Imagem: Nimura Daisuke

O hímen libertino

Na minha “primeira vez” eu não tinha ideia do que fazer. Educação sexual nunca foi pauta em casa, qualquer menção em sexo era totalmente proibida, era motivo de vergonha e reprovação. A criação religiosa prezava a castidade e a procura pela santidade, o que retardou um pouco as minhas descobertas pessoais. A virgindade teria de ser preservada até o casamento, o corpo da mulher seria reservado ao marido e ao dever da reprodução. O papel digno na convenção familiar, a maternidade, seria o resultado de uma relação sexual. Era isso o que eu pensava aos dezesseis anos quando tive meu primeiro namorado. Passei quase três anos com ele, nunca tivemos nada, éramos da mesma igreja e convivíamos com as mesmas torturas no corpo e na alma. Mas minha “fé” foi maior que a dele e não cedi ao pecado da carne, a fornicação.


Meu segundo namorado não era nem de longe uma pessoa compreensível (pra não dizer que era um verdadeiro babaca). Ele já era “vivido”, segundo meu pai, “do mundo”. No dia em que decidimos transar eu tremia feito vara verde, não consegui relaxar e senti muita dor. Quando a coisa terminou o rapaz soltou um: “você parecia que estava morta”. Foi uma das piores experiências da minha vida. O choque tinha sido tão grande que não tinha reparado que não havia sangrado, nem uma única gota. Ele reparou.

-Você era realmente virgem?

Era, mas ele provavelmente não acreditou. Achei que tivesse nascido com defeito, mais tarde cogitei a hipótese de ter rompido o hímen por acidente e não ter percebido. Tinha lido certa vez a história de uma mulher que rompeu andando de bicicleta. Vai ver que eu tinha tido a mesma sorte. Mas ainda não é sobre esse momento que quero narrar.

Alguns anos depois, com mais juízo na cabeça, um pouco de amor próprio e livre de um relacionamento furada, tive um caso com um amigo de um amigo. Eu já tinha aprendido a curtir sexo, a me divertir com. Devia ser nossa sexta ou sétima vez. A transa não durava menos de uma hora, o cara tinha um fôlego, um ritmo que eu (quase) não conseguia acompanhar. Numa invertida de posição ele ficou por cima, tapou a minha boca com a mão e me sufocou com investidas numa velocidade assombrosa, quando terminamos deitei por cima dele, me recuperando do atentado. Comecei a sentir algo escorrer no meio das pernas. De início não dei a mínima, até começar a sair com um fluxo maior. Pus a mão e olhei: sangue.

-Acho que aconteceu um acidente.

-O que foi?

-Tô sangrando, muito. Não sei o que é isso.

Ele ligou a luz. Levantei e olhei a cena do crime. Tinha sangue escorrendo pelas pernas e nos lençóis da cama. Naquela altura do campeonato eu só conseguia imaginar que ele tinha estourado alguma coisa em mim, que tinha furado meu útero, qualquer coisa. Entrei em pânico e ele numa calmaria que não conseguia compreender.

-Pega um pano, água e sabão. Corre, antes que isso seque!

O sangue escorria das pernas para o chão. Meu medo de estar com alguma hemorragia havia passado, estava mais preocupada com a situação que estava se formando. Ele pôs a cueca, abriu a porta e saiu pra pegar as coisas. Eu corri pro banheiro, me lavei e tentei dar um jeito naquilo. Limpei o chão, lavei os lençóis. Fiquei nesse alvoroço enquanto ele mudava a música da playlist e começava a conversar sobre algo aleatório. Cara, como assim!?

Eu tenho esse hábito de deixar tudo em ordem quando estou na casa de outras pessoas, de não deixar rastros da minha presença. Ajeitei tudo direitinho, troquei o forro da cama, coloquei o lençol pra secar e respirei aliviada. Parei e pensei: “perdi meu p.a! (pau amigo), mas que porcaria!” Olhei pra ele, entretido com um vídeo do The Voice americano.

-Como você pode estar tão calmo?

-Fica tranquila, tá tudo bem. Você ficou tão nervosa que eu coloquei uma música pra ver se relaxava.

Fui pra casa e só conseguia pensar na cena do desespero. Tomei banho, coloquei o pijama e ainda pensava na cena, dormi relembrando a cena. Acordei mais tarde rindo. Foi quando a ficha caiu. A história do hímen veio à tona. E se ele nunca tivesse rompido?! Ri ainda mais da situação. Fiquei até aliviada, um mistério resolvido. Me diverti com a ideia de ter “perdido a virgindade” com aquela pessoa, sentindo prazer e não dor, escutando gemidos e não muxoxos.

Sabia que não ia rolar de novo. Entrei na internet pra ler sobre mulheres que não tiveram o hímen rompido na primeira relação sexual e o número de histórias era enorme. No meio da leitura o celular vibra.

“Hoje lá pelas 20h?”

Sorri pra tela do smartphone e pensei com meus botões: se eu conto isso acho que ele não acredita. Respondi a mensagem e deixei um comentário no site sobre himens não rompidos.


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