“She Is the Subject of More Hostile Criticism”, by Charles Dana Gibson. From Period Paper.

“Não é só por que ele é legal que você deve ficar com ele”

Eu ouvi isso de uma amiga e fez muito sentido.

O que costuma te atrair num homem? Eu costumo pensar em três coisas para permitir ele ser o cara por quem eu me apaixonaria: 1- ele tem que ser respeitoso; 2- ele tem que gostar de ver séries (Netflix); 3- ele tem que aguentar as minhas piadas ruins.

Ok, isso é no plano das ideias. Agora, na vida real, não é bem assim que a banda toca. Claro que se ele torcer para o time de futebol rival ao meu, eu já vou ficar um pezinho atrás com ele. Se ele compartilha a página “Orgulho de Ser Hetero” (ainda existe isso?) no Facebook, então, não seria só um pezinho, mas uma longa caminhada para trás.

E quando ele é (só) legal?

Pois é. Às vezes, o cara não é bem o que você procurava, nem o que você estava precisando naquele momento. Só que ele é… Legal. Ou seja, ele dá atenção, fala que ‘tá com saudades, diz que você é linda e essas coisas todas que mandam o protocolo romântico (ou de esperteza masculina, dependendo do caso).

Mas não, esse cara, o Sr. Legal, não vai saber conversar por horas sobre algum enredo de filme do Woody Allen. Nem vai criar piadinhas internas contigo. Não vai lembrar qual o seu perfume preferido nem vai pedir para você contar alguma memória de infância. O Sr. Legal é legal, mas não legal-legal. Ele é o legal-bonzinho. Nada mais.

From Giphy.

Mulheres e moças do meu Brasil varonil: quem nunca cedeu a um homem “cachorrinho” que atire a primeira pedra. A gente fica com a ilusão de que temos controle sobre algo (alguém) e, nesse mundo machista e conservador que vivemos, não é algo a que estamos muito acostumadas a ver/sentir/fazer, por isso esta ideia pura já nos excita: a de comandar um ser que costuma ter tudo ao seu favor (tradição, exploração da sexualidade, postos de trabalho, melhores salários sem justificativa racional e essas coisas que a gente já sabe e temos lutado para problematizar e expor).

A questão é:

Querendo ou não, você está usando, digo, ficando com alguém que não “te enche os olhos”… E por quê mesmo?

Vou dizer o porquê: porque gostamos da tal “validação masculina”. Isto é, superestimamos todo e qualquer gesto ou atitude (ou a maioria dos) que advém de um ser do sexo masculino e em nosso favor. Repare que isso já acontece de maneira mais sutil em situações do cotidiano como: experimente postar uma foto em que você se considere “gostosa” ou sexy em qualquer rede social. Suas amigas aparecem na tal foto e dizem que você está divônica, maravilhosa, a Beyoncé, etc. A sensação é boa? É. Mas não é “melhor” do que quando um amigo HOMEM comenta que você está gata.

Claro que isso não vale para todos os casos. Tem mina que está simplesmente cagando pra opinião dos macho tudo (por favor, me ensinem a ser assim e sofrerei menos nessa vida). Mas não dá pra dizer que a situação que eu descrevi acima seja rara.

Giphy.

Eu estava conversando, uma vez, com um daqueles integrantes da minha lista de transmissão amigos-que-a-gente-tem-vontade-de-pegar-mas-ainda-não-rolou-a-famosa-oportunidade (mentira, eu não tenho essa lista no Whatsapp. Mas tudo bem se eu tivesse?). A questão é que ele falou esses dias que estava complicado chegar nas minas hoje em dia; que qualquer coisa era assédio (de pronto, recomendei para ele não sair falando essas coisas por aí e perdoei-o mentalmente). Eu parei para pensar que, de fato, os homens não estão acostumados com um posicionamento rude ou frio da nossa parte depois que eles demonstram que olha, você é linda, estonteante, maravilhosa. Mas sabe, isso que deveria ser o comum a fazer mesmo: não devemos dar bola para fulaninho só porque ele é legal ou está querendo ser gentil.

Não se trata aqui das situações que exijam os mandamentos da boa educação, bons modos ou qualquer coisa que queiram alegar. Claro que você não vai sair por aí chutando os caras no saco ou estapeando eles porque eles tentaram te “cantar” (pelo menos, não são atitudes das mais recomendáveis, embora eu não te julgue caso queira fazê-lo). Acho que vale a máxima do “tenha bom senso” nessas horas: fazer barulho de sucção com a boca quando vê a mina? Errado; errou rude. Agora, cantar Tom Jobim quando olha a coisa mais linda e cheia de graça que vem e que passa? Not bad. Recitar um poema? Isso não estraga o dia de ninguém.

(Dicona para os homens que estão lendo esse texto e devem chegar até o fim dele sem xingar a mim e às futuras gerações que eu pensar ter: não confundam reclamações sobre assédio com uma proibição às cantadas dentro do propósito, no momento ideal e que não violam ninguém. Obrigada!).

O ponto é que não devemos nos sentir obrigadas a “retribuir” seja afetiva ou sexualmente um homem só por que ele abriu a porta do carro pra gente entrar ou por que ele pagou um jantar muito caro. Muito menos devemos aceitar qualquer companhia só pelo medo de ficar sozinha (por sinal, a Taís Bravo já falou brilhantemente sobre isso no texto Solteira sim, sozinha também publicado, aqui, na Fale com Elas).

Meu momento de lucidez sobre esse assunto foi quando eu estava conversando com uma amiga sobre um rapaz que acabara de conhecer e a única coisa que eu podia dizer sobre ele era: “ele é legal”. Ela devolveu com a frase que dá título a esse texto:

“Não é só por que ele é legal que você deve ficar com ele.”

E é verdade: se for assim, você vai acabar ficando com qualquer um… Que seja só legal.


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Conselho de amiga vale ouro, né? Foi um deles que me serviu de inspiração para escrever esse texto e fez com que eu questionasse um comportamento, uma tendência minha. Aproveito a oportunidade para mencionar esse texto da Julia Latorre, também publicado na FCE:


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