Dos pontos de vista e coisas parecidas

Victoria Rebello

Pequena história de quando eu era mais nova: estava andando pela internet quando, por acaso, encontro um meme com uma suposta brasileira — e seus padrões reproduzidos vulgo peitos e bundas — e uma suposta mulher do oriente médio — e seus padrões reproduzidos vulgo burca. A imagem mostrava como pontos de vista podem diferir quando partem de pressupostos diferentes. Eu, na época, não dei muita atenção. Eu era inocente.

Tenho uma amiga que está viajando pelo sudeste asiático (inclusive, obrigada pela imagem incrível do início do texto). O fato é que, depois de um tempinho sem mostrar partes do corpo, ela me disse que abrir o Instagram e se deparar com a Pugliese é estranho.

O que me levou a pensar:

burcas são repressoras

mas corpos perfeitos também são

O fato é que, quando nós crescemos em uma cultura, dificilmente a criticamos — salvo raríssimas exceções abençoadas que abrem caminhos para discussões maravilhosas. Enquanto nós, meras ocidentais esclarecidas, julgamos absurdo mulheres submeterem-se ao uso de roupas que cubram seu corpo, a andar atrás de seus maridos nas ruas e se submeterem a comportamentos que, no nosso olhar instruído, são incompreensíveis, não percebemos padrões de comportamentos completamente invasivos e inúmeras vezes repressores da nossa cultura.

Crescemos numa cultura que naturalizou a busca de um corpo X para postar no Instagram e receber likes. Banalizamos cada parte do nosso corpo como se fosse resistência mostrá-las e cultuá-las — como se, ao colocar para fora as bundas fossemos garantir a liberdade que nunca tivemos. E, assim, criamos um complexo de auto imagem que distorce as nossas percepções sobre os nossos corpos, sobre as nossas intenções e sobre as nossas vidas.

A gente usa a burca do corpo perfeito. E nos deixamos validar por isso, simplesmente porque crescemos ouvindo essa verdade e não questionamos. Subjugamo-nos a padrões de beleza. Subjugamo-nos a uma série de pressupostos, prejudicamos nossa saúde com isso (porque aquela dieta da moda não faz bem pra sua saúde) e, por fim, criticamos outra cultura por não ser nosso meio comum.

Qual é, afinal, a resistência de estar exatamente onde a sociedade te encontra? É normal ir para a academia com a ânsia de chegar ao corpo que vai te dar likes (= felicidade)?

Depois que você sai do centro da sua cultura — depois que você se tira do meio comum em que tudo é normal e banal, quando você se encontra na tirinha e você não tem um pressuposto do que é certo e do que é errado — o que resta?

Vamos continuar essa discussão nos comentários?

(Para ver as imagens maravilhosas da Vic — que continua no seu tuor pelo sudeste asiático, só clicar aqui)


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