“Mas nem um batonzinho?!”

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“Não, nem… É que eu não uso mesmo maquiagem, sabe?”

Sempre que eu conto isso às pessoas elas parecem não saber muito bem como lidar com essa informação! Depois do choque vem diferentes reações, claro, sendo a surpresa e o desagrado as mais comuns, mas a indiferença nunca dá as caras. É como se eu estivesse descumprindo uma das cláusulas do Estatuto da Mulher, ou coisa que o valha.

No início eu confesso que se tratava de falta de estímulo e também de um pouco de (ou muita) preguiça. Minha mãe nunca foi uma mulher que curtisse se maquiar, então vendo a liberdade dela de sair por aí de cara limpa eu me sentia a vontade para fazer o mesmo. Afinal, eu era muito mais nova, tinha o rosto muito menos marcado, então por que deveria me dar ao trabalho?

Com o tempo eu comecei a olhar o rosto de outras mulheres com maquiagem e percebi que aquele visual não me agradava. A falta de naturalidade me perturbava demais, para ser sincera. Por mais bem feita que fosse a make eu notava a artificialidade das (várias) camadas de cosmético cobrindo a pele nua e me sentia muito, muito incomodada. Várias vezes assisti aqueles vídeos de antes e depois, em que jovens se maquiam caprichosamente para mostrar como ficam mais bonitas assim e eu só conseguia pensar no quanto a versão anterior me parecia mil vezes mais interessante e mais bela.

Depois eu mesma tentei usar maquiagem, para ver se isso de fato causaria uma revolução na minha autoestima e na minha autoconfiança, como parecia acontecer com a esmagadora maioria das meninas ao meu redor. Algumas vezes fui às lojas do nicho e fiquei namorando os produtos, conversando com as vendedoras e em mais de uma oportunidade pedi que me explicassem como usá-los, afim de descobrir de uma vez por todas se o universo das makes era ou não para mim.

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Quando eu olhava o resultado no espelho a minha garganta quase sempre dava um nó e os meus olhos não demoravam a se encher de lágrimas. Não era emoção o que me acometia, como talvez você possa imaginar. A vontade de chorar se devia ao fato de que aquela situação toda me fazia sentir profundamente infeliz. Eu não conseguia me reconhecer daquele jeito e essa sensação me devastava. Não era mais eu ali, a Andressa que eu estava aprendendo a amar, com as marcas deixadas pelas espinhas na adolescência, com as olheiras profundas vindas das noites mal dormidas, com o nariz avermelhado e um hemangioma bem no meio na testa, que me acompanha desde que nasci. Era, isso sim, uma Andressa fabricada, escondendo as imperfeições que me formam e que contam a minha história, como se elas fossem motivos de vergonha, de constrangimento, e essa era uma realidade que eu jamais poderia admitir ou aceitar!

Passei então a falar abertamente sobre o assunto nas minhas rodas de conversa. Não agia mais como se tivesse saído apressada, sem tempo para passar uma base sequer, ou como se fosse tão descuidada comigo mesma que nem fazia o esforço mínimo de colocar um brilhinho labial. Quando me perguntavam eu falava a verdade, que não gostava de maquiagem, que não curtia como ficava em mim e que preferia não usar. Mais: confessava que me sentia maravilhosa de cara limpa, o que na minha humilde opinião não deveria perturbar ninguém, mas não demorou para eu notar que não era bem assim que o mundo girava.

É como ser gorda e tentar se aceitar gorda numa sociedade que despreza e trata os gordos como motivo de escárnio ou de preocupação (e eu uso esse exemplo justamente por viver isso também): o seu esforço para se libertar das amarras sociais incomoda, perturba, machuca. Não é de propósito, não é o meu desejo, mas claramente é o que acontece. São raros os indivíduos que encaram numa boa o fato de eu não querer encher minha cara com produtos que não me fazem sentir bem, ou que não veem nada demais em eu não querer viver de dieta. A sensação que tenho é que meu empoderamento cutuca pontos sensíveis demais de gente que sempre acreditou que para ser feliz precisava sim acordar uma hora mais cedo para se maquiar, ou que comprou o discurso de que engordar é um pecado mortal, desses que devemos evitar a qualquer custo!

É algo que me entristece, claro, mas que eu consigo entender e relevar com certa tranquilidade, porque sei que faz parte do jogo. Quando pensamos que todos se submetem àquilo que estamos nos submetemos costumamos reagir às opressões sociais de maneira muito mais passiva e submissa. Acabamos não questionando muito, justamente pela crença de que funciona da mesma forma para todo mundo. Eu não me acho transgressora por não usar maquiagem ou por ser gorda, entendo que são apenas características minhas, mas sei que essas características batem de frente com o que se espera das mulheres na nossa sociedade, que é ter um corpo magro e de preferência uma pele de porcelana, que de tão perfeita parece ser de mentira (SPOILER ALERT: muitas vezes é)!

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Eu me depilo, por exemplo. Não consigo me sentir bem com a ideia de sair por aí com as pernas ou as axilas cabeludas, ou sem fazer a sobrancelha e o buço, e sei muito bem que isso não tem nada a ver com higiene ou com uma escolha totalmente individual minha. É fruto, isso sim, de muita pressão social. O mesmo me acontece com os cabelos brancos, que me obrigo a tonalizar quinzenalmente, como se fosse um absurdo envelhecer e mostrar ao universo que eu aceito os sinais da passagem do tempo em mim, no meu corpo.

Eu vejo mulheres que conseguem quebrar essas barreiras que eu ainda não consigo (e não sei se um dia conseguirei) e as considero incríveis, porque de certa forma elas estão mostrando para o sistema que não são obrigadas a fazer nada que não queiram, assim como eu não sou obrigada a ter barriga negativa, peitos siliconados ou o rosto cheio de pó. Pode parecer irrelevante para quem se adéqua sem muitos esforços ao padrão vigente, ou para quem faz esses esforços sem refletir a respeito, mas quando a gente se sente feliz na nossa própria pele fica muito difícil voltar atrás.

Quando a cantora Alicia Keys publicou uma carta informando que não se maquiaria mais acabou recebendo muito mais críticas do que elogios ou incentivo. Sempre que ela surgiu em um tapete vermelho de cara limpa choveram reclamações, ironias e piadas a respeito de sua decisão. Depois ela se maquiou e fez uma capa de revista, para dizer que somos livres para nos maquiarmos ou não, mas ainda assim os protestos e os dedos apontados não pararam! É como se uma mulher jamais pudesse ser livre para fazer as suas próprias escolhas, sem que os outros se intrometam ou tentem interferir de alguma forma!

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Veja, assim como a Alicia eu também não tenho nada contra você se maquiar, se você gosta de maquiagem. Eu admiro muito as mulheres que fazem disso a sua terapia, que fazem das suas makes um acessório para exercer a sua feminilidade nessa sociedade misógina, que vive tentando nos destruir. As minhas roupas e as minhas tatuagens são algumas das minhas “armaduras” para esse mundo e eu não estou disposta a abrir mão delas, porque é assim que eu tomo posse do meu corpo e coloco para jogo a minha personalidade, a minha essência. Cada uma de nós tem o direito e o dever de existir da forma que é e que se sente melhor! Isso precisa ser pontuado, porque eu sei que mulheres que amam maquiagem muitas vezes são vistas como frescas, como fúteis e como “femininas demais”, o que é tão errado quanto eu ser criticada por não me maquiar! A liberdade tem que ser para todas, não serve se funcionar apenas para um grupo!

Agora, se você é mulher e só se sente bonita maquiada, se sente vergonha de ir à esquina sem corretivo e se pensa que para qualquer evento precisa fazer uma super make eu estou aqui para te dizer que existem outras possibilidades! Eu não me maquio NUNCA e vivo mesmo assim, acredite! Consigo me sentir bem comigo mesma (quase) sempre e tenho muito amor e muito orgulho da mulher que eu sou. Tenho certeza que assim como eu posso ficar de boa nesse sentido qualquer uma de nós pode, até porque eu não sou a única! Não temos que nos sentir constrangidas por não estarmos de cara pintada, não temos que nos justificar porque não passamos um rímel e não temos que pedir desculpas por não querermos fazer esse esforço! Se com a cara limpa o coração está leve e o sorriso aberto o que mais poderia importar?

E antes que me perguntem: não, eu não me maquio nem para as chamadas “ocasiões especiais”. Aliás, nem os homens o fazem e aparentemente está todo mundo muito tranquilo com isso, certo? Enfim! Nos próximos meses devem rolar pelo menos três desses eventos na minha vida: vai ter a minha colação de grau no curso de Marketing, a festa de quinze anos de uma das primas do meu noivo e provavelmente também acontecerá o meu casamento. Em nenhum desses momentos eu pretendo estar maquiada. Posso mudar de ideia, claro (e esse é um direito que eu tenho, inclusive), mas duvido que aconteça. Minha ideia é colocar essa cara aí da foto no sol, bem do jeitinho que ela é e brilhar muito, com as marcas e as manchas que ela tem e me permitindo ser livre e feliz exatamente como eu sou! Porque eu mereço! Porque eu quero! Porque eu posso! Porque nós podemos!

Euzinha no dia de hoje, às 8:00 da matina, no meu quintal

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