anos de escrita — quase — periódica. Esse ano estarei lançando meu primeiro livro, vai ter post futuro sobre isso, por enquanto ele está aquecendo outras mãos. Espero poder contar com o suporte de todos vocês como sempre. Um grande abraço!
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