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“Homens Que Nunca Conheci”: cenografia do eu.

Sem poupar o leitor com palavras amenas, o livro Homens Que Nunca Conheci, da escritora Maíra Valério, nos apresenta uma espécie de espírito da época dos anos 2000. Os recursos imagéticos e narrativos nos jogam para um cenário que já não se apresenta tão distópico e nos aproxima de um tom cronista, satírico, que está amarrado à realidade, ao cotidiano das capas de jornais e telas de smartphones.

Já nos primeiros contos somos provocados por personagens que, à primeira vista, nos parecem caricatos. Porém, no decorrer da leitura, nos damos conta de que estão em qualquer esquina, dividindo conosco a mesa de bar ou até mesmo dentro de casa: é o homem que se alivia na pornografia, o moralista que entre quatro paredes destila seus reais desejos ou o cara infantilizado que procura esconderijo na máscara existencial.

Ao mesmo tempo que passamos pelas personagens, passamos por nós e, em uma autoanálise, somos jogados ao rompimento, ao riso e ficamos absortos quando concluímos que os sofrimentos e as mediocridades das quais falamos com distância são nossos espelhos. Dessa maneira, Homens Que Nunca Conheci constrói a cenografia do eu.

Os contos tratam de temas como sexo, amor, vícios, dependência tecnológica, depressão e abandono, tudo isso em passagens cotidianas. Contudo, longe de propor uma relação niilista com o mundo, o livro sugere o rompimento com esta estrutura colonial e patriarcal — mecanismos motrizes da desumanização de relacionamentos e corpos. A narrativa explora o humor e a subjetividade de suas personagens para expor, de maneira crítica e crua, um mobiliário de mazelas.

As temáticas atuais, contidas nas histórias, fogem da postura cristalizadora ou julgadora que se tornaram comuns nos debates de hoje, sejam eles no âmbito público ou privado. Os textos nos oferecem uma camada de transparência à leitura de um Brasil que encontra no caos, na violência e na hipocrisia o expurgo de sua imbecilidade. Ao lermos Homens Que Nunca Conheci, constatamos que as dinâmicas políticas e afetivas, do micro ao macro, nos transformam em meras peças para dar continuação a um projeto de apagamento das humanidades.

Apesar de listar uma cenografia densa, o livro, ao escrutinar nossas emoções e comportamentos, não deixa dúvida que a saída está em achar, ainda que em lugares recônditos, o humanismo, o humor, os tatos esquecidos, e nos reconhecer como seres essencialmente corpóreos e não apenas virtuais ou líquidos — para dizer a palavra do momento.

Com referências da cultura pop, temas da pós-modernidade e assuntos urgentes, Maíra Valério, em sua estreia como contista, recorta o tempo presente, fixa ele em nossas caras e ressalta suas cores, brincando com a densidade de nossas existências. Os textos, apesar de terem uma pegada descritiva, não se tornam rápidos de leitura. Suas palavras não propõem um mero entretenimento, mas sim a destruição de um mundo e de homens que não são mais possíveis, e os quais preferíamos não ter conhecido.

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O livro “Homens Que Nunca Conheci” está em pré-venda pela Editora Patuá. Compre o seu e apoie a literatura independente e realizada por mulheres: https://cutt.ly/vge2qu7

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Gabriela Sobral é paraense, escritora, jornalista e autora do livro Caranguejo (Editora Patuá). Atualmente divide-se entre o patrimônio cultural e a poesia no Rio de Janeiro. https://medium.com/@gabrielasobral

Publicação feita por mulheres. Edital para novas escritoras será aberto em Maio de 2021.

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Publicação feita por Mulheres no Medium. falecomelasesobreelas@gmail.com/ Edição: @senhoritanoite

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